Análise
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A inútil futurologia do “Volta Lula”

Lula nunca apostaria nesse pôquer. Conseguiu a categoria de mito e prefere, diz, demonstrar que pode ser tão importante ou mais “sem cargos” do que com eles

Falta só consultar os astros sobre a possibilidade de que Lula volte a candidatar-se às presidenciais. E todos opinaram, ao que parece, até os adivinhos. E todos os intelectuais.

O “Volta Lula” se transformou em um jogo que de jogo tem pouco porque se trata dos destinos de um país da importância do Brasil fora e dentro de suas fronteiras.

A política pode estar desprestigiada o quanto se quiser, mas sem ela caminharíamos para algum dos fascismos do passado e do presente. Não se pode brincar com fogo.

Lula sabe disso e Dilma também. E os que fingem não saber e se divertem seguindo com o jogo, revelam que para eles a política é só isso, um jogo, mas de conveniência, interesseiro e às vezes rasteiro.

O ex-presidente torneiro mecânico pode ter muitos defeitos e às vezes também ele se divertiu brincando com sua vocação de metamorfosear-se, dizendo sem dizer, mas nesse caso ele que sempre foi um político com visão do futuro, e que, além do mais, gosta do poder, não quis pegar cartas do jogo.

Lula disse de todos os modos, no Brasil e no exterior, a jornalistas de todas as cores, inclusive deste mesmo diário, que não se apresentará, que sua candidata é Dilma e que se empenhará ao máximo para que seja reeleita, o que é honestamente democrático.

Os que ouvem suas confidências confirmaram isso a este jornalista: Lula não tem a menor intenção de apresentar-se como candidato nestas eleições. E nas próximas? Aí, como ele mesmo afirmou “na vida não se pode dizer nunca”. E nisso tem razão.

Mas agora, não. E isso a pesar de que o grito de “Volta Lula” lhe chega forte de alguma caverna de seu partido e até das fileiras de alguns dos aliados e de não poucos empresários e banqueiros.

E os pobres? Os pobres ainda gostam de Dilma “a mulher de Lula”. E gostam justamente porque Lula a apresentou como a melhor candidata da praça. E acreditaram nele.

Poderia hoje Lula desmontar, sem desfazer seu mito, todo aquele castelo que ele mesmo levantou pedra por pedra? Dilma, quando foi escolhida por Lula, tinha 3% nas pesquisas.

Há quem assegure que Lula não teria escrúpulos em abandonar a Presidenta, sua criatura, se se tratasse de salvar o partido ou de salvar a economia do país.

Esquecem-se que Dilma nesses quatro anos se cansou de dizer que não tomava decisões importantes sem contar com Lula. Como fez em todos os momentos cruciais.

Aos que dizem ou insinuam que Lula poderia trair Dilma, ela se antecipou respondendo que confia de pés juntos em “sua lealdade”.

E se Dilma desistir? E por que deveria fazê-lo? Porque poderia perder, dizem, mas quem garante que se Lula a fizer sair e se colocar em seu lugar ele ganharia as eleições? Como interpretar o eleitor?

Lula é inteligente demais para apostar nesse pôquer. Conseguiu a categoria de mito. Como ele mesmo disse, prefere demonstrar que pode ser tão importante ou mais na política “sem cargos” do que com eles.

A tudo isso deve-se acrescentar que, se o PT, com o propósito de não sair do poder forçar uma volta de Lula que parecesse uma deslealdade à sua criatura Dilma, sob a desculpa que for, estaria dando um mau exemplo à democracia. Felizmente, o Brasil conquistou um estado democrático com lacunas, como todas as democracias, mas onde funcionam a divisão de poder e a liberdade de expressão. É a democracia mais sólida dos Brics.

E no jogo das democracias está incluso que as forças políticas e os governos se alternem no poder. Ganhar ou perder na democracia não é uma tragédia, é a regra do jogo.

Por acaso algum dos possíveis presidenciáveis de outubro constitui um perigo evidente para a democracia brasileira? Não são seus partidos tão democráticos como o PT? Não têm o direito de chegar ou voltar também eles ao poder?

Lula sabe que é assim. Dilma também. Ambos farão tudo o possível para seguir no comando, mas de modo limpo, para continuar com seus programas de governo ou até para mudá-los se considerarem necessário. E têm todo o direito de lutar para continuar no poder. O mesmo direito que as oposições têm de brigar para conseguir desbancá-los.

E precisamente por que Lula sabe muito bem como é o jogo da política, não pode a essa altura – nem quer – desmanchar o baralho para entrar no jogo.

Dilma também sabe como é esse complexo e às vezes cruel jogo de poder. Demonstrou que gosta desse jogo e confirmou que, apoiada pelos aliados ou só, o disputará. Alguém poderia contestar-lhe esse direito?

Alega-se que se Dilma perdesse as eleições seria uma derrota de Lula. Não, seria um resultado que faz parte de toda a disputa política. Uma derrota muito maior, várias derrotas ao mesmo tempo, seria se Lula forçasse de algum modo Dilma a desistir para ele sair à arena, em uma clara evidência de que é melhor do que ela, sem, além disso, ter a certeza – que somente as urnas podem dar, não as pesquisas – de que ele venceria as eleições.

Lula sabe disso. Por isso não se apresentará. Pode até ter se divertido com o jogo, embora a esta altura, e com o país com os nervos à flor da pele, disposto a exigir o que acredita que lhe pertença por direito, nem sequer esse jogo já deva diverti-lo.

A Lula, por sua biografia, por seus êxitos em seus oito anos de governo, por seu prestígio internacional, por sua devida lealdade em quem confiou há quatro anos para que o sucedesse, não só não interessa, mas também nunca se arriscaria a criar um terremoto político e eleitoral.

Ao fazê-lo, teriam se equivocado todos aqueles milhões de brasileiros que confiaram nele ao colocar as rédeas do poder, pela primeira vez, nas mãos de um torneiro mecânico sem estudos, mas doutorado como poucos em sabedora política.

E teriam se equivocado também os milhões de eleitores que há quatro anos voltaram a dar-lhe crédito e elegeram, quase sem conhecer, aquela que ele enalteceu como a melhor capitã para pilotar o país.

Se Dilma perdesse as eleições, ela perderia. Se as ganhasse, ganhariam os dois juntos. Se Lula se equivocasse, perderiam os dois e, sobretudo, o seu partido perderia.

O importante não é quem ganhe, mas que o país ganhe para poder continuar melhorando com mais democracia, menor desigualdade social e melhor qualidade de vida para todos.

Lula não voltará agora, e Dilma disputará com garra as eleições democraticamente. E os brasileiros, soberanos nas urnas, darão sua última palavra. E, no final, lula aplaudirá.