Digione, o último fenômeno chinês

O presidente da companhia, Xu Guoxiang, que vende 'smartphones' a 154 reais, prediz que gastaremos menos em celulares e mais em serviços

Xu Guoxiang, presidente da Digione.
Xu Guoxiang, presidente da Digione.Z. A.

“Xiaomi fez muitos inimigos na China. Todos eles são agora nossos amigos”. Xu Guoxiang não pode falar mais claro. A família 100, companhia de celulares que Digione preside, é a frente comum que fez as operadoras de telefonia, companhias de Internet e pontos de venda frear diante da meteórica ascensão da grande revelação tecnológica do ano na China.

“O sucesso de Xiaomi, pela natureza fechada de seu modelo empresarial, no qual raras vezes conta com a colaboração de terceiros, é uma ameaça para muitas empresas chinesas, cuja sobrevivência está em perigo. Nós somos o contrário”. Ambos os tipos de empresas protagonizam a guerra pelo segmento econômico do mercado mais lucrativo do planeta, em que se vendem 400 milhões de smartphones ao ano.

E, sem dúvida, Digione está bem equipado para a batalha. O gigante das buscas na China, o Baidu, acaba de investir 300 milhões de dólares na empresa (mais de 707 milhões de reais) de Xu, cujas armas são três aparelhos que custam menos de 100 euros (320 reais) e utilizam o sistema operacional da própria Baidu -baseado no Android-.

O modelo mais barato é o 100A, que roda com um processador de 1 Ghz. e dispõe de uma tela de 4,5 polegadas (960x540). Seu preço de 399 iuanes (154 reais) é imbatível. 200 iuanes (77 reais) a mais custa o 100AS, que inclui um processador mais rápido (Qualcomm a 1,2 Ghz.), 4 GB de cor ROM, e câmera HD.

Mas a estrela de Digione, que Xu não se incomoda de chamar de o primeiro ‘Baidu Phone’ do mercado, é o 100+. Trata-se de um aparelho com capacidade para dois cartões SIM, uma tela HD IPS de cinco polegadas e um processador Qualcomm de quatro núcleos de 1,2 Ghz. A câmera posterior de 8 MPX está equipada com uma ótica muito luminosa (f 2.2) e a frontal conta com 2 MPX. Tudo isso por só 798 iuanes (308 reais), um iuan (0,39 centavos de real) a menos que a sua concorrência direta, o ‘Hongmi’ -Arroz Vermelho- de Xiaomi. “E nosso telefone é melhor”, sentença Xu.

Pergunta. Parece que estão obcecados com Xiaomi. Isso tem afetado seu sucesso no mercado chinês?

Resposta. É preciso reconhecer que Xiaomi soube tirar bom proveito da grande mudança que a interrupção do 3G provocou. Criou um novo modelo de negócio que soma hardware e software, modificou a corrente industrial tradicional, e expôs as grandes deficiências de muitas empresas chinesas que dependem das grandes operadoras para vender seus aparelhos. Mas seu modelo, ao ser fechado como o da Apple, não está aberto à colaboração de outras empresas. E aí é onde nós queremos fazer a diferença. Somos como o Google, estamos abertos a cooperar para que todos se beneficiem. Por isso, assinamos acordos com as três principais companhias de telecomunicações chinesas e com 100.000 pontos de venda em todo o país. Aspiramos criar um novo modelo que não seja nem o tradicional nem o on-line. E vamos chamá-lo de ‘Internet móvel 2.0’.

P. Parece difícil que tenha benefícios para todos com os preços de seus produtos. Vocês realmente fazem dinheiro?

R. O mercado chinês é gigantesco e é possível ganhar dinheiro inclusive com produtos tão baratos. Reconheço que não vejam o benefício, porque deixamos que o lucro fique com a operadora de telefonia que o comercializa -Xiaomi só vende diretamente através de sua página na internet- em troca  de que nos dê acesso a milhões de usuários. Porque não podemos esquecer que nas cidades de terça ou quarta categoria, que geram em torno do 70% das vendas globais de celulares na China, o público ainda está acostumado a comprar em um estabelecimento físico, e não na Internet. Assim, em pouco mais de um mês, vendemos meio milhão de telefones, e nos próximos três anos confiamos em superar a Xiaomi em número de usuários e alcançar os cem milhões. O verdadeiro benefício está no software que utilizarão. De fato, achamos que os usuários gastarão cada vez menos em aparelhos e mais em serviços on-line, como jogos ou vídeos. Esse é o mercado do futuro.

P. Pensam abrir caminho fora da China?

R. Quando trabalhei para a Huawei, tive contato com muitas operadoras de telefonia, inclusive a Telefónica. Estou seguro de que, no futuro, estarão interessadas em trabalhar conosco, assim como fazem suas homólogas chinesas. Mas, por enquanto, nosso interesse está no mercado local. Porque a China é um bom território para experimentar. Quando tivermos sucesso, pensaremos na expansão para outros países, aqueles que têm muito potencial. De fato, os usuários ocidentais estão bem mais habituados a pagar por produtos que os chineses, que são muitos milhões mas deixam muito pouco benefício unitário.

P. Neste palco que desenha para a China, onde ficam as marcas estrangeiras?

R. A Apple ou a Samsung, por exemplo, competem no segmento mais alto, têm seu público fiel -segundo uma pesquisa recente, só 13% dos usuários chineses estão dispostos a pagar mais de 230 euros (739 reais)  por um telefone- e por aí vai. Em matéria de tecnologia, acho que já estamos à altura da Samsung, e, inclusive, empresas chinesas como a Huawei contam com um software melhor, mas a Apple segue marcando tendência e seguirá sendo assim nos próximos anos.