A saia justa do banco Santander

Uma carta aos clientes, sugerindo que a melhora de Dilma nas pesquisas poderia piorar o câmbio e as bolsas, cria uma situação embaraçosa para a instituição que tem 20% dos lucros no Brasil

Desde que a presidenta Dilma Rousseff assumiu o poder, em 2011, o presidente mundial do Santander, Emílio Botín, esteve pelo menos quatro vezes no país. E nas quatro ocasiões, foi recebido pela presidenta no Palácio do Planalto, quando Botín fazia questão de tornar públicas suas mensagens de otimismo com o país. “O Banco Santander está muito contente de estar trabalhando neste país. Seguiremos crescendo e temos grande confiança em tudo o que está sendo feito no Brasil”, disse ele na última visita, no dia 12 de setembro de 2013.

É exatamente por essa relação estreita que a notícia de que o Banco Santander enviou uma carta aos clientes de alta renda nesta sexta-feira, sugerindo que a melhora de Rousseff nas pesquisas eleitorais poderia derrubar a bolsa de valores e o câmbio, caiu como uma bomba no Planalto. “A economia brasileira continua apresentando baixo crescimento, inflação alta e déficit em conta corrente… Difícil saber até quando vai durar esse cenário e qual será o desdobramento final de uma queda ainda maior de Dilma Rousseff nas pesquisas. Se a presidente se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas, um cenário de reversão pode surgir. O câmbio voltaria a se desvalorizar, juros longos retomariam alta e o índice da Bovespa cairia.”, diz trecho da carta.

Desde que o assunto ganhou o noticiário, o Santander se apressou em publicar em seu site, disponível para qualquer correntista, uma carta se retratando. “O Santander vem a público esclarecer que o texto enviado a um segmento de clientes, que representa apenas 0,18% de nossa base, em seu extrato mensal,… não reflete de forma alguma o posicionamento da instituição”, dizia o texto, que esclarecia que o referido texto feria a diretriz interna do banco que prevê que as análises econômicas não tragam viés político ou partidário.

Mas, o estrago já havia sido feito, e coube ao Partido dos Trabalhadores tomar a dianteira, uma vez que o Planalto não se pronunciou sobre o assunto. “O que aconteceu é proibido, pois não se pode fazer manifestações que interfiram na decisão de voto”, disse Rui Falcão, presidente do PT e coordenador da campanha de reeleição da presidenta neste ano, ao jornal O Estado de S. Paulo.

Botín, por sua vez, é esperado esta semana no Brasil para um evento promovido pelo banco sobre educação. Não se sabe ao certo se ele virá depois deste episódio, e se estará com a presidenta.

O banco espanhol entrou no Brasil no ano 2000, quando adquiriu, num lance surpreendente, o Banespa, banco público de São Paulo. Na época, dava-se como certo que seriam o Bradesco ou o Itaú, os maiores bancos brasileiros na ocasião, que levariam o cobiçado ativo. Para o Santander, no entanto, foi a porta de entrada para a sua operação no maior país do continente sulamericano. Hoje, o Brasil representa um quinto do lucro do grupo, depois de viver o boom econômico que se seguiu desde então.

Porém, como em qualquer casamento, a alegria e a tristeza fazem parte do acordo. E o Santander tem sentido as dores de uma economia mais difícil. No ano passado, por exemplo, o banco teve uma queda de quase 10% do lucro, em relação a 2012. Foram 5,7 bilhões de reais. No primeiro trimestre deste ano, uma nova queda da lucratividade: 14,92% menos que no primeiro trimestre de 2013, para um total de 518,4 milhões de reais.

Em junho deste ano, o artífice da entrada do Santander no Brasil, Francisco Luzón, que foi vice-presidente do Santander para a América Latina, disse durante a sua participação no Fórum Desenvolvimento, Inovação e Integração Regional, promovido pelo EL PAÍS em Porto Alegre, que o momento atual era de olhar para o futuro, após um trabalho excelente do governo federal nas bases da política econômica até três anos atrás. “Mas atualmente há investimento de menos, incertezas demais e crescimento baixo”, completou.