_
_
_
_
Tribuna
São da responsabilidade do editor e transmitem a visão do diário sobre assuntos atuais – tanto nacionais como internacionais

Reflexão sobre a democracia social

A América do Sul foi nos últimos anos um laboratório político. Alguns países escolheram um caminho realista, outros repetiram receitas errôneas e hoje pagam por seu equívoco

A América do Sul foi, nestes anos, um laboratório político. Alguns países, o Peru entre eles, escolheram um caminho realista para o desenvolvimento econômico e social. Outros repetiram receitas errôneas e hoje devem pagar por seu equívoco. As cifras são contundentes. Segundo as projeções dos organismos mundiais (FMI, Banco Mundial) Peru, Chile e Colômbia podem crescer 5,5%, 4,5% e 4% em 2014, e em 2015 obteriam 5,5%, 4,5% e 4,5%, porque escolheram o caminho da abertura para o mundo, o investimento, a infraestrutura social e a educação como instrumentos da democracia para a redução sustentável da pobreza que, no caso do Peru, baixou de 48% para 28% em cinco anos, graças a um crescimento anual de 8%.

Outros, como a Venezuela, a Argentina e o Brasil optaram, em maior ou menor medida, pela regulação extrema ou o estatismo, o protecionismo, a distribuição de subsídios e o discurso confrontacional. Mas seu crescimento em 2014 será de 1,5%, -0,5% e 1,8% respectivamente, e em 2015 ficará em 1%, -1% e 2,7%. Por conseguinte, seus níveis de pobreza e de inflação aumentarão, sua infraestrutura decairá – e as massas brasileiras já denunciam isso –e crescerá seu endividamento público, que nos outros três países diminuiu. Tal é a consequência de dez anos de chavismo ou socialismo do século XXI e de torneios retóricos quase sempre acompanhados de limitações às liberdades democráticas.

Enquanto isso, o conjunto da economia mundial continuará crescendo apesar dos problemas que sofrem algumas zonas ou países e que, em grande parte, devem-se ao superendividamento ou burocratismo em que incorreram, além dos excessos especulativos do capitalismo financeiro. Desde 2012, o avanço mundial foi 3,2%, 3% e será de 3,6% e 3,9% em 2014 e 2015, pois está impulsionado pela revolução informática, que incorpora os consumidores de forma interativa e multiplica a criação científica e o volume dos capitais de investimento. O crescimento global será impulsionado, além disso, pela recuperação norte-americana e pelo início da sua exportação de gás de xisto; pelo incessante aumento da população mundial e pelo fenômeno chinês com seus princípios confucianos.

Claro que tal crescimento não supera automaticamente os problemas sociais; mais ainda, gera novos. Mas cria condições materiais para que os governos democráticos possam superá-los, concentrando mais investimentos para impulsionar o emprego e os salários, como ocorreu na construção, a agroindústria ou a mineração no Peru e Chile, mas também executando a infraestrutura social. Assim se reduz a pobreza com mais igualdade, sem a velocidade que desejaríamos, mas sem os desacertos da outra via.

Quem não compreendeu isso mergulhou seus povos na pobreza e na falta de liberdade. Cuba, que fascinou por décadas os autodenominados esquerdistas, proclama agora, depois de 55 anos de ditadura e pobreza, a sua reforma econômica, que consiste simplesmente em convocar os capitais do mundo enquanto subsiste clinicamente conectada ao subsídio petroleiro venezuelano. E o faz sem um mea culpa pelo fracasso de um comunismo tropical que Marx nunca propôs. A Argentina paga as dívidas das suas aplaudidas nacionalizações, lava os capitais que fugiram e aumenta os preços que acreditou subsidiar para sempre com a mesma ingenuidade com a que antes decretou a paridade de sua moeda com o dólar. Finalmente, a Venezuela assassina estudantes, suprime a liberdade e cria mais pobreza e desemprego depois de ter dilapidado 800 bilhões de exportações petroleiras em retórica e subsídio a países e a grupos eleitorais, atando-os assim à sua estratégia de continuísmo no poder. Como no evangelho, por seus frutos se conhecem as políticas.

Alan García foi presidente do Peru (1985-1990 e 2006-2011)

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo

¿Quieres añadir otro usuario a tu suscripción?

Si continúas leyendo en este dispositivo, no se podrá leer en el otro.

¿Por qué estás viendo esto?

Flecha

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo y solo puedes acceder a EL PAÍS desde un dispositivo a la vez.

Si quieres compartir tu cuenta, cambia tu suscripción a la modalidad Premium, así podrás añadir otro usuario. Cada uno accederá con su propia cuenta de email, lo que os permitirá personalizar vuestra experiencia en EL PAÍS.

En el caso de no saber quién está usando tu cuenta, te recomendamos cambiar tu contraseña aquí.

Si decides continuar compartiendo tu cuenta, este mensaje se mostrará en tu dispositivo y en el de la otra persona que está usando tu cuenta de forma indefinida, afectando a tu experiencia de lectura. Puedes consultar aquí los términos y condiciones de la suscripción digital.

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_