COPA DO REI

A Copa do Rei mede o moral do Atlético

A equipe de Simeone põe em jogo, nesta terça-feira, sua autoestima ante um Real que terá Varane

O técnico do Atlético de Madri, o argentino Simeone.
O técnico do Atlético de Madri, o argentino Simeone.JAVIER GANDUL / DIARIO AS

Os estranhos caminhos do futebol converteram a segunda partida do dérbi da semifinal da Copa do Rei em algo similar a um epílogo, um prolongamento formal dos 3 x 0 da ida no Bernabéu. O Real Madrid visita nesta terça-feira o Atlético com uma vantagem tão substancial que se torna difícil imaginar uma reviravolta bem-sucedida da equipe de Manzanares. A falta de incerteza no resultado da eliminatória apresenta, fundamentalmente, incentivos simbólicos. Medem forças duas das três equipes que comandam o Campeonato Espanhol em igualdade de pontos, e isso é algo que não acontecia desde a temporada 82-83 pelos idos de fevereiro. O desenvolvimento do jogo pode deixar sequelas em um campeonato que se aproxima de seu final. Está em jogo o moral —nada menos— dos dois times. O Atlético precisa reafirmar que é capaz de competir com qualquer um por qualquer título. Os madridistas buscam acentuar a progressão que registram desde o início de 2014.

A não ser que o jogo reserve outro destino, a trama antecipa que é o Atlético a equipe que mais tem a perder. Quase eliminado a caminho da final, o grupo do técnico Simeone pode perder a autoestima que lhe rendeu tanta energia nos últimos tempos se o Madrid voltar a vencer. Se, no entanto, o Atlético conseguir devolver o golpe, embora não lhe sirva para se classificar, poderá se orgulhar de ter conseguido um resultado histórico.

Há valores anímicos em disputa, mais que fatores estritamente esportivos. Mas talvez as questões espirituais preocupem menos os treinadores que aquelas que se contabilizam no calendário, a classificação, ou as bilheterias. Isso se deduz das palavras de Ancelotti, que anunciou que substituirá Pepe ou Ramos, tanto porque ambos perderiam a final se "ganhassem" um cartão quanto porque Varane precisa de um pouco de ritmo. “Vou pôr Varane no lugar de um dos zagueiros, porque precisa jogar”, disse o técnico do Real Madrid, exibindo um programa de substituição impensável em uma eliminatória realmente com a disputa em aberto.

Simeone, como seu colega, pensa em perspectiva. Pensa no Espanhol se nos atermos ao seu treinamento de ontem, onde pareceu organizar uma equipe titular sem Courtois, Gabi, Arda, Juanfran e Godín. Os 3 x 0 da ida propiciam cortes em um jogo previsivelmente desnecessário para determinar o finalista. O papel de Simeone será, a priori, mais ingrato que o de Ancelotti.

Isso porque o italiano poderá se dedicar tranquilamente a administrar o placar da ida, os atletas e a energia, sem o compromisso social de orgulhar o público. Resolvido que Cristiano Ronaldo jogará para ter minutos em campo em meio à suspensão de três partidas na Liga, surgem perguntas ao redor das figuras de Bale, Isco e Jesé.

Jesé é a estrela emergente, mas Ancelotti se esforça a cada dia para lembrá-lo de que ainda faltam quilômetros para a sua consagração. “É impossível pensar que Jesé possa ser titular toda a temporada”, disse, quando questionado se o garoto podia ser considerado titular. Já se sabe. Jesé compete com Cristiano e com Bale, os dois jogadores mais caros da história. Convém ir com cuidado.