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FUTEBOL | O TREINADOR DA PIOR SELEÇÃO DO MUNDO

“Meu Deus, por onde começo?”

O técnico holandês Thomas Rongen relata sua experiência no comando da Samoa Americana, que perdeu de 31 a 0 da Austrália e conta com o primeiro transexual reconhecido pela FIFA

Thomas Rongen, técnico da Samoa Americana. Ampliar foto
Thomas Rongen, técnico da Samoa Americana.

Perderam de 31 x 0. A derrota mais humilhante já sofrida por uma equipe. Um recorde para o vencedor, uma Austrália implacável e voraz, beneficiada pelo baixo nível das seleções que formavam a então Confederação de Futebol da Oceania, e um fardo eterno para o perdedor, a fraca Samoa Americana, neste momento no posto 207 do ranking da FIFA. Eram os últimos, os piores. A partida aconteceu em 2001, durante as eliminatórias para a Copa do Mundo do Japão e da Coreia do ano seguinte. Até o momento é o maior placar entre duas seleções em uma partida oficial.

Como uma equipe segue adiante depois de levar 30 gols? Quem iria querer treinar o pior time do mundo? “Quando cheguei disse: ‘Meu Deus! Por onde começo?'”. Thomas Rongen tem 57 anos, é holandês, fala com um sotaque americano autêntico e é o treinador da Samoa Americana desde 2011. “Quando me chamaram sabia que eram os piores, mas era um desafio único”, confessa com um enorme sorriso enquanto uma chuva fina bate na janela da recepção do hotel em que ficará hospedado até esta quinta-feira em Bilbao. O documentário Next Goal Wins (O Próximo que Marcar Ganha, em tradução livre para o português, ainda sem data de estreia no Brasil) faz parte do festival de cinema Thinking Football, organizado pela Fundação do Athletic e que retrata seu trabalho na Polinésia.

Mergulhei em sua cultura, estive em suas casas. Tinha que conquistá-los”

Rongen foi jogador do Ajax entre 1975 e 1979, mas nunca chegou a estrear na equipe. Por isso mudou-se para a Califórnia e foi contratado pelo Los Angeles Aztecs. Na equipe, jogou com Johan Cruyff, quando o holandês saiu brigado com a direção do Barcelona. Com as malas permanentemente feitas. “Somos holandeses, gostamos de viajar”, diz. Passou por outras sete equipes da Major League Soccer, e depois de aposentar-se como jogador em 1993, formou-se como treinador também nos Estados Unidos. Até que o destino o levou ao centro do oceano Pacífico. Ali alcançou o que ninguém havia conseguido nos últimos 17 anos, que a pior seleção do mundo ganhasse uma partida. “Foi a maior conquista da minha carreira. Para o país, algo incrível”, lembra. A Samoa Americana derrotou Tonga por 2 x 1 durante as eliminatórias para a Copa de 2014, semanas depois deste holandês de cabelo grisalho e voz grave ter assumido a equipe.

Mudou a dieta do time, até então o McDonald’s da ilha era o lugar onde a maioria do país se alimentava, programou duas sessões de treinos por dia, introduziu uma metodologia de trabalho baseada na disciplina, preparou sessões de meditação e tratou de apagar a memória dos jogadores. “Se não se saíssem bem, os colocava para fazer flexões. Tinham que ver que perder não era algo divertido”, diz. “E isso porque as ordens vinham de um papalagi,” É como se referem ao homem branco na ilha, de pouco mais de 55.000 habitantes. “Mergulhei em sua cultura, estive em suas casas. Tinha que conquistá-los”.

Se há dois heróis na equipe para Rongen são Nicky Salapu e Johnny Saelu. O primeiro é o goleiro que levou 31 gols da Austrália e que desapareceu três partidas depois. Isolou-se nas profundezas da ilha. Envergonhado. Thomas o resgatou e o escolheu como exemplo para a equipe. “Tínhamos que ajudá-lo, libertar seus fantasmas”, conta. “Quando ganhamos, voltou a casa orgulhoso. Podia dizer a seu filho que agora era um vencedor. Que podia morrer como um homem feliz. É algo que para um treinador não tem preço”.

O goleiro que levou 31 gols se isolou nas profundezas da ilha, envergonhado. Thomas o resgatou e o escolheu como exemplo para a equipe

O outro é o primeiro transexual reconhecido pela FIFA, que forma parte de uma equipe de futebol masculino. “É um exemplo do que é este lugar. Mostra a aceitação da ilha, ninguém o julga por sua sexualidade, ou por razões religiosas. É algo que não vemos em nossa cultura europeia, infelizmente”. Johnny nasceu homem, mas se sente mulher. Compete com homens porque a FIFA lhe impede de jogar entre as mulheres e dentro da equipe é um a mais. Fora dela, é ela. E ninguém lhe julga por isso. É um Fa'afafine, termo usado para o terceiro sexo na cultura da Samoa Americana, e como são definidos os homens criados como mulheres. “Tornou-se muito importante dentro e fora de campo. Ela é um exemplo”.

Até quando ficará na ilha? “Pelo menos até a fase das eliminatórias da próxima Copa em 2018. Embora adorasse ficar muito mais tempo”, conclui. O presidente do país os classificou como heróis quando venceram pela primeira vez. O que vai fazer se conseguirem ir para a Rússia? Seria a primeira Copa da qual participa a pior equipe do mundo. “Têm muito potencial. Por que não?”. É o que diz um papalagi agora idolatrado.