Coluna
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Triunfalistas F.C. vs. Derrotistas F.R.

O sofrido resultado ontem no Castelão só vale até a próxima terça e, caso continue, precisará ser consagrado na catedral do Maracanã

Vencer sem convencer – poderia ser pior. Vitórias e derrotas têm gradações, tons, nuances, diferentes sabores. O placar de ontem no Castelão não é definitivo. As vitórias de Pirro, há 2.280 anos, também deixaram gosto amargo. Malogros e perdas podem ser moralmente superiores a logros e ganhos. E vice-versa.

O êxito é inconfiável, ambíguo: deriva de exit, sair, morrer, porém, é mais lembrado no outro extremo, como sucesso – que, antecipado por um minúsculo prefixo negativo, transforma-se em insucesso.

Perversa relatividade, impiedoso relativismo: destroem diferenças, definições, conclusões, tudo fica móvel, provisório. Com apenas duas ou três letras reverte-se e se desmancha o que parece sólido, definitivo, inequívoco – ventura é quase desventura, graça é quase desgraça.

O sofrido resultado ontem no Castelão só vale até a próxima terça e, caso continue, precisará ser consagrado na catedral do Maracanã. Qualquer que seja o vencedor da grand finale, o delírio vitorioso será passageiro, fugaz a dor do vencido. O Day After é um pêndulo inexorável, insaciável, imponderável, instância mais do que suprema.

Os triunfalistas de agora se sentiam derrotados ao começar o torneio mundial de futebol, o espectro do #nãovaitercopa impunha-se às esperanças de um maravilhoso evento. Teve Copa, os visitantes estão adorando, imaginavam que seria pior. Tudo bem, OK. Ma non tropo: para festeiros qualquer festa é boa, algumas poderiam ser melhores, sobretudo quando o custo fica abaixo dos benefícios.

Uma nação estável, estruturada, necessita tanto dos otimistas quanto dos pessimistas. Em porções rigorosamente iguais. A função dos derrotistas é sacudir os arrogantes, alertar para a falibilidade dos infalíveis. Dos triunfalistas espera-se animação, impulso, superação.

Neste panorama pouco edificante, acrescenta-se o deplorável jogo de empurra para chegar aos responsáveis pelo desabamento do viaduto em Belo Horizonte, perto do Mineirão onde será disputada a semifinal da Copa. A obra estava incluída no PAC da Mobilidade Urbana, mas executada pela prefeitura da capital. A tentativa de incriminar o Governo federal ou o municipal para obter dividendos eleitorais é um escárnio às vítimas. Só serve para desqualificar nosso processo político e nossa aversão a qualquer modalidade de convivência e co-habitação.

Horas antes do pífio espetáculo em Fortaleza (que um pusilânime árbitro espanhol conseguiu piorar), a Alemanha eliminou a França, sua adversária em três sangrentas guerras de verdade e dezenas de confrontos desportivos de alto nível. O placar do Maracanã só registrou um único gol, porém no quesito fair-play e esportividade foi uma goleada de 10 a 10.

Prossegue a Copa das Copas, as zebras ainda podem aprontar surpresas. O mais importante é anular este fla-flu de várzea entre o Triunfalistas Futebol Clube e seu rival, o Derrotistas Futebol e Regatas. Nele todos perdem.