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Copa do Mundo 2014

Neymar nos revela o melhor da alma brasileira

Quem procura extremismos, ódios furiosos e posturas radicais não deve olhar para este país

Quiseram usar Neymar, quase uma criança, para lavar a triste derrota brasileira frente à Alemanha, que acabou refletindo numa tarde amarga toda a improvisação e fragilidade (e possivelmente até algo pior) na preparação da seleção do Brasil, país berço do futebol-arte, na sua segunda Copa em casa, 64 anos depois do Maracanazo.

Já Neymar, quase uma criança, reverteu as pretendidas manipulações por parte daqueles que tentam sempre tirar uma fatia política ou monetária do futebol e se revelou um adulto. Mais ainda, mostrou-nos, na sua entrevista coletiva de quinta-feira, como o verdadeiro coração dos brasileiros.

Mais de uma pessoa, dentro e fora do Brasil, gostaria de ter visto Neymar negando a evidência de que sua equipe mergulhou o país na depressão. Preferiam um Neymar explicando o inexplicável e defendendo o indefensável ou absolvendo a si mesmo por sua ausência no local da tragédia. Não foi o que ele fez. “Sim, fracassamos”, disse, e no plural.

Não minimizou a gravidade da falta que sofreu em campo, símbolo dessa violência que se acende com força cada vez maior no futebol, o qual já parece mais uma guerra do que uma competição esportiva e leal: “Dois centímetros a mais e eu poderia hoje estar numa cadeira de rodas”, disse. Terrível confissão.

Mas Neymar, surpreendendo, não amaldiçoou o seu agressor: “Desejo que Deus o abençoe e que tenha sucesso na sua carreira. Ele já me pediu perdão”.

Os que tentam se aproveitar do esporte nacional mais amado pelos brasileiros para seus fins políticos gostariam de ver um Neymar agressivo contra aqueles que acusam de “pessimistas e corvos”, que ele tivesse se apresentado com o peito erguido, defendendo a honra da bandeira nacional e minimizando a derrota.

Teriam gostado que ele dissesse abertamente que torceria pelos ferozes alemães que esmagaram o Brasil e contra os argentinos, competidores eternos do futebol canarinho. Ao contrário, previu uma vitória para os seus colegas de time no Barcelona, os argentinos Messi e Mascherano. Driblando o jogo político, pôs a nobreza da amizade acima dos cálculos mesquinhos.

Neymar nos revelou o melhor da alma brasileira sem necessidade de elucubrações do tipo antropológico ou sociológico. Escutando suas palavras improvisadas, o tom da sua voz, sua expressão entre dolorida e esperançada, sua falta de exibicionismo e arrogância, inclusive sua frágil fortaleza, pareceu-me escutar o melhor da alma do Brasil, aquela que acaba conquistando os estrangeiros e que torna simpático no mundo até mesmo o seu famoso jeitinho, essa malandra capacidade criativa dos brasileiros de fazerem frente à dureza das injustiças quando se sentem oprimidos pelo poder e pela esmagadora burocracia.

Quem procura extremismos, ódios furiosos, vinganças eternas, posturas radicais, em qualquer campo da vida, que não olhe para o Brasil. Este país, goste-se ou não, não é assim. Pode e deve ser criticado por mil outras coisas – começando nessas críticas de cima para baixo, porque é no chão, junto ao pó do abandono e da dor, onde germina o melhor dos brasileiros –, mas não por sua arrogância ou por sua falta de fé na superação de seus dramas.

Neymar nos deu na quinta uma fotografia do melhor deste povo. Pediu que nem nos piores momentos de crise tenhamos a tentação de querer “mudar tudo”, de colocar tudo de pernas para o ar. Não é assim como se sai das crises, disse Neymar. “Aprendemos também com as derrotas”, afirmou, sem saber certamente que isso já era algo defendido pelos grandes filósofos gregos.

Como bom brasileiro, Neymar se abraçou à sua fé, na hora escura em que poderia ter ficado paralítico: “Deus me abençoou aí”. Usou essa capacidade tão brasileira de acreditar que sempre, em meio a uma tragédia, tudo poderia ter sido pior.

O pequeno Davi do futebol brasileiro acabou revelando seu sonho: “Quero voltar a ser feliz”, vocação à qual os brasileiros não renunciam nem no meio das noites mais lúgubres. Estão cheios de amor por causa da festa, algo que não abandonam nem com os olhos carregados de lágrimas.

Sempre sustentei, em meus 15 anos de permanência no Brasil, que o melhor dos brasileiros é aquilo que nós, estrangeiros, costumamos criticar neles: essa capacidade se saber encarar as coisas sem tanto drama.

Debilidade congênita? Ilusionismo para não sucumbir a tantas perdas, desigualdades e injustiças que o poder lhes impõe? Conformismo que paralisa?

Que respondam os especialistas. Eu gosto desse sonho de Neymar, essa sua tremenda ousadia de querer usar sua genialidade no futebol para que as pessoas possam continuar sorrindo.

Voltar a sorrir não é esquecer – e Neymar sabe disso muito bem –, mas é a melhor forma de não serem arrastados por esse sentimento de perda que revestiu de luto este país que, contra tudo o que já se escreveu, não gosta de chorar, nem de fazer chorar. Prefere sempre o abraço que acolhe aos punhos fechados da intolerância que ameaça. Talvez, justamente quando esses punhos fechados pretendem levantar a cabeça, os brasileiros se sentem traídos em sua própria identidade.

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