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Gaste tudo em uma aventura de amor

Esqueça a recomendação óbvia dos especialistas e torre sua conta inativa do FGTS em uma viagem romântica

O amor acaba, mas uma viagem, seja a Paris (foto) ou a Poços de Caldas, levanta a moral da história. REUTERS

Vou contrariar os sensatos conselhos dos economistas de plantão. Essa laminha da conta inativa do FGTS, fruto do seu bíblico e sagrado suor, deve ser gasta com uma viagem de amor. No mínimo com um piquenique no domingo do parque, um combo cinema+jantar romântico, algo que você não faz com a dita pessoa amada/amante há muito tempo.

Sei que pagar dívidas, como recomendam as frias marionetes da racionalidade, seria o correto. Que tal esquecer o banco e os credores apenas por um momento na vida e fazer uma loucura? Uma loucurinha, afinal, a considerar a média, a maioria dos trabalhadores receberá pouca grana.

Será inesquecível. Depois você corre atrás, qual um Usain Bolt da sobrevivência, e cobre ou rola a dívida. Haja irresponsabilidade do cronista —mestre em desastres financeiros e portador de um delirante capital amoroso, como sopraria neste momento o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino. Uma loucurinha, eis a pedida.

O amor acaba, amigo(a), mas uma viagem, um piparote na rotina, plaft, seja a Paris ou a Poços de Caldas, levanta a moral da história. Vamos viver apenas para saldar dívidas com banqueiros?

No fundo, no fundo, com ou sem garantia, uma graça com o moço ou com a moça, uma besteirinha de amor, é o que vale. O resto não passa de um extrato para simples conferência. A vida não é um boleto, meu caríssimo mão-de-vaca. Sim, ótimo se der para saldar a dívida externa com o afortunado banqueiro e ainda bancar um mimo nas artes bambuais do kama-sutra amoroso. Seja com champanhe ou fazendo boiar a maçã do desejo de uma sydra.

Haja irresponsabilidade do cronista —mestre em desastres financeiros e portador de um delirante capital amoroso

Vale o estrago. Vale tirar esse jogo da retranca rotineira do eterno empate das contas a pagar com o orçamento. Você não morrerá rico, velho amigo, por causa de mais uma recuada financeira com o que restou no fundo do pote de um suor antigo deveras suado para enricar gordíssimos patrões de outrora.

Que me desculpem os economistas que desprezam o romantismo nessa hora, mas pagar as contas e esquecer a dívida interna com o amor caseiro não é um bom investimento. A vida irá cobrar juros mais caros depois na hora do adeus. Não existe responsabilidade fiscal no amor, meu velho.

A vida não é um boleto, meu caríssimo mão-de-vaca

Amor trepidante e sem rotina acaba, imagina a tristeza de amor que não anda, não sai do canto. Amor parado cria o inevitável lodo escorregadio do abandono ou do fim inercial propriamente dito. “Te alui, criatura”, como berra a linda advertência em nordestinês fluente. Melhor, digo, menos pior, ter o nome sujo no Serasa —morte a crédito— do que chorar as impagáveis lágrimas de um pé-na-bunda.

Xico Sá, escritor e jornalista, autor de “Os machões dançaram -crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões” (editora Record). É comentarista nos programas “Papo de Segunda” (GNT) e “Redação Sportv”.

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