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Num batalhão do Espírito Santo, entre a pressão da família e o julgamento da sociedade

A angústia de um PM que viu colegas em surto e agora teme perder o emprego

“Somos pouco valorizados por nosso trabalho de risco”, desabafa

“Nunca sofri tanta pressão na minha vida”, desabafa o soldado B., integrante de um dos principais batalhões da Polícia Militar em Vila Velha, no Espírito Santo. Desde que um grupo de mulheres de PMs começou a bloquear as saídas dos batalhões e quartéis de diversas cidades capixabas, há dez dias, o estresse e a angústia tomaram conta dele e dos companheiros. “Os comandantes pressionam para a gente sair o tempo todo dizendo que seremos punidos. As mulheres falam para a gente ficar e fortalecer o movimento que luta pela categoria. Minha mãe me liga cinco vezes ao dia para saber se estou vivo e, para completar, a sociedade me hostiliza”, conta.

Policiais se preparam para embarcar em helicóptero em ação para demover paralisação.
Policiais se preparam para embarcar em helicóptero em ação para demover paralisação. REUTERS

No pátio do batalhão, um grupo reclama das constantes mudanças de escala – repassadas por grupos de WhatsApp – que se intensificaram desde o início da paralisação. “Temos que estar pendentes disso o tempo todo. Mudam toda hora e corremos o risco de levar falta e sermos punidos se não nos apresentarmos na hora correta. Estão fazendo de propósito. Esse medo de ser indiciado é constante ”, conta outro policial militar. Eles também revelam vários casos de colegas que tiveram “surtos de estresse” nos últimos dias. “Um deles ficou tão louco que começou a destruir uma viatura”, contam.

No domingo, o soldado B. visitou um companheiro que foi buscar auxílio no Hospital da Polícia Militar (HPM). “Ele estava bem desequilibrado emocionalmente. Mas o que me surpreendeu foi chegar lá e ver uns 20 amigos da corporação, o hospital estava muito cheio”, conta. Ainda segundo o soldado, a nova tática de tirar os policiais dos batalhões usando helicópteros deixou os agentes ainda mais confusos sobre o que fazer, muitos foram retirados aos prantos, segundo o relato de alguns PMs.

O clima de pressão e desorientação não é para menos. Os policiais participam de um movimento ilegal —já que os PMs não podem entrar em greve. Temem não só perder o emprego como outras punições em uma instituição militarizada e fortemente hierarquizada, clivada agora por diferentes lideranças. Mais de 700 policiais já foram indiciados e o Governo Federal já informou que não apoiará nenhum tipo de anistia aos agentes que paralisaram as atividades. A Polícia Militar do ES informou ainda que publicará, nesta terça-feira, no Diário Oficial do Estado, a instauração dos primeiros Inquéritos Policiais Militares (IPMs) e o processo de demissão de 161 militares envolvidos no aquartelamento.

O temor maior em Brasília é o contágio da crise, como ensaia acontecer no Rio de Janeiro. A falta de policiamento paralisou a vida no Estado e o mergulhou em uma onda de violência que já deixou mais de 140 mortos que nem sequer a presença das Forças Armadas e da Força Nacional foi capaz de conter. Enquanto milhares permaneceram reféns em suas casas, cidadãos protestavam nas ruas contra o motim, reacendendo de vez o debate sobre o direito de greve e sindicalização na categoria.  “Com o Governo irredutível e o caminho que essa paralisação tomou, eles temem perder o pouco que tem”, diz o psicólogo Pedro Luiz Ferro, ex-professor de psicologia de um curso de formação da Polícia Militar.

Mensagem enviada por policial a psicólogo.
Mensagem enviada por policial a psicólogo.

É Ferro quem relata que episódios de surto e descontrole dos agentes aumentaram com a tensão da crise da segurança pública nos últimos dias. No domingo, um antigo aluno soldado mandou uma mensagem pedindo desesperadamente ajuda. “Escreveu que estava pressionado, precisando de um psiquiatra. Ele começou com um discurso suicida e vale lembrar que ele tem uma arma na mão”, se assombra. O psicólogo conseguiu encaminhá-lo para uma consulta com uma psiquiatra, mas, assim como o soldado B., ficou chocado ao ver a quantidade de PMs que estavam nos corredores do hospital esperando auxílio. “Uma tristeza, vi muitos de farda chorando como crianças. A questão é que eles não possuem assistência psicológica e estão com as emoções à flor da pele. Hoje, o que existe são voluntários do Conselho de Psicologia e da Universidade Federal do Espírito Santo que tentam ajudar”. A Secretaria de Segurança do Estado confirmou ao EL PAÍS que os agentes não possuem atendimentos nos quartéis e batalhões, mas podem pedir assistência no HPM. A secretaria não soube informar, no entanto, o número de profissionais da área que estão disponíveis para atender os policiais no hospital nem a quantidade de PMs que procuraram o serviço desde o início da paralisação.

Depois que o Governo cortou a remuneração mensal pela escala especial, uma espécie de hora extra que significava cerca de 400 reais do salário, o soldado B. teve que fazer malabarismo para sustentar a mãe aposentada, a irmã e pagar a universidade onde cursa Direito com uma renda de 2.600 reais. O salário é um dos mais baixos do Brasil. “Desse valor ainda tem os descontos de imposto. Não temos nenhum auxílio alimentar, plano de saúde nem vale transporte. As viaturas estão sucateadas também. Realmente somos muito pouco valorizados para o trabalho de risco que fazemos todos os dias”. Atualmente, o movimento das mulheres reivindica melhores condições de trabalho e um reajuste de 43% do salários dos PMs, que está congelado há três anos. O Governo estadual argumenta que é impossível, com o atual caixa, conceder o aumento, além do temor de desencadear um efeito cascata de novas petições no funcionalismo.

O soldado conta que alguns agentes estão divididos sobre a greve, mas que ele particularmente se sente inseguro de voltar para as ruas com tão poucos PMs em atividade, já que teria que fazer o patrulhamento sem cobertura. O acampamento fincado na frente do seu batalhão, que não lhe permite sair, por agora, é um alívio segundo o soldado. “A grande maioria desses agentes que estão atendendo ao chamado do comando e indo para as ruas, mesmo a pé, são oficiais, são os chefões que não estão geralmente no patrulhamento. Até gente do administrativo eles colocaram para passear nas ruas. É um teatrinho”, explica. Ele ressalta ainda que os agentes do Exército, Forças Armadas e Força Nacional que estão atuando no Estado, não estão presentes na periferia, onde os “acertos de contas e a bandidagem” estão aumentando nesses últimos dias.

Corredor do hospital militar.
Corredor do hospital militar.

“É lá onde eu moro. Estou saindo à paisana com o colete por baixo da blusa, porque se um bandido me vê de farda, ele logo vai tentar me matar porque sabe que o policiamento está escasso”, diz. Na última quarta-feira, ele sofreu uma tentativa de assalto e foi cercado por quatro homens que estavam de moto, quando chegava em casa em Vila Velha. “Eles não viram que eu era policial, por sorte”, conta.

O soldado B sabe que a paralisação está cada vez mais próxima de acabar, mas teme que mesmo quando todo o efetivo volte para as ruas, muitos deles estejam abalados psicologicamente´por tudo que aconteceu. Além da guilhotina das punições, o Governo estadual ainda acena com a possibilidade de uma reestruturação institucional da PM ainda pouco clara. Na porta do batalhão, o número de mulheres diminui um pouco, o trânsito intenso voltou às ruas da Grande Vitória, alguns alunos voltaram às aulas e o comércio reabriu. A vida parece estar voltando ao normal.

Enquanto o grupo de PMs desabafa suas angústias, um dos policiais interrompe a conversa para mostrar a tela do celular. “Olha esse ônibus, foi incendiado agora." Soldado B olha com desilusão. Sabe que a rotina de violência da periferia também seguirá seu curso normal.

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