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Quando olhei a terra ardendo

No aniversário de 70 anos de 'Asa Branca', uma viagem musical “para acordar os homens e adormecer as crianças”

O músico Luiz Gonzaga, autor de 'Asa Branca', que completa 70 anos (e nina o sono de Irene). Agência Brasil

Irene ri, Irene chora, e o papai precisa ganhar a sangria das crianças em mais uma crônica.

Irene ri, Irene chora e este Avôhai —mix de avô e pai— descobre, por acaso, o poder de Asa branca para fazer delirar uma recém-nascida. Asa Branca em coreano, sublinhe-se. Sim, o papai, ainda lesado nas cinzas carnavalescas, achava que era em japonês. “Se oriente, rapaz”, gracejou a mina durante a segunda troca de fraldas desta manhã de quinta.

Foi soltar na vitrola o hino nacional do pernambucano Luiz Gonzaga e do cearense Humberto Teixeira, vixe, para Irene atingir o nirvana. A versão é de um grupo folk de Seul chamado Coreyah. Bonito deveras.

A viagem começara ao ler o amigo José Teles, no JC, sobre o aniversário de 70 anos de Asa Branca. Donde Irene, criatura da Cratóvia, resultado de um pai vindo do Crato e de um coração materno bombeado historicamente com o sangue de Varsóvia, se perdeu nas galáxias de todos os sons.

Mais adiante, filha, te falo sobre Exu, terra de Gonzaga e do teu bisavô paterno. Lembre ao teu esquecido velho de também contar sobre as “cheias”, digo, as enchentes, na invernosa Iguatu de Teixeira e de outras memórias de nuvens e garrafas. Play again, Coreyah. Irene delira.

Foi um efeito equivalente ao transe daquela criança que ouve Heroes, do Bowie, em um vídeo viralizado do Facebook. Foi algo assim “sussa, sussinha, sussê sassai”, meu nobilíssimo Tom Zé. Foi.

Mais adiante, filha, te falo sobre Exu, terra de Gonzaga e do teu bisavô paterno

E olhe, como me sopra aqui a Lari mãe, que andava difícil superar, na lista dos vinilzões do repertório de Irene, o Burt Bacharach (Portrait in Music, vol. II) e o metal uterino do inimitável Test.

Pense numa menina rodada na vitrola. A sivuquinha cabeçuda endoidou com o LP do Paris, Texas, com o barulho feio do Romulo Fróes, o samba esquema noise, o Otto, o Junio Barreto, o prato de flores da Nação Zumbi, o Bob Dylan (Desire), o Elomar, a bomba de estrelas do Jorge Mautner, Duke Ellington, o juazeirense João Gilberto (não curtiu O pato, mesmo sabendo que não era o da Fiesp, registre-se!) e amou (viu, tio Joca) a trilha do filme A Virgem de Saint Tropez.

Lindo mesmo foi agora, senhoras e senhores, noves fora qualquer sessão coruja sonora, quando Irene emulou (primeira vez que uso esse verbo desgraçado que odeio) um autêntico Hermeto Pascoal dos mais incríveis e harmoniosos puns do universo em desencanto. Como são imbatíveis os puns dos primeiros dias de vida, minha reinvenção do Gênesis, meu big bang, meu big jatinho.

Emulou um cacete, reage a brava Irene, morrendo de rir com Forró número 1, na voz de Gal Costa: “Sanfona velha do fole furado/ Só faz fum, só faz fum...”

Infância é rima, velho Dicró, o negócio é rimar, Max B.O.

Nos 70 anos de Asa branca e no primeiro mês de vida, Irene ri, Irene chora, Irene vive e o papai ganhou, quiçá honestamente, o pão, o vinho e a sangria da casa. Psiu. Irene dorme.

Xico Sá, escritor e jornalista, acabou de lançar o livro “A Pátria em sandálias da humildade” (editora Realejo”).

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