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“É muito preocupante a proximidade do presidente com ações que tentam barrar a democracia”

Líder de um dos movimentos pelo impeachment de Dilma Rousseff afirma que as manifestações de domingo pedirão renovação política, mas que não há razão, "por enquanto", para a destituição de Temer

Em seu perfil no Twitter, Rogerio Chequer se descreve como um “engajado firmemente no propósito de um Brasil melhor, com renovação política e zero de impunidade”. Depois de fazer parte dos movimentos que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff, o líder do Vem Pra Rua bate agora firme na tecla da renovação política. "Todas as pautas que defenderemos estão sob esse guarda-chuva", disse sobre a manifestação que ocorre neste domingo, em diversas cidades do país, organizada por esses mesmos movimentos pró-impeachment da ex-presidenta.

Rogerio Chequer, líder e porta-voz do Vem Pra Rua.

Essa renovação defendida por ele tem como objetivo "trocar todos esses políticos que estão aí". Ou quase todos. "Os que estão envolvidos na prática antiga", diz. Mas garante que isso não passa por lançar candidatos em 2018.

Com o Governo Temer completando sete meses, Chequer avalia que a gestão do peemedebista tem aspectos "positivos e negativos". As reformas, como a da previdência e a trabalhista, fazem parte do lado positivo, "mesmo que passem por pontos impopulares". Já a dificuldade de o Governo se desconectar da corrupção é um dos aspectos negativos. Mesmo assim, "isso não é motivo, por enquanto para impeachment".

Pergunta. A manifestação de domingo é pelo fim do foro privilegiado, contra o aumento do fundo partidário, contra o voto em lista fechada e em apoio à Lava Jato. Não são muitas pautas?

Resposta.
As pautas que levaremos para as ruas estão todas sob um guarda-chuva que é o da renovação política. Isso é, trocar os políticos que estão aí.

P. Todos?

R.
Não todos, mas os que estão envolvidos na prática antiga.

P. Quais, por exemplo?

R.
Vamos anunciar alguns deles no domingo.

P. Renan Calheiros e Romero Jucá entram nesse anúncio?

R.
Muito provavelmente.

P. E Aécio Neves?

R.
Aécio não sei ainda.

" O movimento Vem Pra Rua não é de centro-esquerda e não se posiciona na regra esquerda / direita que está totalmente distorcida no Brasil"

P. O MBL [Movimento Brasil Livre, um dos grupos que convocam o protesto] está defendendo uma proposta de reforma da Previdência que, segundo eles, é uma "emenda aditiva à reforma proposta pelo Governo Federal". Vocês defenderão essa reforma?

R.
Não conheço os detalhes da reforma que está sendo proposta pelo MBL. Nós reconhecemos a necessidade de um ajuste previdenciário no país, mas os detalhes disso sobram para os especialistas. É um termo extremamente técnico que não temos condições de julgar as nuances. O que nós reconhecemos é que um ajuste previdenciário para o país é fundamental.

P. O fim do estatuto do desarmamento é a principal pauta de ao menos um dos movimentos que estarão nas ruas domingo. O Vem Pra Rua está engajado nesse tema?

R.
Isso não faz parte da pauta do Vem Pra Rua nem pro domingo e nem pro movimento. Definitivamente não.

P. Você enxerga algum racha entre os movimentos que pediram o impeachment, dentre eles, o Vem Pra Rua?

R.
Não enxergo um racha. De que racha você está falando? Rachando no quê?

P. Principalmente nas pautas que cada movimento defende. Algumas lideranças afirmam que o Vem Pra Rua não é um movimento de direita e sim de centro-esquerda.

R.
(risos). Eu desconheço tanto o racha quanto esse posicionamento do Vem Pra Rua. Eu acho que as pautas para o domingo estão extremamente alinhadas. Houve uma reunião no domingo com vários movimentos e a pauta foi totalmente alinhada, a gente saiu de lá concordando com a pauta de renovação política, [contra] lista fechada e financiamento público de campanha. Não teve nenhum racha no encontro. Eu não sei de onde vem isso.

P. O Vem Pra Rua é um movimento de centro-esquerda?

R.
O movimento Vem Pra Rua não é de centro-esquerda e não se posiciona na regra esquerda / direita que está totalmente distorcida no Brasil. Três pessoas diferentes podem entender centro-esquerda de formas completamente diferentes. Eu nunca tinha ouvido falar que o Vem Pra Rua se posiciona como centro-esquerda. Confesso que é a primeira vez. Acho que isso é uma alucinação de alguém.

P. Você já foi criticado por parabenizar publicamente a posição do deputado do PSOL, Ivan Valente, sobre a votação da medida que anistiava o caixa 2...

"Nós não assistimos ainda a este Governo criando um quadro desconectado da realidade de corrupção sistêmica que a gente assistiu nas últimas décadas"

R. Exatamente. A nossa posição é muito transparente com relação a isso. Apesar de nós não lançarmos candidatos, nós fazemos interlocução política com qualquer partido. E o nosso critério é que o partido esteja verdadeiramente comprometido com alguma pauta que nós defendemos. No caso do Ivan Valente, ele não foi defendido. Foi defendida a sua atitude que, na época, era exigir uma votação aberta quando estavam falando sobre as 10 medidas contra a corrupção, uma posição igual à nossa. Ele defendeu a votação aberta e nós defendemos a posição dele. E defendemos como defenderemos a posição de parlamentares de qualquer partido se estiverem alinhados com o que a gente acha que é bom para o Brasil. Isso não nos posiciona em qualquer lugar do espectro de esquerda e direita de forma fixa.

P. Mas quando isso ocorreu – de elogiar publicamente o deputado Ivan Valente - muita gente acabou criticando o movimento. É impossível imaginar o Vem Pra Rua contemplando pautas defendidas pela esquerda?

R
. Contemplando?

P. Contemplando, abrigando.

R.
Abrigando? Nós não vamos abrigar nem esquerda e nem direita. De novo: é um movimento que tem pautas, tem objetivos, tem uma agenda para o Brasil. Não é partidário.

P. Sobre a renovação política. Vocês pedirão pelo Fora Temer?

R.
Não. A renovação é em 2018. Não estamos querendo derrubar congressista fora de mandato, a não ser que seja por um motivo legal. Michel Temer tem algumas coisas positivas e tem várias negativas que nós temos criticado. Uma coisa é criticar ações, outra é pedir o impeachment do presidente. Se aparecer evidências suficientes que justifiquem a gente pedir o impeachment, faremos uma nova avaliação.

P. O que é positivo e negativo no Governo Temer?

R.
O positivo são nomeações mais equilibradas no ministério da Fazenda, o que é fundamental para o país e, consequentemente, para o Banco Central, via ministério da Fazenda. Essas nomeações passarão a priorizar para o país coisas que estavam totalmente esquecidas e irresponsavelmente tratadas nos governos lulopetistas. Por exemplo, o controle de inflação, controle monetário, controle fiscal, independência do Banco Central.... Essas coisas mudaram completamente e já começam a colocar o Brasil numa trajetória diferente. Isso, por si só, já é uma diferença abismal do último Governo. Fora isso, as leis que passaram a regular as pessoas que controlam estatais são muito importantes para separar a influência do Governo nas empresas estatais brasileiras. O foco do Governo em reformas é absolutamente fundamental para o desenvolvimento do Brasil. Mesmo que passem por pontos impopulares, os ajustes são importantes para o Brasil, então tudo isso são características positivas deste Governo.

P. E negativas?

R.
A escolha de nomes que compõem o Governo. Desde o começo, o quadro escolhido não é dos melhores. Nós já tivemos vários ministros que tiveram que sair, tiveram outros que estão sob questionamento, então nós não assistimos ainda a este Governo criando um quadro desconectado da realidade de corrupção sistêmica que a gente assistiu nas últimas décadas. Quanto a isso, deixa a desejar. Uma nomeação para o Supremo de alguém que era próximo ao presidente [o ex-ministro da Justiça e agora do STF, Alexandre de Moraes], um ministro que servia ao presidente, nós também não consideramos adequado. E fora isso, é muito preocupante a proximidade que o presidente está tendo dessas ações do Congresso de tentarem salvar os parlamentares e barrar a democracia, como a anistia, como a lista fechada, o foro privilegiado, o aumento do financiamento de campanha. Nessa semana veio a tona a possibilidade de que ele [Michel Temer] estaria participando dessas articulações. Isso seria muito preocupante para o país.

R. Qual é o sentimento de vocês, que lideraram um movimento pelo impeachment de um Governo apontado como corrupto, e que agora tem um Governo com um terço dos ministros citados em delações?

P.
Não é um sentimento, é uma atitude de crítica. Isso é altamente indesejável e está carregando os aspectos de uma política velha. Nós somos totalmente críticos a isso. Agora, antes que você pergunte, ou já que está comparando com outros casos, isso não é motivo, por enquanto de impeachment. Essa é a grande diferença. Nós só adotamos a posição favorável ao impeachment da Dilma quando vieram evidências irrefutáveis de que ela havia cometido crimes de responsabilidade [fiscal]. Eu tenho certeza que o vem Pra Rua vai criticar todos os presidentes do Brasil em alguns aspectos, porque é inevitável que haja aspectos de discordância. Existe uma diferença entre criticar alguns aspectos e tentar derrubar o Governo, são coisas que não têm relação direta.

P. Você disse que a renovação será nas urnas, em 2018. O movimento lançará candidatos no ano que vem?

R.
Não. Isso vai acontecer em 2018, mas começa agora. Porque nós temos agora o Congresso pensando em empurrar um combo em cima da população, que é um combo de anistia, foro privilegiado, voto em lista fechada e aumento de financiamento público. Então essa batalha já começou. A anistia acaba de voltar à pauta, ela é perigosa, os parlamentares estão começando a aderir a isso de novo, apesar de o presidente ter negado isso há alguns meses e essa tentativa de aumentar o [teto de] financiamento [de campanha] para 3 ou 4 bilhões de reais com o nosso dinheiro e de fazer uma lista fechada absolutamente antidemocrática, isso já começa a comprometer as eleições de 2018. Então é algo que começa agora. Com relação a candidatos, não, nós não vamos lançar candidatos em 2018, da mesma forma como não lançamos em 2016. Não é plano do Vem Pra Rua de se partidarizar e lançar candidatos próprios.

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