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Mundial de Xadrez

“A experiência está supervalorizada”

Magnus Carlsen, o novo campeão do mundo, de 22 anos, analisa sua vitória ante Anand nesta entrevista

Carlsen, com a coroa de louros dos campeões.
Carlsen, com a coroa de louros dos campeões. AFP

Entre Gari Kasparov (Baku, Azerbaijão; 1963) e Magnus Carlsen (Baerum, Noruega; 1990) há apenas dois pontos de conexão, mas muito fortes: amor infinito pelo xadrez e enorme força mental. O russo é pura paixão em combate, fixa objetivos grandiosos e foi número um durante 20 anos seguidos (1985-2005) com uma disciplina militar. O norueguês exibe a eficácia de um computador, tem os pés no chão, desfruta das coisas simples e trabalha se tem vontade.

É possível entender o motivo de Carlsen só aguentar um ano e meio Kasparov como treinador. Ou a razão de que o comportamento de ambos depois da conquista do título mundial com a mesma idade, aos 22 anos, seja tão diferente. Em 9 de novembro de 1985, Kasparov falou com a imprensa grande parte da noite. Na última sexta-feira, depois de derrotar o pentacampeão indiano Viswanathan Anand por 6,5-3,5, invicto, Carlsen amanheceu jogando pôquer com seu séquito, e se arriscou no sábado e no domingo a disputar partidas de futebol e basquete com os jornalistas noruegueses, sem dar uma só entrevista longa. Ontem, por fim, depois de receber a tradicional coroa de louros dos campeões, assim como um milhão de euros, e aguentar o alvoroço de cerca de 50 cinegrafistas e fotógrafos, se sentou com o EL PAÍS, The Hindu e Frankfurter Allgemeine.

Meu conselho aos pais de jovens talentos é o de que não os pressionem

Pergunta. O que é pior para você, trabalhar intensamente com Kasparov ou atender os jornalistas?

Resposta. É verdade que não cooperei muito com vocês desde sexta-feira, mas isso se deve a que estava exausto após tanta pressão.

P. Crocodrilo com chip. Aceita essa definição?

R. Sim, está bem, e suponho que soará bem em espanhol. Meu animal favorito é o crocodilo, deitado ao sol enquanto observa a suas presas e ninguém lhe ataca.

P. Mas o do chip implica certa contradição. Você diz que treina com computadores muito menos do que acha. Mas também admite que tem um supercomputador, o qual acessa todo dia a partir de seu computador portátil.

R. É verdade, mas quem trabalha com o supercomputador são meus assistentes. Isto é, eu primeiro analiso as ideias básicas de uma posição, sem máquinas, e lhes dou instruções. Eles me passam depois as variantes que analisaram com as máquinas, e eu então as estudo mais a fundo. Nisso me diferencio de Anand, partindo da base de que agora sou melhor jogador que ele. Por tanto, ele, com ajuda dos computadores, prepara variantes de abertura [primeiros movimentos de uma partida] que lhe deem vantagem, jogando-as de cor. Eu busco ideias que me permitam sair dos caminhos batidos, para evitar que ele possa conseguir essa vantagem, que não sirva para ele o que memorizou. Conformo-me em conseguir uma posição igualitária depois da abertura, e a partir daí começar a pressionar.

P. Essa maneira de focar a preparação das aberturas é insólita entre a elite. Considera-se um revolucionário do xadrez?

R. Um pouco, sim. Mas desde que os computadores de xadrez ficaram muito fortes há uma verdadeira tendência de outros jogadores de evitar as jogadas mais recomendadas pelas máquinas e buscar outros caminhos, embora consigam menos vantagem. E como é óbvio que eu sou mais forte que a maioria no meio-jogo e no final [posições com poucas peças], não me importo em pagar o preço de chegar ao meio-jogo sem vantagem.

P. Por que não quer revelar os nomes de seus analistas? É uma decisão sua ou deles?

R. Minha, porque dentro de um ano tenho que defender o título, e prefiro mantê-los em segredo. Mas quero deixar muito claro que estou extremamente satisfeito com seus magníficos trabalhos.

Sou um pouco revolucionário. Não me importo em chegar ao meio-jogo sem vantagem

P. Quais foram as chaves de sua vitória sobre Anand?

R. Sua grande experiência foi vista nas três primeiras partidas, quando eu estava nervoso. Nesse momento adaptei-me e comecei a cumprir com meu roteiro: fazer 40 ou 50 jogadas boas em cada partida, durante horas, não aceitando o empate embora a posição estivesse igualada. Eu sabia que Anand não poderia aguentar tanta pressão, que cairia ao menos em duas partidas, e que se eu jogasse o meu máximo não perderia nenhuma. A experiência está supervalorizada. É verdade que Anand jogava muitos duelos muito difíceis, mas cada um tem sua própria história. Depois do muitíssimo que me custou ganhar o Torneio de Candidatos e chegar a ser o aspirante, cheguei aqui disposto a me esvaziar em cada partida, e ao final foi mais fácil do que esperava.

P. Para ser número um do mundo durante 20 anos seguidos, Kasparov teve que dar prioridade ao xadrez sempre, sobretudo sobre seus filhos e sua vida privada. Você se vê fazendo o mesmo?

R. É muito difícil saber por onde irá minha vida, mas tenho a intenção de me manter sempre motivado, durante muitos anos. Agora, tendo em conta que nos últimos meses foram só xadrez, o que quero agora mesmo é equilibrar um pouco minha vida com outras coisas, e depois já veremos.

P. O Quanto deve a seu pai como campeão do mundo?

R. Muito. Estou muito agradecido por como me educou, e por não me pressionar quando viu que, quando tinha cinco anos, não gostava de xadrez como ele. Meu conselho aos pais de jovens talentos de qualquer disciplina é que tratem a eles como trataram a mim, sem pressões, os deixando em paz, mas estando perto quando preciso.

P. Sente a responsabilidade de contribuir para a promoção do xadrez e sua grande utilidade social como ferramenta educativa?

R. Sem dúvida. Já estou envolvido nisso, com diversas iniciativas. O xadrez é maravilhoso para os garotos em um duplo sentido, como esporte e pelos enormes benefícios que oferece como ferramenta educativa.

P. Há pouco mudou de domicílio, já não vive na casa de seus pais. Como é a nova? Obterá a carteira de motorista ou contratará um motorista?

R. Por enquanto só me deu tempo de carregar alguma roupa e alguns livros de xadrez. Quero tirar a carteira no próximo verão, quando tiver tempo de ficar em casa.