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Esconderijos onde o amor apodrece

Antes de morrer, em janeiro, o poeta reuniu em um último livro seus poemas em prosa

A repressão durante a ditadura militar argentina (1976-1983) é um dos temas que Juan Gelman aborda no livro "Hoy".
A repressão durante a ditadura militar argentina (1976-1983) é um dos temas que Juan Gelman aborda no livro "Hoy".

A vida que se vai deixa um sopro no meio da mão que é inútil beijar. Trate-o bem, senhora, não se engane com os pratos que esquentou e serviu, sonhos, abrigos, escuridões, claridade, a fé que se repete, dores na metade do dia, belezas que devem ficar.

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A eternidade é uma ideia violenta / capitalista / acumular futuro. A consciência se livra de si mesma quando desvia sua luz nas respirações do orvalho. Fulgor dos travesseiros nos quais o tempo se despe e a ordem do amor se perde. A noite amadurece / as verdades do corpo conhecem o cortejo / as horas que se vão.

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Chegam os ruídos da morte cotidiana / México / Iraque / Paquistão / Afeganistão / Iêmen / Somália. Olho para mim sem explicações / sou o assassino e o assassinado. Adeus, candura, os restos da infância estão pálidos / não há o que lhes dar de comer. A beleza de um pássaro adormecido me traz agonias e rogo ao pássaro que durma. Sem árvores de formosura corpórea, sem longos dias de maio.

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O cárcere da feira não tem portas de diamante nem cadeados de ouro. A pena, a fome, a guerra, a infâmia, a tristeza, até a morte mesma / passeiam de carona com o pintassilgo que cai malferido. Você se esqueceu do ódio, da resignação, da fúria, Baltasar. As disciplinas da humilhação esfriam a via pública e não sopram ventos de saúde, os contratos possíveis do encontro entre os medos do espírito e as cores de uma garça. A dignidade canta músicas fracas / pálpebras de areia / cravam-lhe a fonte do sangue. A indignação esquece seus fulgores. Vida, o que te fazem, vida, aí sozinha, sem teto nem parábolas, na evaporação de qualquer sonho.

Para Tomás Segovia

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A dor cozinha com alquimias. Os planetas empurram as rodas da natureza / Mercúrio é um dragão esposo e esposa de si mesmo / fecunda em um dia o veneno que mata o que ainda vive. Sua parte feminina se vai como quem abandona sua placenta? Netuno cuida das cinzas da morte em Ciudad Juárez, Porto Príncipe, Sana, Veracruz? O poema da Lua e do Sol se disfarça de nuvem sem coroa? Os ministros do olho retomam seu trabalho com bestas calculáveis.

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Servem um prato com porções de beleza e veneno. A loucura ocupa muitas partes em limites do prato / a dívida com o que não somos / o tempo fixo em seu passar / ódios sem âmbar que os sacie. Têm olhos de lince / violências em seu cultivo enfermo. Desejam abrir a maravilha a pé, apenas um pequeno jorro da nobre paixão, a que procurava o branco de um nenúfar na estação mais breve / a tiros se é preciso.

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Os caminhos do luto evitam o dever cumprido, têm audácias para sobreviver / países / esconderijos de estar. A impossibilidade de apagar rastros ancora no real com pêndulos imparáveis / sua semelhança com a morte é um escândalo.

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Vamos, pedaços meus, façam assembleia e decidam. Ponham chapéus brancos e suspensórios vermelhos, haja cor para que o velho boi se vá. Meus mortos põem sombras porque não têm mais remédio. Cravam dentes de javali, senhora, beijos gelados em representação de outonos idos, naves que buscam algum mar.

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Há esconderijos onde o amor apodrece. Liberdade, liberdade, grita o caminho caminhado. Nenhuma brisa à meia-noite limpa o olho perdido ou braço ou pé que se rompeu andando. Recortaram o corpo do uivo, avança em plena destruição. Uma mulher eleva os braços para substituir a piedade. A paixão pedinte escreve o que se vai de sua escritura para outras desolações, outros pagamentos e a memória é um papel em fogo seco.

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A morte não interpreta seus textos, não lê o que vai levar. Se alguma prisioneira em Campo Mayo recém-nascida a mãe com os olhos tapados que nem a seu filho viu. Se um pisco-de-peito-ruivo que tinha desejos. Se um jovem que tocava entranhas da música. Se o que transforma o tempo em um o que é. Se a dor de um homem que chora para dentro.

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Aonde se foram extravagâncias da paisagem / parentes do todo e do nada / vida e morte do touro / lágrimas no cérebro? A diferença última cantava cega na evaporação do sim como ocultar-se e o olho intercambiável com armadilhas de doutrina. O sacrifício era barato e escreveu cartas que ardem em silêncio. Leem-nas os proibidos, suas fúrias sem amparo, aves sem bico, rosas detidas no que não veio.

Para Juan Marsé

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O poema que lhe quero escrever, amoramor, não tem palavra ainda. Viaja em suas negações e desastres como o ontem em hoje e seu argumento é uma chama. Ninguém pode apagá-la e guarda seu segredo quando seu rosto é plena maravilha. Abre todas as portas do sujeito, sacrifícios do quando, os círculos de dois sem redator original.

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O rebuço foi ao rio onde se quer mais / cresceram plantas de ir embora. Apagaram a rosa e seu consolo / a sombra da rosa / cobre cantos do berço / peles virgens / cavalos de ar que ficam. Aromas do pensamento líquido tocam ouvidos cegos. A que chora de cruz inalterável carrega com beijos quebrados / ganha batalhas que perdeu.

Para Chavela Vargas

In Memoriam. Cidade do México, 5 de agosto de 2012

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Cavo-me para não te encobrir mais com visões de seu casaco comprido. Uma piscada dura muito quando se afasta o ser de si em voos sem rumor. Livre ainda entre muros de cimento e cal viva / lançado para que nunca fosses certeza.

Para Marcelo

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E se a poesia fosse um esquecimento do cão que te mordeu o sangue / uma delícia falsa / uma fuga em mi maior / um invento do qual nunca se poderá falar? E se fosse a negação da rua / a bosta de um cavalo / o suicídio dos olhos agudos? E se fosse o que é em qualquer parte e nunca avisa? E se fosse?

Hoy. Juan Gelman. Visor. Madri, 2014. 318 páginas.