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COLUNA

Sobre linguiças e reformas de Temer

O escândalo da carne mostra como os embutidos financiam as leis brasileiras

Peça de carne com selo de inspeção em São Paulo, em outubro de 2014. REUTERS

Diante do escândalo dos frigoríficos e das reformas propostas por um Congresso emporcalhado com todo perdão aos suínos pelo uso recorrente da metáfora —, só nos resta lembrar o chanceler alemão Otto von Bismarck, ainda no século XIX: “Se o povo soubesse como são feitas as leis e as linguiças, não obedeceria as leis e nem comeria as linguiças”.

Existem mais variações dessa frase do que produtos diferentes nas gôndolas de frios e derivados na praça. Muitos gaiatos acrescentariam a imprensa na paródia. Deixa quieto, não mexerei no prato no qual me lambuzei por décadas.

Juro, todavia, que terei dificuldade em largar o cachorro quente e a calabresa com cerveja, caríssimo, mesmo depois das más notícias sobre os embutidos. Declaro-me um viciado, um drogadicto. Seja no “dogão” à moda paulistana, que inclui uma feira livre completa no seu recheio, seja no “comeu-morreu” do Nordeste, apelido carinhoso do sanduíche com salsicha e carne de terceira moída, com muito tomate picado e coentro, faz favor, rapaz da carrocinha.

Neste exato momento, proustianamente, sonho com dois especiais: o da pracinha do Diário de Pernambuco, no Recife, e do praça dos Ourives, em Juazeiro do Norte, nas redondezas da estação ferroviária. Inocentes iguarias em busca do tempo perdido. Água na boca. “Comeu-morreu” com pitú ou cajuína.

Ah, se o povo soubesse como são feitas as leis e as linguiças... Pelo menos a outra parte do cardápio, príncipe Bismarck, parece que não será engolida como foi empacotada no açougue do Planalto e o seu suposto selo de qualidade. Você reparou quanta gente, aprecie ou não os “dogões” da vida, ainda sonha em se aposentar antes da visita da Velha da Foice? As manifestações desta semana que o digam, apesar de vendidas na tevê como zumbis que foram às ruas para atrapalhar o trânsito.

O mais louco, nobre camarada, é que os mesmos empresários defumaram a carne suspeita e fizeram dos governistas uns embutidos sem escrúpulos. Vide relatório da PF. Donde concluímos, velho Bismarck, à guisa de tira-gosto no boteco: no Brasil da Lava Jato, a linguiça faz a lei e vice-versa.

Se o povo soubesse como são feitas as reformas, provaria que o mais podre dos frigoríficos flagrados na Operação Carne Fraca é bem mais limpinho que o Congresso a essa altura.

Que fome me deu esta crônica. Agora com licença, chanceler, tenho direito a uma cerveja e linguiça na cachaça, seu garçom. Sem marcas de prestígio, faz favor, hoje só aceito as caseiras. De Gonçalves, Minas Gerais, de preferência. Bom apetite e até a próxima.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “A pátria em sandálias da humildade” (editora Realejo), entre outros livros. Comentarista de televisão nos programas “Papo de Segunda” (GNT) e “Redação Sportv”.

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