Bandeira branca no Calderón

O Real Madrid passeia diante de um Atlético rendido desde o aquecimento, numa uma partida marcada por uma horripilante queda do jovem Manquillo e por um isqueiro atirado em Cristiano Ronaldo

Manquillo derruba Cristiano no primeiro pênalti.
Manquillo derruba Cristiano no primeiro pênalti.Claudio Alvarez

Na falta de futebol, um simulacro de partida deixou um episódio horripilante – a queda de Manquillo que lhe retorceu as vértebras cervicais – e a pavorosa agressão de um desalmado espectador que atingiu Cristiano com um isqueiro na saída para o intervalo. Um ato desses é sempre injustificável, mas o único delito do português havia sido marcar dois gols após pênaltis legítimos no primeiro quarto de hora, além de uma infeliz e involuntária participação no acidente de Manquillo.

De futebol, nem uma gota, porque o Atlético deixou de lado a história de “uma partida após a outra” e permitiu que a Copa do Rei lhe escorresse pelas mãos depois do brochante jogo de ida. Desanimado desde a escalação, numa atitude contemplativa desde o aquecimento, o grupo do Simeone jogou a toalha. Nunca foi à luta, nem mesmo ameaçou. Nadica de nada. Nem um arrebatamento no começo para manter a fé de uma torcida enregelada numa noite tão tempestuosa. O Real derrubou a estrutura da era Simeone: pela primeira vez com o Cholo no comando, a equipe encadeou três derrotas consecutivas, sendo a primeira no Calderón desde maio de 2013.

ATLÉTICO 0 x 2 REAL

Atlético: Aranzubía; Manquillo (Juanfran, min. 46), Alderweireld, Miranda, Insúa; Koke, Mario Suárez, Diego (Adrián, min. 46), Sosa; C. Rodríguez e Raúl García (Gabi, min. 60). Não utilizados: Bono; Godín, Arda e Mesa.

Real Madrid: Casillas; Carbajal, Varane, Ramos (Nacho, min. 46), Arbeloa; Xabi Alonso, Modric (Casemiro, min. 66), Illarra; Cristiano (Jesé, min. 75), Isco e Bale. Não utilizados: Diego López; Pepe, Benzema e Di María.

Gols: 0 x 1, min. 6, Cristiano, de pênalti. 0 x 2, min. 16, Cristiano, de pênalti.

Árbitro: Undiano Mallenco. Advertiu Illarramendi, Arbeloa, Cristiano e Miranda.

Cerca de 50.000 espectadores no Vicente Calderón

Com o Atlético anestesiado, sem o cromossomo que distinguiu o time com o técnico argentino, o Real não tardou em castigar seu adversário. Duas investidas de Cristiano e Bale logo de cara, e dois descalabros na defesa local. O primeiro de Manquillo, que na sua corrida atropelou CR, um pênalti quase idêntico ao que o garoto cometeu recentemente em Vallecas, tendo Bueno como vítima. Cristiano cravou a bola na rede de Aranzubia, que está há uma semana amaldiçoando sua sorte. Mais ainda quando, pela outra lateral, Insúa deu uma tesoura em Bale, acertando-o com uma perna e arrematando com a outra. Mais uma vez, CR como verdugo, e Aranzubia como vítima.

A equipe alvirrubra não respondeu nem antes nem depois, salvo em um arremate na trave de Raúl García, ontem capitão, centroavante e metido a machão em todos os seus intermináveis arranca-rabos com Xabi Alonso. Foi tudo o que mereceu a torcida local, num encontro de bandeira branca. Depois da última encarada com Alonso, Simeone o mandou para o divã, onde deverá passar mais de um ano.

Se o Atlético não causou inveja com um centroavante, tampouco foi o caso do Real. Ancelotti não quer renunciar a Isco, a quem não vê como volante, e procura para ele um traje de falso nove. Faz tempo que o futebol exilou os pontas, agora são os atacantes que se fartam de outra maneira. Ao estilo de Benzema, Ancelotti acredita na capacidade do malaguenho de dar asas às verdadeiras adagas da equipe, CR e Bale. A ideia do treinador italiano não parece descabelada. Isco e Benzema são dianteiros assistentes, e tampouco estão brigados com o gol. Um estupendo toque de calcanhar de Isco serviu a Bale no pênalti de Insúa.

Rendido o Atlético, Modric se acorrentou à bola, e a partida fluiu ao seu bel-prazer, diante do olhar perdido dos seus rivais, temerosos de levarem uma surra. Com os colchoneros no osso, o Real não apertou mais, reservando-se para futuras urgências, mais ocupado em dar quilometragem a gente como Varane, Isco e Illarra. Como prova disso, até Cristiano teve uma trégua antecipada. Apesar de estar suspenso na Liga, Ancelotti o poupou quando restava um quarto de hora. Na verdade, fazia uma semana que não havia jogo em Manzanares. Tudo estava condicionado a detalhes como os números de Casillas, capaz de bater recordes até quando fica estacionado na Liga. Se não dá para ser na Liga, que seja na Copa, onde o capitão não sofre um gol há oito partidas, mais de 12 horas. Casillas marca os tempos nos dérbis. Não há forma de o Atlético vencê-lo. O Real não perde no Calderón desde junho de 1999. Ironias do destino, do futebol, que é brincalhão: dois meses antes, Iker estava no banco da Espanha que se sagrou campeã mundial juvenil na Nigéria. Sim, como agora na Liga, então não era titular. Sob as traves da equipe de Iñaki Sáez estava Aranzubia, o bom goleiro basco que teve sua vez justo no pior vendaval do Aleti.

O Real já tem um título na mira. Ao seu vizinho resta-lhe se ressarcir e recuperar o caminho pelo qual foi capaz de competir com os gigantes espanhóis e europeus. Em 2 de março o Real voltará a Manzanares. Talvez seja outra história, ou a história se repita depois do parêntese vitorioso entre a despedida de Mourinho e o primeiro dérbi de Ancelotti. Ficará claro se esta eliminatória não colocou o time alvirrubro diante do seu verdadeiro espelho.

E tomara que em próximos capítulos eles sejam menos grosseiros em campo –como na ida – e sem um só energúmeno nas arquibancadas. Por sorte, o de ontem à noite foi identificado. E, também por sorte, o incidente de Manquillo foi só uma entorse. O futebol ficou para outro dia.