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Germano Mathias, o catedrático do samba quer aplausos outra vez

Aos 82 anos, o sambista paulistano que foi estrela de rádio nos anos 50 e 60, e referência ao lado de Adoniran Barbosa, sonha em gravar novamente

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Germano Mathias, o rei do sincopado

Em cima do sofá, fora de lugar, uma gaveta de madeira aberta. Dentro, uma dezena de dicionários. Uns trambolhos desses que pesam pra lá de cinco quilos e que exigem uma lupa para que se enxergue as letras miúdas impressas. Entre eles, jogos de caça palavra. Nível difícil. Dificílimo, como Germano ressalta. Sentamos. Um de frente para o outro. E ele, como se eu tivesse ido parar na COHAB Pirituba, conjunto de prédios populares na zona norte de São Paulo, por acaso, desfila seu cartão de visitas: “Meu nome é Germano Mathias com ‘th’. O ‘h’ é de homem e o ‘m’ é de macho, por favor. Sou o catedrático do samba, sou o rei do sincopado. Esse é meu slogan”.

Com catedrático, ele quer dizer conhecedor, professor, doutor, bamba. Com sincopado, refere-se ao ritmo quebrado de sua música: ao tipo de batida gingada e atiçada que mantém tanto na percussão como no modo de cantar carregado de um sotaque paulistano, que, já em extinção, entoa letra por letra de uma palavra. “Sou aquele que não troca o ‘u’ pelo ‘o’, não falo ‘guverno’, falo ‘governo”, graceja. Aos 82 anos, pertinho dos 83, Germano teve seus anos de ouro entre as décadas de 1950 e 1960. Virou estrela de rádio, gravou sucessos de Carnaval, participou de longas-metragens, transformou-se em verdadeira referência do samba paulistano ao lado de figuras como Adoniran Barbosa e Geraldo Filme.

É verdade. Ficou vinte anos sem gravar disco próprio, decaiu, sumiu. Na década de 1970, em Campinas, no interior de São Paulo, virou funcionário público. Enquanto o samba foi a música brasileira por excelência, contudo, Germano também foi único. Era considerado por sambistas cariocas da estatura de um Zé Keti, de um Padeirinho da Mangueira, de um João do Vale, de um Nelson Cavaquinho: dividir o ritmo de suas canções daquele jeito só ele sabia fazer. Em 1956, em Salvador, Gilberto Gil, com só 14 anos, era outro que colava o ouvido no rádio para não perder a síncope rasgada daquele paulistano. Anos depois, em 1978 gravou o disco Antologia do Samba-Choro ao lado dele.

Mas Germano não gosta de falar do que passou. No sofá de sua casa, lá onde a periferia se rarefaz aos pés da Cantareira, única montanha repleta de verde visível no horizonte paulistano, ele sentencia seu mantra: “Águas passadas não movem moinho”. Quer é saber do futuro. E, para esse, ele tem um plano. “Algo que vai me favorecer sobremaneira”, começa dizendo. A “coisa”, o enrosco, explica, é a falta de mídia. Foi a falta dela, tem certeza, que fez os shows minguarem e ele sair do circuito. Necessário é aparecer na televisão. Só assim, garante, vai “subir como rojão”. Esta reportagem, ele previu antes mesmo que eu botasse os pés dentro do carpete bege da sala, será o pavio necessário para que isso aconteça.

O plano, Germano explica levantando do sofá com alguma dificuldade, é que ele consiga dublar os sambas “Grade de prisão” e “Inimigo de quem ama” nos programas policiais Brasil Urgente e Cidade Alerta, da Band. No aparelhinho de som preto coloca seu último CD, Inusitado, Peculiar e Sui-Generis, para tocar. “As duas músicas têm tudo a ver com os programas do Datena e do Marcelo Rezende. São sobre crimes passionais. Na primeira o homem mata a mulher, na segunda eu falo do ciúme que é o maior inimigo do amor”, diz. Garante que a ousadia de cantar o que ele canta, o fará ascender mais uma vez. A prova, lembra, é o Roberto Silva, sambista conhecido como príncipe do samba, que cantou o que saia nas páginas de jornais sensacionalistas e conseguiu dar uma virada na carreira.

O que o CD reproduz, contudo, apesar de falar sobre o crime de feminicídio, soa quase inocente frente ao que se sabe do assunto hoje no país – a cada 90 minutos, uma mulher é morta vítima de violência de gênero. E o próprio Germano explica que assiste aos programas todos os dias, mas que fica cada vez mais impressionado com a violência. Ele, que não fuma, não bebe, mas manicura a mão, usa chapéu e sapato bicolor, garante que não existe mais a malandragem algo posada (que ele bem representa) no Brasil. Diz que as coisas perderam sua classe, que não têm mais “elã”, para usar uma das palavras de dicionário que ele gosta tanto de repetir. “O malandro virou bandido”, sentencia quase chegando perto de se abrir a falar do passado.

Morador no bairro do Pari, aos 11 anos Germano fazia o trajeto para o centro, onde ficava sua escola, todos os dias. No caminho passava pela antiga praça da Sé, marco zero da cidade, onde depois seria erguida a catedral paulistana. Ali conheceu o samba que era batucado, repinicado, nas latas dos engraxates, quase todos negros, que davam brilho aos sapatos dos passantes do centro. Viu de perto também a tiririca ou o samba de pernada em que dois parceiros dançam uma espécie de capoeira que tem por motivo a “derrubada”, ou seja, derrubar o outro no chão. Encantado, o menino branco, filho de portugueses, travou amizade com os engraxates e muitas vezes esqueceu-se da escola para brincar a brincadeira deles. Foi aceito.

“Uma lei de 1910 acabou com os salões de engraxates e todos foram ganhar a vida nas ruas do centro, a partir daí, entre 1930 e 1940, já existem documentos que dão indícios que o samba de pernada teve início”, conta o historiador André Santos. Assim, se no samba carioca o ritmo era dado mais com a batucada em frigideiras, no paulistano a marca ficou dada pela lata de graxa. “Ela dá um som mais fraquinho, estridente, que não é o da frigideira. Som oquinho, moleque, serelepe algo debochado, catimbado. Isso, catimba. A frigideira vai longe, a lata de graxa manda para perto do ouvido. E da gente”, escreveu o escritor João Antônio, em seu livro Abraçado ao Meu Rancor, de 1986, em que fala de Germano Matias.

“A reforma da praça da Sé, com a construção da nova catedral, acabou com um jeito de vida que havia por lá, espantando os engraxates”, diz Santos. Para ele, a abertura de grandes avenidas cidade afora, a opção de se preterir os bondes em favor dos automóveis, o espraiamento urbano, a decadência do centro, são todas características de um mesmo movimento: o esvaziamento das ruas. “São Paulo, naquela época, era vibrante, todos se encontravam. Os malandros conviviam com os jornalistas, que conviviam com os estudantes, que conviviam com os intelectuais. Isso acabou e é possível ler um pouco da queda na carreira do Germano pela decadência dos espaços públicos”, diz o historiador.

É um pouco difícil conversar com o Germano. Tudo faz parte de um show dele para você. As piadas, por exemplo, vêm em ritmo alucinado: “Sou de uma família quase boa, o único que não presta sou eu”, “Sou rico em detalhes, mas queria mesmo é ser em dinheiro”, “Tenho muitas boas ideias, o que estraga são os maus pensamentos”. Por aí vai entre caretas em que esbugalha os olhos, põe a língua pra fora e grita um risinho fininho. Quando sente que exagerou em alguma piada mais pesada, diz que está só brincando. Quando solta alguma palavra de dicionário que soa bem aos ouvidos, comenta: “Falei bonito pra caramba. Gostou?”. E dá-lhe risos e bocas. Mas, Germano, o papo está bom; só que o que queríamos mesmo ouvir era sobre a praça da Sé. Pronto. Nada feito. O que ele quer é falar sobre seu plano que envolve o Datena e o Marcelo Rezende.

Germano Mathias cantando "Lata de Graxa" no filme Mandigueiro, de 1957

“No começo dos anos 1950, por insistência do engraxate e sambista Toniquinho, Germano fez um teste em uma rádio e entrou”, conta Caio Silveira Ramos, o biógrafo do sambista. Depois disso, acabou tendo que entrar para o Exército, onde passou mais tempo na cafua, a prisão das forças armadas, do que no pelotão. Rolando Boldrin, que apresenta o o programa Sr. Brasil, dedicado a cultura popular, topou com Germano no tempo de serviço militar. "Um dia estava andando quando ouvi uma voz estridente, meio em falsete, vinda da prisão. Era o Germano dizendo: 'Vamo logo, branquelo. Joga o cigarro que eu quero fumá'!", conta Boldrin. Ele jogou, mas um só. O sambista não pegou e, rápido, exigiu o maço inteiro. Alertado que aquele era um famoso malandro de São Paulo, o qual ainda não conhecia, Boldrin jogou o "maço de Bervely sem filtro" sem pestanejar.

A carreira militar de Germano, pelas presepadas que armava, não durou muito. Foi expulso pouco antes de 1956, ao botar nas costas da estátua do herói nacional Duque de Caxias uma mochila de campanha. De lá, saiu para gravar “Minha Nega na Janela”, seu primeiro grande sucesso. Não canta mais a música pelo teor racista de sua letra, mas curiosamente foi escolhida por Gilberto Gil no repertório do disco que os dois gravaram em parceria em 1978.

Aí, em 1957 gravaria “Lata de Graxa: “No coração da cidade/ Hoje mora uma saudade/ A velha Praça da Sé / Nossa tradição/ Da praça da batucada/ Agora remodelada/ Só ficou recordação/ Até o engraxate / Foi despejado/ E teve que se mudar / Com sua caixa/ Ai que saudade/ Da batucada / Feita na lata de graxa”. Outros muitos sucessos viriam depois, como “Guarde a Sandália Dela”, até que ele saísse um pouco de evidência. “Mas o samba ‘Lata de Graxa’ diz muita coisa”, diz Santos. “Ele fala da decadência da cidade e de uma saudade que é a saudade de onde Germano saiu”. Ramos, o biógrafo, completa, ao dizer que o que o sambista gravou é também um testemunho de uma cidade que existia antes de os espaços de lazer serem extintos, antes de as moradias em áreas centrais ficarem cada vez mais escassas e caras.

“A reforma da praça da Sé, com a construção da nova catedral, acabou com um jeito de vida que havia por lá, espantando os engraxates”, diz o historiador André Santos

2016 foi um ano difícil para Germano. Duas operações na coluna e a necessidade de fazer um controle bravo de insulina no sangue fizeram com que ele perdesse alguns quilos e também um pouco de seu jeito irrequieto. No entanto, o cruzar e descruzar incessante das pernas, a forma acelerada de falar, o encadeamento de ideias, piadas e planos ainda deixam fazer crer que, a qualquer momento, ele é capaz de levantar do sofá e sair cantando e dando pernadas a seu jeito de dançar herdado dos engraxates. Ao comentar o presente, um lugar em que é difícil enxergá-lo completamente integrado, ele pragueja um pouquinho contra duas coisas que considera falta de brasilidade: funk é coisa de quem não tem brasilidade; sambista que não usa indumentária completa, como ele próprio faz, também sofre de falta de brasilidade.

Tá bom, Germano. Mas, então, conta do que você tem medo. Ele pensa um pouco, diz que a pergunta é importante, mas, talvez farejando que ela possa levar a alguma outra pergunta que o faria rememorar dias antigos, sai com evasivas sobre sua “religiosidade de alta compreensão” que envolve muita leitura de Allan Kardec e hinduísmo. Certo, então qual é o carma que você carrega? Ele responde, sem responder, que “quem semeia vento colhe tempestade”. Escorregadio, Germano não abre a boca sobre engraxates e praça da Sé até o momento de dizer adeus com votos de que a reportagem chegue às mãos de Datena e Rezende. Ao abrir a porta, contudo, fala, quase numa confissão, que o ostracismo é ruim demais. E, para mim, é como se ele tivesse dito que nesse mundo não há nada para doer como o passado.

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