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Lula nega obstrução à Lava Jato em viagem com contornos de campanha a Brasília

Ex-presidente petista ataca reformas de Temer e anuncia série de viagens ao Nordeste

Lula na abertura do congresso de agricultores nesta segunda-feira. EFE

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou sua ida a Brasília, em que depôs na Justiça Federal como réu da Operação Lava Jato, para começar a alinhar as bases de sua candidatura para a Presidência em 2018, apesar de ainda não admitir oficialmente que será o nome do PT na disputa. Primeiro colocado nas pesquisas eleitorais, ainda que também acossado por um alto índice de rejeição, o ex-presidente fez, nos últimos dias, reuniões fechadas com parlamentares e representantes de movimentos sindicais e sociais. E deixou claro como pretende conduzir sua possível campanha: explorando o desgaste do Governo do presidente Michel Temer e suas polêmicas reformas trabalhista e da Previdência. Na próxima semana, ele deve começar a viajar pelo país para destacar seu legado e tentar combater os efeitos provocados pela Lava Jato ao seu nome e ao do Partido dos Trabalhadores. 

A investigação em que é três vezes réu é uma pedra no sapato aos planos de Lula candidato, já que ele pode se tornar inelegível se condenado no Tribunal Regional Federal (TRF) até as eleições. Nos próximos dias, também deve ficar claro de que forma a nova tormenta que se aproxima de Brasília, com a segunda lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, vai atingi-lo. Já há indícios de que delatores relataram doações não contabilizadas para sua campanha.

O próprio depoimento de Lula na Justiça Federal do Distrito Federal nesta terça foi carregado de tom político e praticamente de campanha _o petista distribuiu as declarações em vídeo em sua página no Facebook. Interrogado em um processo a que responde por tentativa de obstrução na Operação Lava Jato, o petista disse ser vítima de um "massacre" por conta das acusações e da repercussão delas na imprensa. "Todo dia, no café da manhã, no almoço, na janta, alguém insinuando: 'Tal delator vai prestar depoimento e vai delatar o Lula". Ele é acusado de, por meio do ex-senador petista Delcídio do Amaral, tentar convencer o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró de não assinar um acordo de delação premiada. Delcídio foi flagrado fazendo a proposta em uma gravação feita pelo próprio filho de Cerveró e acabou preso. O ex-senador, então, afirmou que o fez a pedido do ex-presidente, com quem havia se encontrado na sede do Instituto Lula. "Só tem um brasileiro que pode ter medo de uma delação do Cerveró. Era o Delcídio", rebateu o ex-presidente. Questionado pelo juiz sobre a função do Instituto Lula, afirmou que era a de ajudar a levar os programas desenvolvidos em seu Governo para outros países, pois sua gestão colocou "pobres no Orçamento".

A expressão já havia aparecido hora antes, na noite da segunda-feira, quando Lula discursou para uma plateia lotada de pequenos agricultores rurais em Brasília. "Querem resolver o problema do Brasil? Então coloquem o pobre no Orçamento!", ressaltou ele, durante a abertura do 12º Congresso Nacional da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). As reformas trabalhista e da Previdência que o Planalto pretende aprovar o mais rapidamente possível servem perfeitamente ao discurso do petista de que o partido é o único a se preocupar com os pobres. E a estratégia do ex-presidente ganha força à medida que a gestão Temer demonstra falta de tato com pautas sociais importantes, como na chantagem feita pelo PMDB em relação ao Bolsa Família, dizendo que o programa de transferência aos mais pobres está ameaçado caso a reforma da Previdência não seja aprovada. O programa, que é um dos legados lulistas, é visto como intocável até pela oposição ao PT. E qualquer indício de que um Governo poderá cortá-lo é um impulso que pode jogar votos no colo de Lula.

"Essa gente que está aí não veio para favorecer vocês", afirmou o ex-presidente, em referência ao Governo Temer. "Vocês já viram algum deles cortando a própria aposentadoria?", continuou o petista, em cujo Governo ocorreu a mais recente reforma da Previdência, em 2003, também criticada por sindicatos na época. Em sua fala breve, que durou pouco mais de 30 minutos, Lula reforçou que as reformas prejudicarão os trabalhadores e disse que este é o momento de os sindicatos agirem. "Agora que essa gente está mostrando a que veio é que a gente precisa de vocês", ressaltou ele, em uma espécie de reconhecimento de que os movimentos sociais, historicamente ligados ao Partido dos Trabalhadores, se desmobilizaram nos anos em que o partido esteve no poder. Nesta quarta, a Central Única dos Trabalhadores fará um dia de paralisação de atos nacionais contra as reformas. A presença de Lula ainda não foi confirmada.

No próximo domingo, o discurso será testado também em uma viagem ao Nordeste. Lula irá acompanhado de Dilma Rousseff a Monteiro, na Paraíba, para realizar uma espécie de inauguração paralela da Transposição do Rio São Francisco, que leva a água do rio para áreas de seca do semiárido brasileiro. Iniciada ainda no Governo Lula, sua entrega atrasou pelo menos sete anos desde as primeiras previsões, e sua inauguração acabou sendo feita por Temer, que vem destacando que seu governo acelerou as obras, em uma tentativa de faturar politicamente com o projeto. Lula irá a Monteiro (Paraíba), mesma cidade onde o presidente peemedebista esteve, ao lado de políticos da região. Ainda no congresso de agricultores, o ex-presidente indicou que será a primeira viagem de uma série. "Estou disposto a voltar a ter 35 anos. A lutar por esse país e andar por esse país para dizer o que está em jogo aqui."

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