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Copa do Mundo 2014

A Alemanha volta a usar a Mannschaft

O conjunto alemão precisa de sua versão mais clássica para se igualar a uma enérgica Gana

Klose marcou seu gol histórico e se iguala a Ronaldo como artilheiro (15 gols) das Copas. Ampliar foto
Klose marcou seu gol histórico e se iguala a Ronaldo como artilheiro (15 gols) das Copas. AFP

A Alemanha precisou recuperar a força da Mannschaft e se esquecer da alegria da Laranja Mecânica para empatar com a Gana. O protagonista não foi Müller, representante do futebol moderno, autor de três gols contra Portugal, mas Klose, que igualou em 15 gols com Ronaldo como máximo artilheiro da Copa do Mundo. Os alemães não conseguiram dominar o encontro enquanto quiseram ser a velha Holanda ou a Espanha de seu melhor momento, com Kroos, Müller e Özil desconectados de Lahm. E só reagiram, ao contrário, com Schweinsteiger e Klose, genuínos representantes da Alemanha desde sempre.

As mudanças de Löw dinamizaram a partida, excessivamente parada até então para a Alemanha, plana, quieta e pouco profunda, entregue à competitividade de Gana, séria e eficiente, poderosa e valente, como se não se importasse com qual era o rival à sua frente, a versão antiga ou moderna da Alemanha. As duas equipes não fizeram concessões no segundo tempo do encontro para sorte dos torcedores de Fortaleza, que se divertiu como nunca, por tantas coisas e mudanças que aconteceram, agradecida de que Gana esteja levantando a bandeira da África.

Löw apostou pela mesma formação que goleou Portugal. Às vezes convém não romper o feitiço que provoca uma equipe e a Alemanha fascinou em sua estreia. Os alemães jogavam de maneira firme em seu campo, convencidos de sua consistência, às vezes até com um ponto de suficiência que não corresponde a seus zagueiros, e atacaram com atrevimento, criativos, e em busca da surpresa, representada por um jogador com uma excelente chegada como Müller. Não é, entretanto, uma equipe perfeita, sem defeitos, como demonstrou Gana. Dava para ver a Alemanha cada vez menos preocupada, como se os gols tivessem que chegar por decreto, ou porque era a mais bonita e elogiada que todas as outras da Copa.

A autocrítica que provocou da derrota com os Estados Unidos teve seu efeito em Gana. Alguns jornalistas denunciaram um motim contra o técnico Appiah. Os jogadores responderam com profissionalismo e seriedade contra a Alemanha. Não só negaram seu adversário depois de um efervescente início, mas também alcançaram com relativa frequência o gol de Neuer. Muito verticais nas transições, também funcionaram em ataque parado, prova de sua versatilidade e flexibilidade.

A Alemanha teve que jogar sempre olhando para o retrovisor, sabendo que qualquer perda de bola poderia ser penalizada, e nem sempre encontrou posições para arrematar, como se sentisse falta dos excessos de Reus. Löw tem um problema com o jogo pelas pontas, principalmente pela falta de laterais ofensivos e também de pontas legítimos, jogadores que pelos lados possam dar início a jogadas pelo meio, para não falar do pouco intervencionismo de Kroos.

Embora tenham triangulado algumas vezes a partir de Götze, Dauda pouco foi exigido. Gana apertava no campo contrário e era impermeável aos passes infiltrados da Alemanha, reiterativa no futebol no pé, com necessidade de se desmarcar, inócua no primeiro toque. A Alemanha mastigava, e Gana disparava, sempre ameaçando pelo lado direito com Atsu, ganhador do seu duelo com Höwedes.

Muito bem posicionada e sustentada pelos disparos de meia distância, Gana terminou o primeiro tempo com ar de superioridade depois de ter negado o comando da partida à Alemanha. Os rapazes de Appiah deram um passo à frente na retomada e intimidaram a esfumada Alemanha, que não encontrava a finura no toque que a converteu em uma máquina de matar contra Portugal.

Müller não entrava em ação, o atacante que tinha que arrematar as jogadas, e em sua ausência se apresentou Götze, que finalizou um cruzamento de Khedira com a cabeça e o joelho, impossível para Dauda. A jogada se repetiu pouco depois de maneira mais limpa e acadêmica na área da Alemanha quando A. Ayew pulou mais que Mertesacker e Mustafi, e sua cabeçada, depois de um cruzamento suave da direita, superou Neuer.

O gol deixou a Alemanha aturdida, e ela pouco depois concedeu um segundo gol em um erro no passe de Lahm. Muntari recuperou a bola e habilitou Asamoah Gyan, imponente na corrida e no tiro cruzado. Gana começou a jogar de um lado para o outro e despiu a defesa de Löw. Não restou outro remédio ao treinador que voltar a olhar para trás e recuperar a versão mais clássica da Alemanha. Aquela que se entrega à força de Schweinsteiger e ao arremate de um 9 clássico como Klose. O centroavante empatou assim que entrou quando, depois de um escanteio, desviou com a ponta do pé a cabeçada de Höwedes. A partida se abriu e as duas equipes trocavam golpes sem parar, a sempre reconhecível Gana e uma Alemanha bastante melhor com Schweinsteiger.

Gana esteve tão enorme como esteve surpreendente a Alemanha. Löw tem dois planos que funcionaram em partidas opostas: a troca de posições triunfou contra Portugal, quando se pareceu com a Laranja Mecânica ou com a melhor Espanha, ao passo que contra os africanos precisou recuperar a energia da Mannschaft.

Klose empata com Ronaldo

Uma pirueta e uma comemoração. Nada estranho em Miroslav Klose, de 36 anos. Mas uma comemoração diferente, já que o atacante alemão entrou na história das Copas do Mundo ao se igualar ao brasileiro Ronaldo Nazário como máximo goleador, ambos com 15 bolas na rede.

Klose, que entrou aos 26 minutos do segundo tempo, em substituição a Mario Götze, marcou depois de apenas um minuto e 53 segundos no campo. Depois da cobrança de um escanteio e uma prolongação da primeira trave, Klose se atirou no chão com o pé à frente para marcar seu gol. O do empate definitivo contra Gana, o do 2 a 2. “Bem-vindo ao clube, imagino sua felicidade”, felicitou Ronaldo pelo Twitter.

Com quatro Mundiais nas costas, o jogador da Lazio é conhecido como grande goleador. Na Coreia/Japão-2002 começou sua travessia com cinco gols, sendo o segundo maior artilheiro, atrás do brasileiro Ronaldo (8). Na Alemanha-2006, foi o artilheiro, com outros cinco gols. Na África do Sul, ficou com quatro. E no Brasil, conseguiu estrear. Foi com a perna direita, o sétimo dessa forma em sua conta. Soma outros sete com a cabeça e um só com a esquerda. Ainda, dos 15 gols, 13 foram de primeira. É a lei de Klose, a lei do máximo goleador.