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TRIBUNA

As guerras de Paz

O combate pela liberdade foi para o Nobel mexicano uma forma de expiar seu defesa do marxismo ortodoxo. O grande poeta e ensayista teve o valor de auspiciar à opinião dissidente

As guerras de Paz

O México comemora neste 31 de março o centenário de Octavio Paz, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1990 e, para muitos mexicanos, o maior escritor da nossa história. Para celebrá-lo, poetas laureados vieram para um recital de poesia e, durante cinco dias, foram realizados vários atos significativos, entre eles um Congresso Internacional para discutir os temas pelos quais foi apaixonado ao longo de sua vida (a revolta, a rebelião e a Revolução, o sentido da história do México, a relação dos escritores e o poder, os fanatismos da identidade, a democracia na esfera latino-americana). Mas a celebração não será unânime. As guerras intelectuais que travou em vida as continua travando depois de morto. Parece que Octavio nunca encontrará a Paz inscrita no seu sobrenome.

Pertenceu a uma família de escritores nascidos em torno da Primeira Guerra Mundial, marcados pelos acontecimentos cruciais que ocorreram entre 1929 e 1944: a queda de Wall Street, o advento esperançoso da Revolução russa, a ascensão do fascismo e do nazismo, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto. Foi o irmão mexicano de Albert Camus, Ignazio Silone, André Breton, George Orwell, Arthur Koestler, Daniel Bell, Irving Howe: os dissidentes da esquerda. Em sua juventude foi marxista ortodoxo e em 1937 viajou para a Espanha para apoiar os republicanos. E, ainda que recusara desde cedo o realismo socialista, repudiou o stalinismo e marcou suas distâncias da Revolução Cubana, manteve sua fé na Revolução como a alavanca de redenção social, a única possível epifania da história. Ainda em 1967 considerava o marxismo “nosso ponto de vista” e pensava que a Revolução, “ungida pela luz da ideia, é filosofia em ação, crítica transformada em ato, violência lúcida [...] Popular como a revolta e generosa como a rebelião, as engloba e as guia”. De fato, não foi até ler o Arquipélago Gulag em 1974 (justamente ao completar sessenta anos) quando Paz teve a epifania inversa: “agora sabemos – escreveu esse ano- que o resplendor, que a nós parecia uma aurora, era de uma pira sangrenta”.

Nossas opiniões neste assunto não foram meros erros [...] foram um pecado no antigo sentido da palavra: algo que afeta ao ser inteiro [...] Esse pecado nos manchou e, fatalmente, manchou também nossos textos. Digo isso com tristeza e humildade.

Dedicou-se a lavar esse pecado os 24 anos seguintes de sua vida.

Octavio Paz estava quase predestinado para o culto à Revolução: neto de um combatido editor que participou das guerras liberais e tinha retratos de Danton e Marat na sua biblioteca; filho do representante de Emiliano Zapata nos Estados Unidos, Paz continuou essa genealogia romântica confiando no poder revolucionário da poesia para revelar ao mundo e para mudá-lo. Mas, curiosamente, neste sentido uma influência importante foi Walt Whitman. Paz não escreveu (como Neruda, outro whitmaniano) a grande saga poética da América hispânica mas um admirável livro em prosa: O Labirinto da Solidão.

Octavio Paz confiava no poder revolucionário da poesia para revelar o mundo e para mudá-lo

Desde a sua publicação em 1950, continua sendo, para muitos, o espelho onde o mexicano contempla, com horror e fascinação, os traços de sua identidade: sua estranha paixão pela morte e pela festa, seus medos mais ocultos a serem eternamente vencidos ou conquistados, o solo indígena (latente, pendente), as raízes de sua velha cultura espanhola e católica, o desencontro com o liberalismo ocidental, a vocação nacionalista e revolucionária. Apesar de ter sido celebrado desde muito jovem pela sua poesia filosófica (na qual o tempo, o instante, o amor e suas metáforas no mundo natural são temas constantes), depois da publicação de O Labirinto da Solidão, a obra e a fama de Paz pressionaram mais.

Seu encontro em Paris com Breton e o surrealismo (desde 1947 até 1968 viveu nos ambientes da diplomacia internacional) e seu contato genuíno com as culturas orientais (em particular com o Japão e a Índia, onde viveu, mas também com a China) liberaram suas formidáveis energias criativas, não só em sua poesia mas em livros de teoria literária (O Arco e a Lira, A Outra Voz) ou ambiciosos tratados sobre o fim das vanguardas (Os Filhos do Limo), a este prestígio fincado na sua obra se somou sua galante renúncia ao posto de embaixador da Índia depois do massacre de Tlatelolco que colocou um sangrento fim ao movimento estudantil de 1968. Paz acreditou ver na rebelião estudantil na Europa Ocidental e do Leste, nos Estados Unidos e no México o advento da Revolução que havia esperado desde a sua juventude. E por um breve momento, os jovens da época nos unimos a ele nessa crença.

De repente, para surpresa dessas novas gerações no México e na América Latina, Octavio Paz – o poeta revolucionário, o homem de esquerda -, deu a virada definitiva que aqueles seus irmãos, os dissidentes da esquerda europeus e norte-americanos, haviam dado resolutamente a partir dos anos trinta em seus livros ou revistas. Criticou com coragem os fundamentos ideológicos da Revolução Russa (e a chinesa e a cubana, por consequência), fez a recontagem de seu saldo histórico (mentiras, misérias, crimes) e deu novo valor à democracia (a partir de uma postura socialdemocrata).

Foi acusado de reacionário, foi injuriado em salas de aulas e revistas, mas nunca cedeu em sua combatividade

Em 1976 fundou a revista Vuelta, que circulou profusamente, mês a mês, nos países de língua espanhola até a morte de Paz em abril de 1998. Vuelta foi seu divisor. Nela publicou a obra dos dissidentes do Leste Europeu (Michnik, Solzhenitsyn, Sajarov, Kołakowski) e a dos novos desencantados no Ocidente: Vargas Llosa, Semprún, Revel, Edwards. Além de denunciar sistematicamente as ditaduras militares da América Latina e a “ditadura perfeita” do PRI, Paz eVuelta criticaram – desde os valores da democracia – os movimentos guerrilheiros da América Latina.

Naqueles anos – ainda mais que agora -, a esquerda latino-americana não tolerava a mínima crítica à Cuba nem a mínima dúvida sobre o balanço “globalmente positivo”do socialismo real na URSS e na Europa do Leste. Diante dessa posição cultural hegemônica, Paz teve o valor de introduzir e colaborar com a opinião dissidente.

Os velhos instintos inquisitórios e escolásticos reapareceram ante o heterodoxo: foi acusado de “reacionário”, deturpado nas salas de aula, nas revistas acadêmicas e nos jornais; 1984 sua imagem foi queimada em frente à embaixada norte-americana (ato paradoxo, porque Paz foi um crítico persistente da política exterior norte-americana e da economia de mercado). Mas nunca vacilou na sua luta, talvez porque era uma forma de expiação. Não foi casualmente que o primeiro Prêmio Nobel depois da queda do Muro de Berlim foi para ele: um poeta da liberdade.

Acompanhei Paz durante 23 anos na Vuelta, nessa guerra que não termina. Continua travando-as nas ruas da Venezuela e na consciência de quem acreditamos na democracia terrena e perfectível, não na Revolução redentora e celestial. Paz cometeu a heresia de levantar a bandeira dessa guerra. Muitos, ainda, não o perdoam. Por isso Paz nunca encontrará a Paz. É seu destino, e sua glória.

Enrique Krauze é escritor mexicano e diretor da revista Letras Libres.