A ‘taxa Draghi’ leva os bancos a sacarem 60% de seus fundos do BCE

As instituições financeiras europeias movimentam dinheiro para não pagar uma comissão de 0,1%

O plano extraordinário que o Banco Central Europeu (BCE) aprovou há uma semana para dar outro empurrão ao crédito, afastando assim o risco de deflação, passou pelo seu primeiro teste. O órgão fiscalizador publicou ontem os dados que refletem o impacto inicial da medida mais inovadora: penalizar, com 0,1%, o dinheiro que os bancos mantiverem depositado nas contas do BCE. Para evitar pagar por esse excesso ocioso de liquidez, os bancos da zona euro retiraram 77 bilhões de reais dessa instituição, reduzindo a um terço em apenas um dia o volume total depositado.

A taxa negativa sobre os depósitos é aplicada desde quarta-feira, mas o BCE só publica os dados no dia seguinte. A comparação com a terça-feira revela que a medida – ensaiada previamente na Dinamarca e na Suécia – surtiu efeito, embora não completo: na terça-feira, estavam parados no cofre do banco 118 bilhões de reais; um dia depois, o volume havia caído para 41 bilhões.

Os bancos que mantêm recursos no BCE pagam a partir de agora uma comissão diária, embora fontes financeiras salientem que a multa é muito baixa – 0,1% é uma taxa anual, e o custo de manter 41 bilhões de reais no BCE durante um dia não chega a 121.000 reais –, e seu valor é simbólico, outro sinal a mais de que o banco central está agora disposto a tudo para reativar o crédito.

O depósito no BCE quase não era utilizado antes da crise financeira, porque os bancos preferiam emprestar entre si por dia. Mas a falta de confiança sobre o que havia no balanço de outras entidades levou os bancos a restringirem o uso do mercado interbancário, inclusive nos prazos mais curtos. Em paralelo, a busca da máxima segurança multiplicou o volume de dinheiro estacionado em depósitos no BCE, até superar os 2,4 trilhões de reais em março de 2012 – depois de dois megaleilões de liquidez –, apesar de o órgão fiscalizador reduzir gradualmente os juros pagos, de 3,25% para 0,25%.

Em julho de 2012, o BCE deixou de pagar pelo dinheiro estacionado durante um dia pelos bancos. Essa medida reduziu o volume depositado para 907 bilhões de reais. Desde então, a paulatina recuperação da confiança fez com que os bancos reduzissem sua contribuição diária para a unidade de depósitos, até que ela ficasse abaixo de 120 bilhões de reais. Mesmo assim, continua sendo uma quantidade apreciável numa situação de juro zero: antes da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, nunca esse nível havia sido alcançado na era do euro.

Para onde foi o dinheiro retirado nesta quarta-feira pelos bancos do BCE? Boa parte engrossou as reservas das próprias entidades, ou passaram a aumentar as reservas de outros bancos da zona euro para os quais houve empréstimos. De fato, o excesso de volume de reservas sobre o mínimo legal exigido cresceu em 42 bilhões de reais de terça para quarta-feira, passando de 267 bilhões para 309 bilhões de reais. Esse excesso de reservas também será penalizado pelo BCE com a comissão de 0,1%, mas os juros negativos serão aplicados ao final do “período de manutenção”, o próximo 8 de julho, dependendo da evolução ao longo do próximo mês.

Joaquín Maudos, catedrático da Universidade de Valência, observa que será necessário acompanhar o mercado interbancário para comprovar se os bancos com excesso de liquidez, como os alemães, elevam o empréstimo para instituições de países periféricos, como as espanholas. Maudos acredita também que, para esse dinheiro, a primeira opção das instituições fora do circuito bancário seria a dívida pública de curto prazo (letras) ou outras alternativas financeiras, não o crédito a empresas.

O incessante fluxo de dinheiro para a dívida pública voltou a ser corroborado ontem: o Tesouro espanhol lançou 9 bilhões de euros em bônus com vencimento para dez anos, a juros de 2,75%, em uma emissão sindicalizada com grande demanda. Mais de um terço corresponde à troca de títulos que venciam em 2015.

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