Coluna
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Legendas para fotos que não fiz (2)

Habituei-me a prestar mais atenção às pessoas, coisas e paisagens à minha volta para, impressas em meu corpo, evocá-las quando necessário

Não costumo carregar máquina fotográfica em minhas viagens. No início, pura distração. Frustrava-me voltar à casa e não possuir nada que pudesse acender o rastilho das lembranças recentes. Então, habituei-me a prestar mais atenção às pessoas, coisas e paisagens à minha volta para, impressas em meu corpo, evocá-las quando necessário. Ao invés de as recordações nascerem da fotografia, elas passaram a impregnar meus sentidos – cheiros, cores, barulhos, gostos, temperaturas. Abaixo, algumas legendas para instantâneos que não fiz.

Cataguases, MG (1969, janeiro) – Minha irmã me empurra para fora da foto de seus quinze anos.

Cabo Frio, RJ (1991, janeiro) – Era de uma sereia aquele canto noturno?

Belém, PA (1994, outubro) – Dois milhões de mãos agarram-se à corda que toca o coração de Nossa Senhora de Nazaré.

Maceió, AL (1995, julho) – O guarda-sol colorido nos protege dos problemas do mundo.

Rodeiro, MG (1996, agosto) – Silêncio de manhãs chuvosas, o que restou da fazenda do meu avô.

Roma, Itália (1997, julho) – A camisa que comprei de um camelô na Praça do Vaticano trazia uma estampa de Leonardo da Vinci. Nunca a usei: o número era pequeno.

Londres, Inglaterra (1997, julho, com José Tarcísio Lima) - Bebemos a manhã, loura cerveja, saudosos do nosso pobre rio Pomba.

Lisboa, Portugal (julho, 1998) - ... e ontem mesmo rumavam daqui frágeis caravelas...

Rio de Janeiro, RJ (1999, dezembro) – Só agora nos alertam que o Século não terminou ainda.

Salvador, BA (2001, setembro) – Os belíssimos olhos negros da mulher me contam que sou filho de Iemanjá.

Belo Horizonte, MG (2002, maio) – O verdadeiro sentido da vida encontramos no Mercado Municipal: jiló grelhado com iscas de fígado.

Brasília, DF (maio, 2003, com Ronaldo Cagiano) – O ônibus cruza os eixos de uma maquete.

Montevidéu, Uruguai (dezembro, 2003) – As bicicletas conversam deitadas na grama do parque.

Buenos Aires, Argentina (dezembro, 2003, com Helena R.) – Nem fogos de artifício: à meia-noite, desejamo-nos um feliz 2004 no Aeroporto de Ezeiza.

Verona, Itália (julho, 2004) – Julieta nas grimpas da Arena espia, travessa.

Milão, Itália (2004, julho) – A Igreja de Santa Maria delle Grazie está fechada – não será ainda desta vez que participaremos da Santa Ceia.

Padova, Itália (2004, julho) – Não há resquícios da miséria que empurrou meus avós para o mar.

Sesto San Giovanni, Itália (2004, julho, com Patrizia di Malta) – Acanhados, rostos submergem detrás das janelas.

Bordeaux, França (2005, maio, com Betty Mindlin) – Caminhamos pelo longo calçadão do antigo cais da cidade branca, enrolando os pés em cipós de uma longínqua aldeia Suruí, no coração da Amazônia.

Paris, França (2005, maio, com Tabajara Ruas) – Sentados num café da Rue Bonaparte lembramos exílios, esperanças, desilusões.

Saint Malo, França (maio, 2005) – À névoa, as ondas pirateiam calvados por entre os estreitos becos.

Santiago de Compostela, Espanha (2005, junho, com Carlos Quiroga) – Guarda-chuvas verdes galegos caminham orgulhosos, elegantes, confiantes.

Algum lugar entre Pontevedra e Porto, entre Espanha e Portugal (2005, julho) – A madrugada insinua-se entre as vozes sussurradas.

Póvoa do Varzim, Portugal (2006, fevereiro, com António Jorge Marques) – O poeta fustiga as musas altaneiras. Bebemos o vinho da maceração.

Óbidos, Portugal (2006, fevereiro) – Irritadas, as pedras sonham a solidão do outrora.

Hamburgo, Alemanha (2006, setembro, com Ray-Güde Mertin) – O professor oferece humilde sua riqueza: enrolado em papel-alumínio, um naco de pão preto.

São Paulo, SP (2006, outubro) – Em minha mesa, espalho pedaços de lembranças.