Robert de Niro fala de seu pai: “Ele era diferente, nada convencional”

O ator norte-americano fala de seu pai em um documentário: um artista frustrado e cuja vida sexual foi uma luta até o final

O ator junto com o seu pai, Robert De Niro Sr.
O ator junto com o seu pai, Robert De Niro Sr.

“Você está falando comigo? Está dizendo isso a mim? Fale. É comigo? Então com quem diabos está falando, se não é comigo? Aqui não há mais ninguém, só eu.” É uma das falas mais conhecidas da história do cinema. De acordo com uma lista feita pelo American Film Institute das melhores frases de filmes de todos os tempos, está entre as dez melhores. Faz parte de Taxi Driver e foi escrita por Paul Schrader, mas foi Robert De Niro quem a celebrizou. Agora, no documentário Remembering the Artist, que estreia em junho na televisão americana, o ator de atores, capaz de transcender gêneros, modas e gerações, também fala sozinho, mas não levado à loucura diante do espelho, como Travis Bickle, e sim diante de uma câmera, motivado pelo amor a seu pai, Robert De Niro Sr.

Mais que falar sozinho, De Niro fala com seu pai. Um artista frustrado, um pintor que nunca chegou a ficar famoso, alguém abertamente gay, mas cuja vida sexual foi uma luta até o fim. Um monólogo diante da câmera, em que o ator tão grandioso na tela grande quanto sucinto em suas declarações públicas rende a homenagem devida a quem lhe deu nome. “Era minha obrigação documentar sua obra para preservá-la para gerações futuras”, confessa o ator nesta produção da HBO. “A única razão (deste documentário) é meu pai.”

“Eu tinha a obrigação de documentar sua obra para preservá-la para gerações futuras”, diz o ator de Taxi Driver

Suas palavras carregam uma emoção incomum em um ator conhecido por sua intensidade contida. Diferentemente da frieza de seu personagem em Taxi Driver, da humanidade perdida de seu Corleone em O Poderoso Chefão ou da violência de suas interpretações em Touro Indomável, Cassino ou quase todos os trabalhos que fez com seu mentor, Martin Scorsese, sem falar no sogro diabólico que representa em Entrando Numa Fria, o verdadeiro De Niro deixa escapar algumas lágrimas quando fala de seu pai, que morreu de câncer em 1993, aos 71 anos. O ator deixa de ser astro para tornar-se uma pessoa como nós, alguém que tem saudades do pai e que tem tantas coisas de que se arrepende quanto recordações familiares. “Não passei muito tempo com ele, porque minha mãe e ele se separaram e divorciaram. Em muitos sentidos, ele esteve ausente. Mas me adorava ... como eu adoro meus filhos”, De Niro recorda agora no documentário.

O ator faz esta última homenagem a seu pai, cuja obra pictórica ainda é exposta em galerias, sem poupar meios. Segundo admitiu durante a apresentação do documentário no Festival Sundance, sua intenção era fazer um vídeo familiar, algo que ajudasse seus filhos e netos a saber quem foi o De Niro mais velho. “É um sonho que alimentei durante anos, mas os anos se passaram sem que eu fizesse nada, e não sei por quê”, explicou. O sobrenome De Niro ajudou a fazer com que a rede de TV paga financiasse seu sonho de 40 minutos de duração, com música de Philip Glass. E a fortuna acumulada em suas mais de quatro décadas como ator também ajudou De Niro a preservar o ateliê de seu pai, no SoHo de Nova York, como se o pintor tivesse apenas saído para tomar um café. “Eu não podia pensar em desmontar tudo e vender”, confessa De Niro, que também tem diferentes investimentos imobiliários.

Nesse estúdio, De Niro abre seu coração e os diários de seu pai para mostrar a biografia deste e quem ele poderia ter sido. “Para mim, ele sempre foi um artista de verdade”, esclarece De Niro ao iniciar a narração. Nascido em 1922, o mais velho dos De Niro quis ser artista desde criança e acabou na escola de Hans Hofmann, onde conheceria a também pintora Virginia Admiral, futura mãe do ator. Os dois desfrutaram desse primeiro momento de fama no cenário artístico de Nova York, onde fizeram parte do movimento abstrato modernista. Mas, enquanto os nomes de Jackson Pollock ou Willem de Kooning passaram para a história, o de De Niro ficou de escanteio, sepultado anos mais tarde pela mudança nos gostos artísticos trazida pela arte pop.

“Ser pintor é um sofrimento, assim como ser homossexual. Você tem que fazer força para continuar a trabalhar sem esperança de ser reconhecido”, deixou escrito o artista

Além de sua obra artística, De Niro também fala abertamente da homossexualidade de seu pai, que, afirma, foi a provável causa da separação dele e de sua mãe, quando o ator tinha apenas 2 ou 3 anos. “Ele era diferente. Não era nada convencional”, recorda. Mas, enquanto as pessoas que o conheceram falam de seu gosto pela música, a dança e as festas, os diários do pintor revelam o outro lado de sua sexualidade. “Ser pintor é um sofrimento, como ser homossexual. Você tem que ter a força de continuar trabalhando sem esperanças de ser reconhecido, assim como a vida que a gente precisa levar, sem esperanças de uma união romântica”, escreveu o artista.

Robert de Niro Jr., ou Bobby, como seu pai o chamou até o fim, foi filho único. Hoje, é pai de seis filhos de suas diferentes relações amorosas e tem quatro netos. Embora nenhum deles apareça na tela, De Niro os tem em mente continuamente, não apenas como razão deste documentário como também por entender hoje, como pai, aquilo que não enxergou quando era filho. “Minha mãe não queria falar (dele), e nessa idade a gente não está muito interessado. De novo, por meus filhos, quero que parem, pensem e percebam que às vezes não se deve deixar as coisas para mais tarde, porque 20 anos depois pode ser tarde demais”, afirma o ator. Ele se arrepende de não ter insistido com seu pai para que cuidasse do câncer de próstata que lhe foi diagnosticado. “Eu também recebi esse diagnóstico alguns anos atrás (...) e consegui derrotar o câncer. Hoje estou bem, e eu teria gostado que meu pai tivesse vivido um pouco mais, para que continuasse a pintar”, ele lamenta, agora que se aproxima dos 71 anos. Mesmo assim, pelas anotações que deixou, seu pai nunca teve queixas do filho. “Quando o encontrei na rua, lhe fiz cafuné e lhe teria dado um beijo, mas acho que ele não teria apreciado o gesto”, escreveu o pintor em um dos últimos encontros que teve com seu filho já famoso e com o reconhecimento que ele próprio nunca teve.