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A guerra contra a inflação invade a campanha eleitoral

É consenso entre o Governo e a oposição de que é preciso atenuar a alta de preços

A presidenta Dilma Rousseff.
A presidenta Dilma Rousseff. REUTERS

A inflação deve ser tema da campanha eleitoral deste ano e o próprio governo já está ciente dessa realidade. Duas semanas atrás, a própria presidenta Dilma Rousseff já havia admitido para jornalistas de veículos estrangeiros que ainda havia uma lição de casa a ser feita no que diz respeito ao dragão que assombra o Brasil. “Temos uma cultura inflacionária crônica”, disse a mandatária no encontro, no Palácio da Alvorada, quando o índice da inflação oficial (IPCA) fechado de junho já estava batendo em 6,52% em 12 meses, acima da meta de 6,5% estabelecida pelo Banco Central. “O plano Real fez uma parte [para a estabilidade da moeda], mas é preciso acabar com a indexação”, avalia.

Nesta quarta-feira, 30, os três principais presidenciáveis terão a oportunidade de detalhar seus planos num encontro com representantes da iniciativa privada, na Confederação Nacional da Indústria, em Brasília.

No último dia 23, o vice-presidente Michel Temer disse, em entrevista à Reuters, que considera a inflação a maior preocupação da campanha para reeleger a presidenta Dilma Rousseff. “Estamos já em agosto e temos que segurar um pouco, (usar) políticas econômicas que impeçam a inflação”, declarou ele.

Na avaliação dos partidários de Eduardo Campos, do PSB, a percepção de que os preços altos incomodam o eleitor está claro, quando 74% da população admite que quer mudança, como mostrou a última pesquisa eleitoral do Datafolha. “Estão percebendo que a condução da economia vai mal e está piorando”, diz o coordenador da campanha socialista, Maurício Rands.

A equipe do socialista promete colocar a inflação no centro da meta, de 4,5%. “Não vai ser como neste governo que o teto virou meta”, critica o coordenador da campanha. O programa de governo da legenda, entretanto, evita citar medidas impopulares, como aumento maior de juros.

Na última ata divulgada pelo Comitê de Política Monetária (COPOM), o BC deixou claro que manteria os juros em 11% para evitar a inflação futura. Para Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, porém, esse índice não é suficiente para trazer o IPCA para níveis mais aceitáveis.

É exatamente nesse ponto que reside a diferença entre o Governo e a oposição: a dose que será utilizada para refrear o ímpeto inflacionário. Enquanto a equipe econômica de Rousseff opta por doses homeopáticas, que fazem o dragão resistir, seus principais adversários poderiam implementar um receituário mais ortodoxo, com um choque de juros mais altos. Neste caso, a inflação seria controlada mais rapidamente, embora a fórmula possa afetar ainda mais a atividade econômica também.

Ribeiro, da Tendências, explica que muitos dirigentes de empresas já têm isso claro, e estão esperando para tomar suas decisões de investimentos quando o próximo presidente for conhecido. “A leitura [do setor privado] é que se Aécio ou Campos forem vitoriosos, haverá uma inflação na meta efetivamente, e uma política fiscal mais austera”, diz ela.

Esse caminho, porém, tem um efeito colateral que pode jogar contra o próprio empresariado, avalia o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, interlocutor dos petistas. “Colocar a inflação no centro da meta a qualquer custo não dá certo. Aqui tem de ser com calma”, diz Belluzzo.

“Se houver uma paulada de juros para cima, numa economia que está desacelerando, vamos ter mais desemprego”, completa.

Uma coisa é certa. Se o plano Real, que completou 20 anos este ano, foi positivo para debelar a hiperinflação, que ultrapassa os três dígitos nos anos negros do Brasil até 1994, ainda cabe outro planejamento para desmontar os ecos desse período tão conturbado da economia brasileira. “Embora exista consciência de que a inflação ainda é um problema, não há um diagnóstico consensual e muito menos uma proposta que tenha conquistado corações e mentes”, afirma Edmar Bacha, um dos pais do plano Real. Ele lembra que o projeto de estabilização da moeda que extinguiu a hiperinflação teve raízes uma década antes, com um plano de estabilização, que ficou conhecido como Larida, em alusão aos economistas André Lara Resende e Pérsio Arida.

Foi exatamente esse projeto aperfeiçoado que o Governo de Fernando Henrique adotou de maneira bem-sucedida. “Tínhamos o ovo em 1984 e levamos dez anos para colocá-lo em pé”, diz Bacha.

O economista Mansueto Almeida, que mantém conversas com os partidários de Aécio Neves, diz que qualquer um que assuma a presidência em 2015 terá de sinalizar de que forma poderá recuperar a economia, diante de uma margem de manobra limitada. “Além de precisar incentivar os empresários a voltarem a investir, precisará administrar um cenário externo onde os Estados Unidos devem começar a aumentar a taxa de juros”, explica. Quando os juros sobem no mercado norte-americano, o mundo acompanha a mesma tendência.