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O U2 luta contra a irrelevância

O grupo distribui de graça através do iTunes seu novo disco 'Songs of Innocence', o primeiro desde 2009

O CEO da Apple, Tim Cook (esquerda) e Bono, líder do U2, na apresentação do iPhone 6 em Cupertino. Ampliar foto
O CEO da Apple, Tim Cook (esquerda) e Bono, líder do U2, na apresentação do iPhone 6 em Cupertino. AP

Já faz uns anos, um musicólogo que não entendia de rock me perguntou o que eu achava do recém-lançado disco do U2, No Line on the Horizon (2009). Pedia referências que ele, observador distanciado da música popular, pudesse entender. Estive a ponto de responder que soava como uma banda com mais dedicação do que inspiração, mas escapei pela via óbvia: “Soa como... rock de estádio”.

Quer dizer, rock capaz de animar multidões, capaz de ambientar e justificar qualquer grande montagem de palco. Lembrava o que sobrava depois de escutar várias vezes: se você pegasse cada canção separadamente, podia encontrar detalhes atrativos, passagens inteligentes, ecos de grandezas do passado. Em geral, no entanto, onde antes ardiam fogueiras, tudo o que agora se encontravam eram chispas.

Não pertenço ao exército de detratores de Bono, essa massa irada que fica encontrando insuportáveis dissonâncias entre os ideais e a práxis do grupo inteiro. Ao contrário, compreendia que, conscientemente, estavam fazendo um pacto com o diabo e que podiam se queimar. Além disso, agradecia que tivessem convertido a última década do século passado em uma montanha russa de reinvenções e piruetas. Inevitavelmente, várias vezes as coisas deram errado, mas isto era parte do acordo: “vamos correr riscos, para acabarmos com as besteiras”.

O disco será mais analisado nas páginas da imprensa econômica

Entrado já o atual milênio, suponho que decidiram que se acabaram as piscadelas e as cumplicidades. Sua música perdeu tensão, nitidez, peso específico. O Novo Jogo se concretizava em dígitos que representavam dólares, libras, euros. Nenhuma piada: mais do que nunca, era preciso demonstrar de forma inapelável qual artista ou grupo era a máxima atração ao vivo, como ganhar o máximo com as propostas de patrocínio, quem ocupava o pódio.

Bom, o U2 tem seu Maquiavel, o manager Paul McGuinness, que atuava como sherpa em suas escaladas mais audazes. Mas eles mantêm a predisposição para negociar sem papas na língua com os poderosos do planeta, políticos ou econômicos. Uma quantidade com muitos zeros mudou de proprietário, em troca de que 500 milhões de usuários do iTunes (mais os que se inscreveram agora) recebam as onze canções de Songs of Innocence, uma exclusividade até 14 de outubro, quando chegará a todas as lojas com temas extras.

Além dessa cifra que é mantida em segredo, o que esperam ganhar o U2 e sua gravadora, a Universal? Possivelmente que o presente conquiste novos seguidores e que eles comprem os anteriores doze discos de estúdio. Mais que outros artistas, o U2 sofreu uma preocupante queda nas vendas. Segundo a contabilidade de Nielsen SoundScan, nos Estados Unidos foram vendidas 4,4 milhões de cópias de All That You Can't Leave Behind (2000). O seguinte, How to Dismantle an Atomic Bomb (2004) ficou em 3,3 milhões. Já No Line on the Horizon (2009) teve dificuldades para superar um milhão de exemplares.

Vendas e fantasia

Em 2001, Wilco lançou em streaming gratuito seu disco Yankee Hotel Foxtrot.

Seis anos depois, o Radiohead ofereceu online In Rainbows, pelo preço que o usuário quisesse pagar.

No mesmo ano, Prince presenteou seu novo disco, Planet Earth, com o jornal Daily Mail.

Em 2013, Bowie apostou no efeito surpresa e ofereceu Where Are We Now?, seu primeiro single desde 2006, no iTunes sem avisos prévios, além de colocar o vídeo em seu site. E em dezembro do mesmo ano, Beyoncé lançou diretamente online seu quinto disco, também no portal da Apple.

Isso também explica as agonias que rodearam a elaboração de Songs of Innocence. A priori, a temática parece sedutora: a evocação do impacto de ver os Ramones, o beliscão do primeiro amor, a violência terrorista em Dublin, a militância no exército de guitarras de The Clash, a Califórnia filtrada pelos Beach Boys, a morte da mãe de Bono, as ruas da infância e da adolescência.

E estou disposto a acreditar que, no começo, havia sentimentos genuínos e que algum resto de verdade pulsa sob essas canções brilhantes. Você fica elétrico quando The Edge recria sua arquitetura de guitarra em Iris (Hold me Close). Recebe com esperança o baixo obsessivo de Adam Clayton que abre Volcano. Aprecia que Bono recupere algo de sua convicção como vocalista. Mas a expressão das emoções termina sendo mais genérica do que poética; quando falam de seus primeiros encontros com o punk rock, recorrem a esse glam retumbante que enigmaticamente se colou no estilo da atualidade.

O que finalmente revela Songs of Innocence é que foi cozinhado a tal ponto que possui pouca cor, cheiro ou sabor. Mais que um erro de elaboração, trata-se de uma precaução; contratam um produtor destacado, Danger Mouse, e depois convocam os rapazes dourados, para que derramem seus pós mágicos. Quer dizer, Paul Epworth e Ryan Tedder, que ajudaram a produzir sucessos para Adele, Beyoncé, Taylor Swift e até a concorrência: Coldplay.

E ainda há mais alguns produtores, mas não quero cansar o leitor: estamos falando de uma banda de rock trabalhando com critérios de pop, somando os ganchos - coros, sintetizados, efeitos - que facilitam o acesso às rádios, o caminho musical até as lojas de franquia, ao som do momento. Aerodinâmico, brilhante, funcional, calculado para motivar os espectadores: uma alavanca para que voltem a ver os gladiadores na arena, então nada de experimentos e rupturas. Eles deslizam pelas baladas e imediatamente dá para visualizar os isqueiros (perdão, os celulares) agitando-se sobre o público.

Bono aproveitou para anunciar que depois haverá um 'Songs of Experience'

Ah, sim: o disco é de graça. Pelo que se intui, o preço do presente foi computado na coluna de gastos de marketing da Apple. Assim, eles baterão qualquer recorde sobre a difusão de um lançamento: ficarão como uma insignificância os milhões de cópias de Planet Earth que Prince distribuiu com jornais europeus. As Songs of Innocence são qualquer coisa menos inocentes: serão analisadas nas páginas cor-de-rosa da imprensa econômica. O Wall Street Journal informa que o primeiro single do disco, The Miracle (of Johnny Ramone), será um elemento central no lançamento dos novos iPhones e do Apple Watch, uma campanha de alcance global que durará um mês e conta com um investimento publicitário de 100 milhões de dólares (229 milhões de reais).

Com sua habitual eloquência, Bono aproveitou para anunciar que, depois de Songs of Innocence, deve sair um Songs of Experience. Por caso do tortuoso ritmo de trabalho do U2, convém tomar isso, por enquanto, como uma saudação ao visionário William Blake, cujas Songs of Innocence and Experience já estão em domínio público.

Se me perguntassem como soa este atual Songs of Innocence, novamente teria problemas para descrever. Mas não importa. Em 2009, encontrei-me no AVE Barcelona-Madrid com dezenas de fãs que tinham ido ao início da 360º Tour no Nou Camp, perfeitamente reconhecíveis pelos abundantes produtos de merchandising. Excitadas, um pouco agressivas (só encontrei garotas), comentavam o espetáculo com breves frases contundentes; não escutei uma única palavra sobre a música.