FEIRA DO LIVRO DE GUADALAJARA

Bonnefoy reivindica a poesia como algo essencial no ensino e a vida

Um discurso lírico do poeta e crítico francês de 90 anos abre a Feira Literária mais importante da língua espanhola

Entrega do prêmio FIL de literatura ao poeta francês
Entrega do prêmio FIL de literatura ao poeta francêsSaúl Ruiz

Acontecia que era preciso destruir e destruir e destruir, / Acontecia que a salvação só era possível a esse preço”… E aconteceu que os versos de Yves Bonnefoy vagaram entre os milhares de livros distribuídos em 34.000 metros quadrados da feira. Aconteceu que o poeta, ensaísta, tradutor e crítico francês de 90 anos, e de cabelos brancos rebeldes, silenciou o ruído da gente com sua voz cheia de reflexões e impregnadas de um lirismo que usou para reivindicar a poesia como algo essencial no ensino e a vida. E aconteceu que assim ele inaugurou a Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL) seu 27ª edição, com a presença do Nobel Mario Vargas Llosa, a quem foi entregue o Prêmio FIL de Literatura em Romances . Este escritor sensível e sábio que em um dia escreveu La imperfección es la cima, onde estão esses versos:

Sucedía que era preciso destruir y destruir y destruir,

Sucedía que la salvación sólo era posible a ese precio.

Arruinar el rostro desnudo que asciende en el mármol,

Machacar toda forma, toda belleza.

Amar la perfección porque ella es el umbral,

Pero negarla una vez conocida, olvidarla muerta

La imperfección es la cima

A poesia contrastou com a forte operação de segurança montada na feira. Algo inédito. Vigilância secreta, policial e militar como nunca antes realizadas no complexo da Expo por causa da visita da delegação de Israel, convidado de honra, encabeçada por seu presidente e prêmio Nobel da Paz Shimon Peres. O pavilhão israelense é uma simulação do deserto com dunas de diferentes alturas, em módulos de madeira escalonados, e com oliveiras onde se pode passear.

O protagonismo absoluto foi para a poesia, as reflexões sobre a arte, a vida e as palavras de Yves Bonnefoy. Um poeta estava feliz e surpreendido com acolhida por estes lados da poesia: “Pensar nela hoje não é algo natural nem simples.” Lamentou o poeta que, em outras partes do mundo, a tecnologia e seus empregos comerciais desviem o olhar sobre a poesia para ajudar a compreender a vida e que nas universidades não se considere esta arte como uma necessidade fundamental. “É nas dúvidas agoniadas de Hamlet onde a modernidade do espírito encontrou seu chão mais fértil”, recordou ele, que traduziu Shakespeare ao francês.

A sensatez do poeta com a realidade apareceu para recordar que a existência "que se topa incessantemente com os imprevistos da casualidade, é, antes de mais nada, um relacionamento com o tempo; e como chegar ao entendimento do tempo senão escutando os ritmos, essa memória do tempo, atuando sobre as palavras fundamentais da língua?”.

Então Bonnefoy entrou no relacionamento das palavras e o milagre que elas representam para cada um vê quando as pronuncia ou escuta ou vê. Assim ele pastoreou por seu campo de palavras para milhares de pessoas que o escutavam as convidando a pronunciar, por exemplo, “Árvore”… “Rio”… “Sol”…“Pedra”… Para terminar celebrando a queda da torre de Babel, pois, não fosse ela, “seríamos prisioneiros de uma língua única, que nunca tomaria consciência de seus limites no contato com outra. Fatalmente essa língua solitária não seria nada mais do que um grande sonho, encerrado em uma ideologia”.

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