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A doce canção em português que venceu o pop no Eurovision 2017

O português Salvador Sobral, um amante de jazz que critica a TV, cantou 'Amar pelos dois'

Vencedor disse que torcida de Caetano Veloso era mais importante que o prêmio

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Salvador Sobral, ganhador de Eurovisión. AFP

Venceu o Eurovision sem mostrar parte alguma do corpo e, quando se despiu, foi para mostrar uma camiseta do SOS Refugees. Salvador Sobral ganhou o Eurovision sem confetes nem fanfarra. O português que odeia os festivais, que nunca na vida viu uma edição do Eurovision, e nem sequer liga a televisão em sua casa, venceu o festival dos festivais de música, que anualmente mobiliza concorrentes de países europeus numa espécie de concurso pop estilo The Voice, usando dois elementos: sua voz e uma canção de sua irmã.

Toda sua curta vida é uma pura contradição, pois sente que forças externas o foram empurrando até onde não queria ir. Não gosta do mundo do espetáculo, mas em 2009, com 19 anos, foi parar no programa de televisão Ídolos por culpa de uma namorada que o indicou para o elenco. No caso do Eurovision, a culpa é da irmã, que o inscreveu no Festival da Canção, organizado pela Rádio e Televisão de Portugal (RTP). Venceu com Amar pelos dois, composta por sua irmã Luisa.

O mundo lhe caiu em cima. “O mundo da televisão não é o meu”, disse ele ao pessoal da RTP. “É um trauma que tenho e preciso superar.” Salvador Sobral é de tal inocência que suas palavras, sem sua imagem natural, sempre parecem pretensiosas e politicamente incorretas. “Nada do Eurovision tem muito a ver comigo. Não me recordo de ter visto um só festival, nunca. Tenho um televisor em casa, mas sem controle remoto. Minha companheira a liga com o aplicativo de seu celular, por isso, se ela não está lá, eu não vejo.”

Ele não gostou de nenhuma das canções do festival, com exceção da do italiano Francesco, Occidentali’s Karma. “É festivaleira, mas superdivertida, com uma letra inteligente, superirônica. É a única com que me identifico.” Sobral gosta também, claro, da composta pela irmã. “É uma canção que não me compromete como artista; bonita, simples, que poderia interpretar em minhas apresentações ou incluir em meus discos.”

O português é um cantor de jazz que só no ano passado lançou seu primeiro disco, Excuse me, que ninguém quis. “Agora as rádios querem minha música que antes não queriam, as salas de espetáculos têm datas livres que antes não tinham e meu disco está entre os mais vendidos.” Em Excuse me canta quase tudo em inglês e espanhol. "Adoro cantar em espanhol, não sei por quê. Não sei se em alguma vida anterior fui espanhol ou latino-americano. É supermusical, admiro muitos artistas de lá.”

Salvador Sobral era, desde os quatro anos, o menino que cantava nas festas, mas profissionalmente queria ser psicólogo da área esportiva, por isso partiu de Lisboa para Palma de Mallorca, pelo programa Erasmus, para estudar. Estudava de dia e cantava esporadicamente à noite, até que começou a encadear apresentações diárias de cem euros (340 reais). Tentação demais para continuar com a psicologia. De Palma saltou para Barcelona para entrar em uma escola de música, onde aprendeu a compor, treinar o ouvido e história do jazz, sua paixão. “O jazz é como a vida, um diálogo, uma conversa constante, mas em vez de entre pessoas, entre instrumentos. E como a vida, tem constantes surpresas.”

Suas atuações são sempre diferentes. As interpretações das canções, de Ray Charles a Rui Veloso e, claro, Chet Baker, nunca se repetem, por isso, prevendo o pior, sua irmã o obrigou a interpretar sempre da mesma forma Amar pelos Dois, pelo menos até o Eurovision acabar.

Seus movimentos espasmódicos atraem a atenção do público sem necessidade de outros chamarizes. Chega com um casaco três tamanhos maior, calculadamente despenteado. Depois de suas primeiras palavras o público já se derreteu por ele. “Sou o veículo emocional da canção. Não só a voz ou a música, também os movimentos corporais ajudam a transmitir e a comunicar com o público”, explicou à RTP depois de vencer o festival português.

Sua paixão pela música, e o jazz, só se iguala à que dedica ao cinema e, sobretudo, ao futebol. É Benfica de coração, embora não goste da indústria e da violência que existem em torno do futebol. “O futebol, bem praticado, é uma forma de arte. Ainda assim, gostaria que uma parte do dinheiro que movimenta fosse dedicada à cultura.”

Um fã de Caetano Veloso

Caetano Veloso fez a alegria de Salvador Sobral ao fazer campanha para ele nas redes sociais durante o concurso. Em entrevista a uma TV portuguesa, ele disse que a torcida de Caetano valia mais que o prêmio. “O Caetano Veloso fez um vídeo a dizer que queria que eu ganhasse a Eurovision. Esse vídeo vale mil vezes mais mais do que essa coisa”, disse. 

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