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Esses tênis são supostamente tão eficientes que o mundo do esporte quer barrá-los

A placa de fibra de carbono na entressola dos tênis Nike dispara especulações sobre as fronteiras do doping tecnológico

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Kipchoge, de vermelho, à frente de um grupo de atletas, treinando no Quênia na sexta-feira, dia 17 de março AFP

A casa Nike inventou um calçado atômico para que um atleta baixe de duas horas o tempo da maratona, o novo graal do esporte. Entre o recorde atual da maratona (2h 2min 57s) e a meta (1h 59min 59s) há 178 segundos, um salto de 3%. Nunca na história baixou-se tanto de uma só vez o recorde da maratona, mas nunca antes um fabricante como a Nike tinha anunciado tênis que permitem reduzir em 4% o gasto energético necessário para correr. Se a declaração, baseada em análises de laboratório, pode ser corroborada na prática, o que fisiologistas e biomecânicos duvidam, os atletas escolhidos para a façanha, Kenenisa Bekele e Eliud Kipchoge, capazes de correr atualmente 2h e 3min, têm já as duas horas em suas pernas. Ao seu lado, empalidece o 1% de vantagem prometidos pelos novos tênis da Adidas, marca que também compete pela maratona em menos de duas horas e que anuncia uma sola forrada de uma espuma especial que devolve a maior parte da energia que o atleta deposita na pisada.

Além de seu peso, inferior a 200 gramas, sua forma aerodinâmica e sua inclinação para a frente, o segredo e a polêmica do tênis Nike, batizado VaporFly Elite, está na entressola e têm a forma alargada na frente e estreita atrás de uma finíssima e rígida placa de fibra de carbono incrustada na borracha. “Correr com esses tênis será como descer um morro, não será possível correr devagar”, anunciam os pesquisadores que inventaram o produto, cuja versão mais sofisticada será estreada em maio por Kipchoge, o atleta líder do projeto, no circuito de Monza. No mercado custará 250 dólares (cerca de 775 reais).

Assim que o truque ficou conhecido, vozes começaram a se levantar colocando em dúvida a legalidade das placas e de seu efeito de mola ou catapulta. A federação internacional de atletismo (IAAF), o órgão que deve aprovar todos os materiais, já anunciou que estudará o caso e a redação do artigo que as regulamenta e que proíbe usar qualquer “vantagem injusta”. De fibra de carbono com efeito mola também eram as polêmicas próteses que permitiram a Oscar Pistorius correr com pernas artificiais contra atletas de carne e osso.

O esporte, um mundo conservador e nostálgico que se aferra à tradição como essência da lenda que o alimenta, considera escandalosa qualquer novidade tecnológica. E às vezes tem razão. Não teve, e perdeu a batalha, com os maiôs de corpo inteiro que permitiram há uma década que todos os recordes de natação fossem quebrados. Teve, apesar do desespero dos que veem no esporte uma arte além de uma demonstração de proeza física, a mudança das raquetes de madeira pelas metálicas (agora de fibra de carbono e outros materiais sintéticos), que permitiram uma expansão e um desenvolvimento tremendo do tênis. Algo parecido aconteceu há 25 anos com a chegada ao golfe dos tacos metálicos. Os artistas se aferraram à madeira de toda a vida, a seu ponto doce e a sua capacidade de interpretá-la, e desprezaram uma novidade que, diziam, permitiria que um orangotango jogasse golfe. A torcida agradeceu as novas distâncias do golfe e os jogadores se renderam.

Stepanov e Puma

Os tênis da Nike, de qualquer forma, lembram mais casos ocorridos no próprio atletismo. Em 1957, o saltador soviético Yuri Stepanov saltou 2,16m, uma altura que privava os Estados Unidos de um recorde mundial que detinha havia 44 anos. Logo se descobriu que o tênis do saltador tinha uma sola de espessura de cinco centímetros. Em 1960, a IAAF as proibiu. Stepanov, vítima da guerra fria, não superou a depressão e se suicidou em 1963.

Em 1968, o tartan cobriu as pistas de atletismo de superfície sintética. Para a Olimpíada do México, a Puma inventou tênis que em vez dos seis cravos habituais, que prendiam no tartan, tinham 68 pontinhas colocadas na sola como se fossem as cerdas de uma escova. Tommie Smith as usou e ganhou os 200m. Pouco depois, a Adidas conseguiu que fossem proibidas.

A noção de vantagem injusta ou de doping tecnológico – mais do que nos laboratórios – se instalou nos escritórios. É lá que será resolvido o caso das entressolas dos tênis mágicos da Nike. A fronteira do doping tecnológico, uma linha tão pouco nítida quanto a que delimita o marketing da ciência, pode voltar a mudar.

Quando o calçado conta mais do que o atleta

Nike. São os tênis mais polêmicos pelo efeito catapulta proporcionado pela inclinação de sua sola e, sobretudo, pela placa de fibra de carbono rígida incrustada na entressola que, segundo seus inventores, proporciona uma economia de energia de 4%. Chamam-se VaporFly Elite. Um modelo semelhante custará cerca de 250 dólares (775 reais).

Adidas. As vantagens anunciadas pelo fabricante alemão são inferiores às do modelo da Nike. A sola do Adizero sub2 está cheia da chamada espuma explosiva que proporciona uma economia de 1%. A marca ainda não anunciou o atleta que as calçará para tentar baixar o tempo de duas horas da maratona.

Adidas. Las ventajas que anuncia el fabricante alemán son inferiores a las de Nike. La suela de las Adizero sub2 está rellena de una llamada espuma explosiva que proporciona un ahorro del 1%. La marca aún no ha anunciado el atleta que las calzará para intentar bajar de dos horas.