Schumi, acorda!

Cada uma de suas rotineiras vitórias era emocionante num esporte sem aventura nem romantismo desde a morte de Senna

Michael Schumacher no circuito Albert Park
Michael Schumacher no circuito Albert ParkDIEGO AZUBEL (EFE)

Há uma multidão pendente do sono de Schumacher, a mesma que mais ou menos pulou com Jordan, herdeiras ambas da que descobriu a América com os punhos de Muhammad Ali. Cassius Clay voava como uma borboleta e picava como uma abelha até em Kinsasa. A única camiseta que se manteve no ar foi a número 23 dos Bulls de Chicago. E certamente não houve um predador maior no circuito do que o Kaiser e também o Barão Vermelho.

A fórmula 1, o box e a NBA não se universalizaram por suas regras, mas por sua história e sobretudo pelo carisma de suas figuras, únicas como ícones mundiais, capazes de rivalizar com os esportes que sempre se venderam sozinhos como o fubebol, como se fossem milionárias estrelas de rock. O maior mérito de Schumi foi converter em emocionante cada uma de suas rotineiras vitórias em um esporte considerado chato e que havia perdido o sentido da aventura e o romantismo desde a morte de Robin Hood Senna.

Era preciso assistir a Michael Schumacher todo domingo pela mesma regra de três que era pecado se perder um jogo de Jordan ou uma luta de Muhammad Ali. O interesse não estava no resultado, mas sim em um espetáculo que começava com a luta pela pole e acabava com a corrida depois de fazer a volta rápida. Embora no final tenha sido o mais fiável, o risco esteve associado a um piloto nada fácil, às vezes conflituoso, que cuidava da mesma maneira do carro que da equipe.

O risco esteve associado a um piloto nada fácil, às vezes conflituoso, que cuidava da mesma forma do carro e da equipe

A maioria de tifosi (torcida organizada em italiano), escravos sentimentais de figuras como Gilles Villeneuve, demoraram tanto tempo para assumir que Schumi era um dos seus quanto Schumacher levou para colocar aos seus pés uma escuderia como a Ferrari. Amos casaram cinco temporadas depois em Maranello: a cabeça alemã com o coração italiano, o piloto e o carro, uma sorte para il cavallino rampante que havia passado 21 anos sem ganhar o título. A fusão reconciliou os fiéis militantes ferraristas com os seguidores de Schumi, irredutíveis também quando se mencionavam em Jordan, Benetton e Mercedes.

Há uma legião de fãs unidos a Schumacher, competidor com ou sem carro, como se viu com as motos e na neve, familiarizado com a velocidade e a vertigem. Nunca suscitou indiferença e sua categoria transcendeu o esporte, de forma que seus passos continuaram sendo igualmente seguidos depois de sua recente retirada das competições.

Tudo foi tão recente e surpreendente que é difícil acostumar com a ideia de que o piloto que saiu ileso de 307 corridas, ganhou sete campeonatos e tem o recorde de vitórias (91), pódios (155), poles (68) e voltas rápidas (77) tenha sido vítima de um acidente de esqui. Já se sabe que inclusive os fora de série são vulneráveis e não escapam ao destino. Mas acontece que Schumi é especial, único, como Jordan ou Ali, e sua vida sempre foi um desafio por sua natureza inconformista. Por isso seus fiéis não cansam de gritar: "Acorda, Schumi!"

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