Seguindo os passos de Lênin

Por coincidências do destino, foram dois encontros com ele em um curto espaço de tempo

Por uma dessas estranhas coincidências, num curto período de tempo esbarrei duas vezes com o líder comunista Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido por seu apelido, Lênin, que, quer comunguemos ou não com suas ideias revolucionárias, foi uma das personalidades mais significativas do conturbadíssimo Século XX. Comecemos pelo último encontro.

Em maio, fui a Helsinque lançar a edição finlandesa de meu romance, Eles eram muitos cavalos, durante o Maailma Kylässä, um festival de cultura que ocupa, num fim de semana, a praça principal e o mais importante dos inúmeros parques da cidade, oferecendo gastronomia, música e literatura de vários países, além de discussões sobre problemas do terceiro mundo, algo absolutamente corriqueiro numa sociedade que faz da solidariedade um de seus pilares.

Sempre acompanhado pelo incansável Mika Rönkkö, conheci os mais importantes pontos turísticos de Helsinque, tão lindos que parecem despregar-se de cartões postais. Numa das vezes, fomos almoçar no Juttutupa, o restaurante do sindicato dos trabalhadores, situado no “lado vermelho” da cidade. Lá, a um canto, há uma mesa preservada, onde Lênin, em 1908, se sentava para comer e conspirar. O líder soviético esteve em Helsinque em várias ocasiões, escondendo-se da polícia czarista. A Finlândia, embora na época pertencesse ao Império Russo, possuía relativa autonomia, e não era difícil para Lênin entrar e sair disfarçado do território, com ajuda de seus camaradas finlandeses.

Cerca de um ano e meio antes, em outubro de 2012, estive em Zurique, na Suíça, para realizar uma conferência na universidade e lançar a edição alemã de Eles eram muitos cavalos. Lá, fui ciceroneado por Albert von Brunn, responsável pelo acervo de língua portuguesa da Biblioteca Central. Após um inesquecível jantar em sua casa, Albert, e sua esposa, Judith, me fizeram recomendações sobre o que conhecer na cidade. Nos dois dias seguintes, perambulei pelas ruas, maravilhado.

Fui ao Museu de Belas Artes que possui uma enorme coleção de obras de Alberto Giacometti; estive na abadia Fraumünster, que remonta ao Século IX, em cujos vitrais Marc Chagall deixou traços de sua genialidade; passei pelo Cabaret Voltaire, berço do dadaísmo, movimento de vanguarda fundado por Tristan Tzara, que liderava um grupo de expatriados fugidos da convocação para lutar na Primeira Guerra Mundial; respirei os ares art nouveau do Café Odeon, junto com Einstein, Thomas Mann e James Joyce... E mirei a casa de onde Lênin, em 9 de abril de 1917, saiu para chefiar a revolução em curso na Rússia.

A História é uma dama caprichosa. Lênin deixou a Suíça com a ajuda dos alemães, que lutavam, na frente oriental, contra o exército russo. Ao chegar ao poder, o líder soviético convenceu seus comandados a renunciar aos combates, unilateralmente. Assim, em 3 de março de 1918, com a assinatura do Tratado de Brest-Litovski, os alemães puderam transferir tropas para a frente ocidental, onde batiam-se contra os aliados franceses, ingleses e norte-americanos, alimentando a carnificina por mais oito meses. Nesse mesmo tratado, era reconhecida a independência da Finlândia, o que desencadeou uma terrível guerra civil entre brancos e vermelhos. Tanto a Alemanha quanto a Finlândia, por diferentes razões, voltariam a enfrentar a Rússia, já então denominada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), duas décadas depois... Mas, então, Lênin encontrava-se morto há mais de 15 anos...

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