Copa do Mundo Brasil 2014

O centroavante, uma espécie em extinção

Os jogadores que permanecem nas áreas para o ponto final têm cada vez mais um papel secundário

James e Neymar, os camisas 'dez' da Colômbia e do Brasil.
James e Neymar, os camisas 'dez' da Colômbia e do Brasil. (AFP)

A Copa do Mundo, que sempre certifica tendências, concretizou definitivamente que no futebol mudou a ordem numérica: o nove de ontem é o dez disfarçado de hoje. Os centroavantes clássicos, jogadores que permanecem nas áreas para o ponto final, estão extintos ou têm um papel secundário. O gol destes tempos é assunto de jogadores que participam da arquitetura, que chegam à área como visitantes e deixam seu recado para a glória: James, Neymar, Messi, Robben, Müller, Benzema… Uns jogam mais perto do gol rival, como o alemão e o francês, mas seu radar é amplo, entram e saem das zonas quentes sem hora marcada. Os outros são uma ameaça vindo da periferia. E aos seis mais destacados do campeonato é possível acrescentar perfis como os de Van Persie, Bryan Ruiz, Giovani, Sterling, Jackson Martínez, Shaquiri e vários outros.

Até o momento, o nove de toda a vida ou não teve impacto algum (Diego Costa, Fred, Jo, Mandzukic, Mitroglou, Hugo Almeida, Lukaku, Dzeko…) ou apenas foi o último recurso. É o caso de Klose e Huntelaar, reservas que têm bastante corda quando a coisa está crua e apenas resta devastar a área com chuveirinhos. Na França, empanturrada de gols de Henry, Platini e Zidane, que atacavam do horizonte com o fraque vestido, hoje entra e sai Giroud, o velho protótipo de centroavante pesado na balança. Sem ele, com o ligeiro Griezmann e Benzema com outra panorâmica, os azuis mostraram sua melhor versão contra a Nigéria jogaram mais e arremataram o triplo de vezes.

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É verdade que os atacantes puros com maior reputação ficaram foram da Copa, como Ibrahimovic e Lewandowski. E que no infinito repertório que oferece o futebol, no qual não há uma teoria única, não foram poucos os novatos que viraram lenda: Zarra, Seeler, César, Gerd Müller, Quini, Hugo Sánchez… Por diferentes motivos, hoje são recusados. A Espanha do nove mentiroso, o Real Madrid de Cristiano ou o Barça de Messi terminaram por impor esta nova corrente. Acontece que não era uma extravagância colocar Silva ou Cesc como atacantes postiços. Nem sequer a seleção espanhola foi pioneira na simulação. Os precedentes apontam para as melhores equipes da história, que fingiam com pontas que se afastavam das retaguardas e irrompiam com um chutão, sem aviso prévio, para alarme dos zagueiros, a maioria rígidos como estacas. Foi o caso de Pedernera na Máquina do River, Hidegkuti na fabulosa Hungria dos cinquenta, Di Stéfano e Puskas no Real Madrid que colonizou a Copa da Europa. E do Brasil mais genuíno e universalmente festejado. Nem Pelé era um nove, muito menos era o sutil delineante Tostão. Da mítica Canarinha de 82, capaz de ser lendária sem ganhar o título, não há quem se lembre de Serginho, um corpo estranho entre Zico, Falcão, Cerezo e Sócrates.

O mesmo se pode dizer da Laranja Mecânica, na qual Cruyff era um espírito livre com o 14 nas costas e as posições do 1 e do 9 eram irrelevantes. O máximo goleador da Copa de 74 foi um meio tampinha como Neeskens e os que também flertavam com o gol eram Rep e Rensenbrink. O próprio Cruyff construiu um Dream Team no qual Laudrup podia ser o atacante central. E a máxima expressão chegou com Guardiola e a investida de Messi como aparente goleador. Com estes antepassados, é chocante que seja precisamente a Espanha e o Brasil que apostaram por um farol permanente na área. Ao contrário dos ingleses — Rooney, Sturridge — ou os alemães, que sempre tiveram o dogma do tanque em seu manual.

James, Neymar, Messi, Robben, Müller e Benzema chegam à área como visitantes

James, Neymar, Messi, Robben, Müller e Benzema chegam à área como visitantes

Robben, em frente ao goleiro mexicano Ochoa.
Robben, em frente ao goleiro mexicano Ochoa. (AFP)

Os caçadores de gol perderam o rastro e o gol é coisa do talento. Eles criam seu próprio algo com uma pontaria assombrosa: James fez 15 arremates e só um não foi entre os três paus — Robben (12/1), Messi (13/6), Benzema (25/6), Neymar (15/2) e Müller (13/5). Um velho axioma dizia que para o gol é preciso estar fresco. Pois não é totalmente verdade. Thomas Müller é o quinto jogador que mais distância percorreu (46,4 quilômetros; 19,8 com a bola, 13,6 sem ela e 29,2 km/h de velocidade máxima). Entre os 6 maiores goleadores é seguido por Robben, que completou 42,7 quilômetros (15,7 com a bola e 14,5 sem ela, e 31 km/hora); Neymar (40,8 km: 15,7 com a bola e 13,4 sem, e 31,8 km/hora); Benzema (37,9: 14,8 com e 11,6 sem, e 29,1 km/hora); e James (36: 13 e 12,6, e 30,9 km/hora). E com uma partida a menos, Messi (22,3; 10,5 e 5,6, e 29,6 km/hora). Fica claro que o argentino é, de longe, o que menos distância percorreu, com a bola e menos ainda sem ela.

Com eles na porta do gol, marcar deixou de ser questão de tamanho, pode ser alto (Müller), um pequeninho como Messi ou ter uma altura média como James ou Benzema. E pode ser canhoto ou destro. Também são versáteis para criar o gol. Entre os seis jogadores somam 23: seis de fora da área, 12 com a perna esquerda, 10 com a direita, três de pênalti e apenas um com a cabeça (James). Se precisam fazer assistência, fazem isso e já contabilizam sete passes prévios ao sucesso.

O gol tem outro tratamento e custa rebobinar até descobrir quem foi o último daqueles noves com jeito de peso pesado que se perdiam fora da área, etiquetados por seu olfato para aproveitar todas as oportunidades. Se a última Copa foi coisa de Iniesta, a Eurocopa mais próxima foi resolvida por dois meio-campistas (Silva e Mata), um atacante (Torres) e um defensor (Alba). Tão defensor quanto o Godín que decidiu a Liga para o Atlético e repetiu na final da Champions de Lisboa, onde outro zagueiro (Sergio Ramos) resgatou o Madrid até a irrupção na prorrogação de dois ponteiros (Bale e CR) e, pelo meio, um lateral (Marcelo).

E os centroavantes que pareciam mais de verdade que de mentira? Uma tradição. Hoje, mais que nunca, os gols são filhos do jogo. E dos que jogam algo mais que apertar o gatilho.

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