Opinião
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O 15-M brasileiro tem o Facebook como plataforma ativista

Os movimentos no Brasil continuam a utilizar a rede social como a principal plataforma do ativismo, em um contexto em que a rede de Zuckerberg limita a extensão comunicativa

Manifestantes queimam álbum de figurinhas da Copa, nesta quinta, no Rio.
Manifestantes queimam álbum de figurinhas da Copa, nesta quinta, no Rio.Antonio Lacerda (EFE)

O Twitter foi a principal plataforma de difusão de informações indexadas com a hashtag #15M (que significa 15 de maio e possui origem na Espanha, onde estouraram nessa data, em 2011, inúmeros protestos naquele país). No 15-M de 2014, o predomínio de tweets foi em idioma espanhol, com forte participação da rede venezuelana. No Brasil, a hashtag ficou associada aos protestos anti-Fifa e anti-Copa, mas com um pequeno tráfego de dados no Twitter. Os movimentos no Brasil continuam a utilizar o Facebook como a principal plataforma do ativismo, num contexto em que a rede de Zuckerberg limita a extensão comunicativa, criando uma “escassez de difusão” de relatos de suas fanpages, diminuindo o espalhamento de seus posts. Isso porque as fanpages só terão seus posts mais publicados se investirem em “post promovido”. É claro que isso gera um novo apartheid digital, pois que a popularização de uma ideia é mediada pelo volume de dinheiro que uma fanpage paga ao Facebook.

Resultado: os protestos estão sendo prisioneiros da estratégia comunicacional do Facebook. Suas lutas esbarram na parede promocional da rede de Mark. E há ainda outro efeito colateral: tornam os “hubs independentes” ainda mais ricos, pois quem tem mais fãs consegue um “espalhamento orgânico” em maior quantidade. Isso explica tanto o sucesso do Mídia Ninja, quanto o da TV Revolta. São fanpages com muitos fãs no campo independente, e vão concentrar mais redes – nesse momento do Facebook – e a atenção de quem está puto com a Copa.

Sem uma plataforma pública de mobilização na web, os movimentos tenderão a se tornarem nichos, apenas “eventos de Facebook”. Po outro lado, o uso recorrente da tag #NaovaiTerCopa é ainda intensa, sobretudo por usuários que não estão na linha de frente das mobilizações. A hashtag, transformada em bordão, é amplamente utilizada. E não deve ser abandonada. Na rede, há presença muito maior da tag #NaoVaiterCopa, em comparação com as tags Copa2014 (oficial da copa no Brasil) e CopadasCopas (a narrativa do governo federal).

Fabio Milani é doutor em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo.

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