O Governo da Argentina não chega a um acordo com os fundos abutres

O mediador judicial dos EUA anuncia que o país sul-americano cairá no não-pagamento da dívida Buenos Aires depositou o dinheiro, mas foi bloqueado por um juiz de Nova York

O ministro Axel Kicillof chega para a negociação nesta quarta.
O ministro Axel Kicillof chega para a negociação nesta quarta.CARLO ALLEGRI (REUTERS)

A Argentina não chegou a um acordo com os fundos abutres e não pagará o dinheiro devido. Nesta quarta, vencia o prazo para evitar o não-pagamento do título público argentino Discount (desconto) sob a legislação dos EUA e da Europa, parte da dívida reestruturada em 2005 e 2010. O ministro de Economia da Argentina, Axel Kicillof, confirmou que não houve um acordo, segundo justificou, porque o país "não pode ceder" às condições "injustas" que foram exigidas. Kicillof sentenciou que não vai assinar "nenhum compromisso que comprometa o futuro dos argentinos" e ressaltou que recorrerão ao direito nacional e internacional.

Nesta quarta-feira, o capital privado bancário argentino havia se interposto entre o governo de Cristina Fernández de Kirchner e os fundos de investimento litigantes para evitar o default. As 27 entidades financeiras que integram a Associação de Bancos Privados de Capital Argentino (Adeba) ofereceram aos chamados fundos abutres uma garantia de aproximadamente 250 milhões de dólares para que estes credores solicitem ao juiz uma prorrogação na sentença que obriga o governo argentino a pagar 1,5 bilhão de dólares (3,37 bilhões de reais).

A mão estendida dos banqueiros argentinos parece muito útil para o juiz, para os “abutres” e para a presidenta Cristina Kirchner.

O paradoxo é que o pai da ideia, o homem que se ofereceu como salvador do default e arrastou outros banqueiros para que contribuíssem com o fundo, é o antigo kirchnerista Jorge Brito, presidente do Banco Macro, acusado há apenas dois meses, pelo ministro de Economia, Axel Kicillof, de querer provocar “uma enorme desvalorização no país”. As gozações nas redes sociais não demoraram a aparecer. Fizeram até uma paródia da canção da Copa do Mundo - Brasil, me diga o que sente, em ter em casa seu papai - e mudou a letra por: “Cristi, me diga o que sente... que Brito te salve do default”.

O ministro de Economia, Axel Kicillof, tinha viajado na terça-feira de forma inesperada para Nova York, para encabeçar a delegação de três membros de sua equipe que já tinham se reunido de manhã com Daniel Pollack, o advogado indicado pelo juiz Thomas Griesa para ser mediador entre o Governo e os fundos abutres. Kicillof debateu pela primeira vez frente a frente com os representantes dos fundos e saiu à meia-noite, depois de uma reunião de quatro horas e meia, com as mãos vazias. “Continuamos trabalhando. Com toda a seriedade que a questão merece. Como vocês entenderão, não posso dar informações”, apontou. Restavam 24 horas para que se cumprisse o período de graça disposto por Griesa para alcançar um acordo.

Ninguém queria o default. Nem o juiz - que já tinha advertido os advogados do governo argentino que os principais prejudicados seriam as pessoas comuns e não os abutres. Não beneficiava tampouco os abutres, porque iria postergar por tempo indeterminado o pagamento dos 1,5 bilhão de dólares que a Justiça havia aprovado. E tampouco era o desejo do governo argentino. Porque, por mais que este default não fosse tão traumático quanto o que aconteceu depois da crise de 2001, mantinha o ditado de que o país sempre sabe como entrar em um default, mas nunca como sair. No melhor dos casos, seriam agravados os problemas de uma economia que já se encontra em recessão e com sérias dificuldades para conseguir investimentos estrangeiros.

Por isso, a mão estendida dos banqueiros argentinos parecia muito útil para o juiz, para os abutres e para Cristina. O juiz tiraria de seus ombros uma pressão internacional como poucas vezes terá sentido um magistrado. Os abutres conseguiriam imediatamente parte do 1,5 bilhão de dólares que reclamam. E o Governo ganharia tempo para evitar as cláusulas contraídas com outros credores que poderiam exigir as mesmas condições de pagamento que os “abutres”, quer dizer, a cobrança da totalidade da dívida contraída.

O que ganham os bancos com sua ajuda?

E o que ganhariam os bancos privados? Que interesse teria Jorge Brito e o resto dos banqueiros em contribuir com seu capital como garantia? Uma razão possível é que, salvando o país do default, salvam também seus próprios interesses, já que eles possuem títulos da dívida soberana cujo valor poderia desabar frente a uma possível declaração de default. Para os analistas, a questão é muito mais simples... Ou mais complexa: o nome de Jorge Brito aparece no processo de corrupção que corre na Justiça contra o vice-presidente da Argentina, Amado Boudou. Mediante esta ajuda econômica, Brito garantiria a colaboração do Governo contra possíveis investigações do juiz que processa Boudou. Ou seja, o banqueiro Brito estaria comprando impunidade. Outros opinam que o Governo pressionou os banqueiros argentinos.

De qualquer forma, todas essas teses não eram mais do que especulações ao redor de uma negociação que se estendeu por todo o mês de graça concedido pelo juiz até bem avançada a quarta-feira, último dia para evitar o default. No escritório de Manhattan do mediador Daniel Pollack tudo era sigilo e discrição.

De Buenos Aires, Francisco Ribeiro Mendonça, um dos membros da Associação de Bancos Privados de Capital Argentino, jogava um pouco de luz sobre o possível acordo: “Estamos trabalhando na linha de contribuição dos bancos, para formar um fundo que de alguma maneira ajude a reinstalação do stay (postergação da sentença).” Ribeiro esclareceu que estava sendo negociado se a moratória poderia se estendida até setembro ou até janeiro. “O governo argentino quer que chegue até janeiro, para tranquilizar os próximos cinco meses; a contraparte vai querer que seja até setembro ou maximizar as garantias, são detalhes em discussão”, afirmou o banqueiro.

Ribeiro Mendonça não escondia seu otimismo: “Nenhuma conversa se frustra no último segundo. Tenho certeza de que hoje chegamos a um entendimento, porque [do contrário] não há ganhadores. Entendo que as partes estão puxando a corda para seu lado, tentando maximizar suas posições.”