Tribuna
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Diálogo de surdos, mas não mudos

Os radicais da oposição venezuelana deberíam entender que os diálogos de paz acontecem entre enemigos

O início dos protestos universitários no Estado de Táchira, no oeste da Venezuela, fronteira com a Colômbia, foi quase simultâneo à convocação dos dirigentes Leopoldo López e María Corina Machado para que a população fosse às ruas, sob o lema “A Saída Já”. Quando as manifestações e protestos se espalharam por todo o país e recrutaram cidadãos de diferentes setores sociais e com diferentes maneiras de manifestar sua indignação, foi fácil para o Governo acusar os supracitados líderes de serem os instigadores desses protestos. Sem que isso fosse verdade, Leopoldo López está hoje na prisão, e María Corina Machado foi despojada de sua investidura parlamentar. Em ambos os casos, a Constituição e as leis foram pisoteadas por uma Assembleia Nacional e por um Poder Judiciário que são braços executores das ordens que emanam da presidência. Assim foi nos tempos de Hugo Chávez, e assim é com Nicolás Maduro.

Não cabe dúvida que os protestos, que começaram em 12 de fevereiro e continuam até estes dias de abril, foram lideradas por estudantes de diversas universidades do país, que assombraram a todos com sua valentia e criatividade. Mas ninguém pôde evitar que, ao mesmo tempo, se liberassem os demônios do radicalismo e da irracionalidade. Não se trata só das chamadas guarimbas [barricadas], que geralmente afetam moradores que compartilham dos sentimentos antigoverno dos guarimberos, mas sim de uma campanha de descrédito contra a Mesa da Unidade Democrática (MUD) e Henrique Capriles Radonski, atual governador do Estado de Miranda, quem há apenas um ano obteve mais de 7 milhões de votos e muito provavelmente ganhou as eleições contra Nicolás Maduro. Quando se recorda esse fato aos seus detratores de hoje, que na ocasião votaram por ele, a resposta quase unânime é: “Ganhou, mas não cobrou”. Cobrar significava convocar seus eleitores para saírem à rua e serem massacrados pela Guarda Nacional bolivariana e por grupos paramilitares do chavo-madurismo, cuja maneira de administrar a violência foi suficientemente demonstrada nestas últimas semanas de passeatas e protestos pacíficos. As críticas destrutivas se estendem à MUD, a mesma entidade que conseguiu reunir e organizar um consenso entre dezessete ou mais agrupamentos políticos, promovendo impecáveis eleições primárias em 2012 para escolher o candidato que deveria concorrer com Hugo Chávez Frite nas eleições presidenciais de outubro daquele ano, além dos candidatos a deputados, governadores e prefeitos. O que foi uma tarefa titânica, um esforço ciclópico, se levarmos em conta a quantidade de interesses e ambições em jogo, hoje carece de importância para um setor da oposição que retornou à antipolítica como seu esporte predileto e que prefere esquecer o espinhoso caminho percorrido até obter a unidade das forças opositoras, a qual permitiu que, após quatorze anos, o chavismo parecesse derrotável.

É em meio a esse cenário de desqualificações de índole diversa e acusações de traição e colaboracionismo que se produz um ensaio de diálogo entre o Governo de Maduro, os chanceleres da Colômbia, Brasil e Equador, um delegado do Vaticano e a oposição, representada pelo único ente que ainda goza de legitimidade representativa, a MUD. Ramón Guillermo Aveledo, seu secretário-executivo, deixou muito claras as condições para que o diálogo prospere: anistia para todos os presos políticos, incluído, é obvio, Leopoldo López, a desistência de todas as ações judiciais iniciadas por ocasião dos protestos estudantis e nos bairros, o desarmamento dos grupos paramilitares do Governo, o retorno ao país dos exilados e a pronta substituição dos ocupantes de cargos públicos que já tenham seus mandatos vencidos, em condições que garantam sua autonomia. Serão tão ingênuos Aveledo e os outros dirigentes que aceitaram participar do diálogo a ponto de crerem que o Governo irá atender a tais exigências? Pode alguém imaginar Maduro e a máfia governamental admitindo que o Tribunal Supremo e o Conselho Nacional Eleitoral passem a ser integrados por pessoas independentes? Seria o princípio do fim – um fim rapidíssimo – do regime socialista do século XXI inspirado no stalinismo do século XX. Vão libertar o delegado de polícia Iván Simonovis e outros funcionários policiais condenados a 30 anos de prisão pelas mortes de 17 pessoas nos incidentes de 11 de abril de 2002? Seria reconhecer que esses assassinatos foram cometidos por pistoleiros chavistas identificados em inúmeros vídeos e fotos.

O debate em torno da conveniência de que a MUD, Henrique Capriles, o governador da Lara, Henri Falcón, e outros líderes opositores se sentem para dialogar com o governo lembra a velha piada do homem que encontra uma lâmpada enferrujada na praia, esfrega-a e aparece um Gênio, que lhe diz o normal nesses casos: Você me libertou, me peça um desejo! O homem pede uma ponte que lhe permita viajar de automóvel de Caracas a Paris. O Gênio lhe responde que isso é algo impossível até para ele, que peça algo mais fácil. O libertador muda sua solicitação, pedindo que se obtenha a paz definitiva entre palestinos e israelenses. Então o Gênio lhe diz: de quantas pistas você quer a ponte?

São incontáveis as reuniões e conversações de paz entre palestinos e israelenses, repetem-se uma e outra vez, e todas fracassam porque os primeiros se negam a reconhecer a existência do Estado do Israel, e os segundos jamais admitirão o desmembramento de seu país para retornar à situação anterior a 1967. Entretanto, vão continuar se reunindo e dialogando uma e cem vezes mais, e possivelmente algum dia a paz será mais fácil do que construir a ponte. Os radicais da oposição venezuelana, empenhados na autodestruição, deveriam entender que os diálogos de paz se fazem entre inimigos, e que a única maneira de dialogar é sentar uns com outros, mesmo que com um lenço no nariz. Talvez a reprimenda de Lula da Silva ao obtuso Maduro por sua manifesta inépcia e pelo desmoronamento do Governo em todas as pesquisas faça o milagre de obter, pelo menos, a liberdade dos presos políticos e o retorno dos exilados.

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