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Novo presidente do BNDES: “O Brasil está mais para psicanálise do que para análise econômica”

Paulo Rabello assume banco e diz ao EL PAÍS que retomada de financiamentos pode demorar.

"Os empresários têm razão de chorar. Mas se vamos atender ou não é outra história"

Rio de Janeiro / São Paulo
Paulo Rabello novo presidente do BNDES
Paulo Rabello de Castro, novo presidente do BNDES.

O economista e advogado Paulo Rabello de Castro caiu de paraquedas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ele assume o posto de presidente do maior banco de fomento da América Latina nesta quinta-feira após a saída tumultuada da executiva Maria Silvia Bastos na semana passada. Prestigiada no mercado, ela deixou o cargo por razões pessoais, segundo a versão oficial. Mas, nos bastidores, teria sido a pressão de empresários, incomodados com sua mão de ferro para liberar crédito, a gota d’água para ter batido em retirada. Rabello deixa a presidência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que assumiu em agosto do ano passado a pedido de Michel Temer, e atende um segundo chamado do seu amigo: assumir um BNDES hoje no olho do furacão por seus empréstimos à JBS, cujos executivos delataram um esquema de propinas que bateu à porta do presidente.

Quem conhece Castro garante que ele não será mais afável que sua antecessora. A julgar pelos livros que já escreveu, como o Mito do Governo Grátis ou A Crise do Bom Patrão, Rabello está longe de enxergar o Estado como um sócio generoso demais. “Os empresários têm razão de chorar. Mas se vamos atender ou não é outra história”, disse Rabello que atendeu a reportagem do EL PAÍS na sede do IBGE, no centro do Rio. Doutor em economia e preocupado com a desigualdade, é visto como um excelente técnico por seus pares, apesar de um tanto vaidoso. Como presidente do IBGE, seu último dia coincidiu com a divulgação dos dados de desemprego recorde: 14 milhões de brasileiros sem trabalho no trimestre até abril, 1,1 milhão a mais do que o trimestre terminado em janeiro. Veja a seguir os principais pontos da entrevista.

BNDES, um abacaxi a ser descascado

“O desafio de assumir o BNDES é realmente um abacaxi. Mas um abacaxi que a gente vai descascar, porque é um banco grandioso, que tem uma contribuição enorme para a história econômica recente do Brasil. Hoje ele sofre de uma perda de identidade, de entusiasmo, para além dos problemas de ter destinado recursos para a JBS ou para Odebrecht, que até bem pouco tempo eram as maiores e melhores empresas do Brasil.”

Saída de Maria Sílvia

“Esses empresários que estão criticando, uns até receberam crédito, mas estão tendo dificuldade de renová-los. Um segundo aspecto é que, de fato, no caso do BNDES, houve um período pré-Maria Silvia no qual houve uma grande concentração de crédito nos chamados campeões nacionais. Os empresários têm razão de chorar. Mas se vamos atender ou não é outra história. O que a gente não consegue mais é o empresário ficar pedindo uma compensação por uma outra coisa [a situação macroeconômica] que está equivocada.”

Maria Silvia teria segurado crédito do banco?

“Coisa nenhuma. Primeira coisa que tem que ser lembrada, e que de fato é óbvia, é que crédito é cíclico. Crédito sobe e depois cai. Nós estamos, do ponto de vista creditício, neste momento de queda. Maria Silvia teve que suportar essa fase. Se o crédito voltar a fluir por conta do ciclo vão dizer que fui eu, mas o mérito é dela. O que pode acontecer? Se a questão política se agravar, essa curva pode demorar a subir.”

Política dos campeões nacionais

“É muito fácil criticar que tenha se dado esse dinheiro [para a JBS e a Odebrecht]. Não. Dois minutos atrás, essas empresas eram orgulho nacional. E não sei por que não continuam sendo como empresas. Tiveram desempenho internacional, ninguém comprou empresas lá dos americanos à toa. [A JBS se expandiu após comprar frigoríficos nos EUA]. Eles tiveram capacidade gerencial e mercadológica para fazer esse avanço. A Odebrecht, pelo que eu sei como analista, é, como empresa, uma excelente corporação.”

Entusiasmo em 2018

“Quando chegar 2018-2019, haverá entusiasmo, e não interessa saber quem vem. Quando o Brasil eleger o próximo presidente, será porque pelo menos 60 milhões de pessoas se encantaram com uma ideia ou um projeto e a cabeça deles vai estar otimista e aí o ciclo virá. Só que nós estamos torcendo para que alguma parte dessa virada possa ocorrer antes. Mas não tem fórmula mágica e muito menos uma maneira diferente de fazer do que a Maria Silvia fez. Ela fez um trabalho muito importante de reorientação desses subsídios todos. E digo mais. Ela me mostrou uns gráficos que mostram que os créditos regulares do banco caíram muito pouco. O pouco que caiu foi por conta da demanda. O que foi cortado foi um programa chamado PSI [Programa de Sustentação do Investimento iniciado em 2009, que oferecia juros subsidiados para compra de máquinas agrícolas, entre outros], altamente custoso para o Governo, super subsidiado, e que não podia continuar sendo dado daquele jeito. Aí quando você olha o conjunto de operações do banco, o crédito de fato cai, mas praticamente 100% da explicação é esse programa problemático.”

Erros na gestão do BNDES

“Todos os que têm acesso a crédito tem menos o que fazer no BNDES. A gente tem definitivamente que discutir por que o BNDES tem que dar crédito à Petrobras. Petrobras é uma grande empresa petrolífera, ela se financia tranquilamente nos mercados. Nós temos que voltar ao DNA do banco. O banco é um banco de desenvolvimento. Eu gosto de pergunta simples, resposta simples: onde é que nós temos que nos desenvolver? A resposta não é petróleo. O banco é um banco de desafio. Onde que é que o desenvolvimento é mais desafiador? Tem um crédito partido no Brasil. Gente que não tem acesso, gente que está tentando investir e não consegue, é preciso uma tarefa para desobstruir isso. Na medida em que eu fico escolhendo os chamados melhores créditos, qual é a diferença entre o que eu faço e um banco rotineiro? Nenhuma.”

Taxas de juros

“As taxas de juros, todas, as do mercado e as do BNDES, têm que convergir para a normalidade. A vantagem de pedir um crédito no BNDES então tem que ser a orientação técnica.”

Mais inteligência, mais importante que dinheiro

“Muitas prefeituras simplesmente não conseguem completar um projeto de obras de saneamento. Ao completar um projeto você precisa saber das bacias hidrográficas para fazer direto. Se o BNDES sentar na mesa é muito provável que ele consiga fazer uma companhia regional de água, saneamento e sustentabilidade. Este é apenas um exemplo de onde o banco entra cada vez mais com inteligência, mais do que com dinheiro.”

Pequenas empresas

“Até tudo se normalizar, o banco tem uma grande possibilidade de favorecer os pequenos investimentos. Investimentos em modernização de equipamentos dos pequenos negócios, uma vastíssima área na qual o BNDES pode entrar e estimular os bancos privados para virem junto.”

Grandes empresas apadrinhadas pelo Estado

“Eles já estão sofridos o suficiente para não requererem mais esse apadrinhamento. Entretanto, o Estado brasileiro está devendo a normalização do processo macroeconômico o mais rapidamente possível. Essa é a condição fundamental para que também não se crie um banco de compensações e subsídios".

Futuro sem subsídio e crédito para todos

“Se você olhar, por exemplo, na visão de uma década, o meu sonho seria dizer que ao fim desses anos o Brasil prescinde de subsídio financeiro de qualquer espécie. Que as taxas de juros já foram normalizadas até o ponto que inclusive o pequeno negócio entre em uma instituição bancária, comente sobre sua intenção empresarial, e um funcionário do banco analise e lhe de o dinheiro. Eventualmente com alguma participação fracionária de um ente como o BNDES que pode até existir para, por exemplo, compartilhar risco. O banco não quer carregar 100% do risco? Traz para nós um pedaço. O BNDES compra esse risco, é a minha parte de estímulo ao desenvolvimento. Agora, isso não é de hoje para amanhã. Mas não é de hoje para nunca. Se eu falar em dez anos estou dando tempo demais.”

Podemos separar a crise política da economia?

“Podemos. O caminho econômico depende hoje de um pacto da sociedade com ela mesma. A sociedade hoje está se crucificando.”

Reformas X Crise

“Eu posso dizer que as duas grandes reformas que foram anunciadas [a trabalhista e a da Previdência], embora essenciais, têm para nós uma boa notícia dentro delas: elas se resolvem no longo prazo, não no curto. Elas não são as reformas mais impactantes de hoje para amanhã.”

Elas podem esperar a 2019?

“Não é que elas possam esperar, é que a conta já está dada para 2018. Então, se há dúvidas enormes, por exemplo, para a questão previdenciária, medidas podem ser tomadas só para conter o gasto previdenciário. Fazemos uma solução lusitana. A trabalhista, por exemplo, é muito boa porque destrava o mercado trabalhista, mas ela não te dá resposta imediata. Se tiver estímulo, mesmo com essas regras engessadas, você consegue empregar. Alguma outra coisa está impedindo que o Brasil empregue mais: é a questão da confiança, dos custos burocráticos e a falta de uma visão sobre o que teremos de fazer no futuro.”

Deprimido, mas sentado num saco de ouro

“O Brasil é curioso. Ele perdeu o sonho. É fundamental continuar sonhando. E ele hoje chora sentado num saco de ouro. Mais de 370 bilhões de dólares de reserva, não é que a gente vai gastar a reserva, é que como eu já vi o Brasil sem reserva nenhuma, mas sonhando... acho muito graça esse indivíduo deprimido lamentando a vida sentado nesse saco de ouro. O Brasil está mais para psicanálise do que para análise econômica. E aqui o banco tem que descomplicar a análise econômica, e atropelar a psicanálise.”

Simplificando

“O melhor conselho que eu recebi nesses dias foi: ‘não valorize a problemática, simplifique’. Imagina se eu chegar lá no banco e disser ‘me tragam todos os problemas que nós temos pela frente por conta da JBS', por exemplo. Não é que não vou dar a devida atenção, mas eu tenho que fracionar meu dia dedicando no máximo 30% do tempo à problemática, e o resto é para solucionar. Se não, eu vou ser mais um centavo no saco de ouro.”

Saídas para o pessimismo

“Essa perda de identidade, de entusiasmo, no BNDES decorre de uma estrutura macroeconômica inadequada para o crescimento no Brasil. E isso é um misto de excesso de tributos e burocracia, custo financeiro brasileiro elevadíssimo e uma falta de infraestrutura crônica. Nós temos que encontrar uma maneira de começar a destravar essas três coisas ao mesmo tempo. Esse é o desafio. O Brasil é dos poucos países que podem surpreender extraordinariamente a si mesmo e ao mundo. ”

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