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Família pede exumação do corpo do menino de 13 anos morto após ser expulso da porta do Habib’s

Laudo do IML diz que ele morreu de ataque cardíaco e que há vestígios de uso de drogas

Família sustenta que João Victor foi agredido por seguranças do estabelecimento

João Victor, jovem que faleceu em fevereiro.

A morte do garoto João Victor, de 13 anos, no último dia 26 de fevereiro, após uma confusão com funcionários de uma franquia do Habib's, na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, abalou a população local e a imagem da rede de fast food, famosa por vender esfihas a preços populares. João estava pedindo dinheiro na porta do local, e, a partir deste momento, as versões se dividem: a franqueadora afirma que ele foi vítima de um mal súbito após ser abordado pelos funcionários. Mas, de acordo com testemunhas e a família, o jovem foi espancado pelos dois funcionários.

A polícia ainda investiga o ocorrido. Um laudo do Instituto Médico Legal divulgado nesta terça afirma que ele morreu de um infarto cardíaco relacionado à ingestão de drogas. O episódio, porém, ganha outros contornos em função da filmagem da câmera de segurança do local, veiculada quatro dias da morte de João. Imagens mostram o adolescente sendo arrastado pelos dois funcionários na calçada em frente ao local. O caso ganhou repercussão com a divulgação do vídeo. Os protestos em frente à franquia e pelas redes sociais aumentaram até darem origem a uma campanha para boicotar o Habib’s. A frase "Nenhuma criança a menos", com a hashtag #BoicoteHabibs se espalharam rapidamente nas redes sociais.

O EL PAÍS tentou falar com o pai de João, sem sucesso. Eles contrataram um advogado que vai pedir a exumação do corpo do adolescente para contestar o laudo do IML. Eduardo Nunes, rapper e pai de um dos amigos do garoto, tem sido o porta-voz da família. "Conheci o João. Ele era um menino bom. Sempre participou de intervenções artísticas e se interessou pelo rap", contou ele, que falou sobre o ocorrido. "Ele pedia moedas em frente ao Habib's. Naquele dia, ele insistiu em continuar pedindo mesmo depois de pedirem para parar, e aí os funcionários fizeram aquilo”, diz DuRap.

"Aquilo", no caso, seria a agressão promovida pelos funcionários da lanchonete, segundo a versão de familiares. “Disseram que ele quebrou um vidro, saiu correndo e teve um mal súbito, mas o que aconteceu não foi isso. As testemunhas disseram que os dois foram atrás dele, o espancaram e, como aparece no vídeo, carregaram o moleque até a calçada”, afirma o amigo da família. Pela sua versão, ele já estava morto quando ele aparece sendo carregado nas imagens. O Conselho Estadual de Direitos Humanos de São Paulo manifestou-se sobre o assunto argumentando que o laudo do IML é somente uma prova e precisa ser confrontado com o depoimento de testemunhas. "Pelo menos duas testemunhas até o momento relataram na delegacia a ocorrência de agressões contra o adolescente. Ainda é necessário se apurar de que forma essas supostas agressões e perseguição de funcionários do Habib's podem ter contribuído para a morte do menino", diz Ariel Castro, do conselho. De acordo com Castro, a polícia dispensou uma testemunha que disse ter visto a suposta agressão porque ela ser "moradora de rua".

Filmagem da câmera de segurança mostra o jovem sendo arrastado pelos funcionários. Kaique Dalapola/Ponte.

Enquanto não há uma resolução para o caso, os familiares seguem protestando, e farão parte de um  ato marcado para o próximo dia 16, às 17h, em frente à Catedral da Sé, no marco zero da capital paulista. “Queremos, acima de tudo, que os dois assassinos sejam presos. As negociações com o Habib's ficarão para depois”, disse.

A empresa divulgou uma nota dizendo que repudia veementemente todo e qualquer ato de violência física ou moral realizada por qualquer pessoa, por qualquer que seja o motivo. “O tratamento dado pelos funcionários ao adolescente não reflete de forma alguma os princípios, o direcionamento e o treinamento dado pela empresa”, diz o comunicado.

Esta é a segunda tragédia envolvendo o dono da rede de fast food, Alberto Saraiva. A primeira foi o assassinato do seu pai, durante o assalto à pequena padaria que ele comandava na periferia de São Paulo. Saraiva tinha então 20 anos, e precisou largar a faculdade de Medicina para assumir o negócio do pai. Acabou levando jeito como empresário até abrir o Habib’s nos anos 1980. Agora, aos 64 anos, vê a marca do seu fast food envolvida na morte de um adolescente.

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