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crise no rio

Exército é mobilizado para garantir a segurança nas ruas do Rio de Janeiro

Familiares bloqueiam saída de policiais dos batalhões para exigir o pagamento dos salários

Mulheres de policiais impedem que seus maridos trabalhem. AFP

O Governo Federal decidiu mobilizar 9.000 soldados do Exército e da Marinha nas ruas do Rio de Janeiro para garantir a segurança da população às vésperas do carnaval. A intervenção militar é feita a pedido do Governo do Estado, que se encontra em situação de falência e não pode pagar em dia seus funcionários públicos, incluindo os policiais. A resposta à solicitação do governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB), que afirma ter pedido a ajuda das Forças Armadas há 20 dias, chega quatro dias depois de dezenas de mulheres e parentes de policiais militares decidirem ocupar cerca de 30 batalhões para impedir que seus maridos prestem serviço. O movimento de protesto, que exige melhores condições de trabalho para os policiais e o pagamento dos salários atrasados, é a medida adotada pelos familiares para provocar uma greve disfarçada da polícia, pois, por lei, os agentes são proibidos de fazer qualquer tipo de manifestação ou paralisação.

Os detalhes do contingente foram anunciados nesta terça-feira pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann, que há dois dias declarou que, apesar dos bloqueios, a situação no Rio de Janeiro estava “sob controle”. A partir de hoje os militares começarão a patrulhar as ruas pelo menos até o dia 22, antes da chegada do carnaval, a festa mais internacional do Rio. A permanência poderá ser estendida se houver consenso de que é necessário. “Trata-se de uma medida preventiva, já que teremos um aumento de demanda durante o carnaval e houve diminuição da capacidade operacional. É sabido que a Polícia Militar já trabalha com déficit operacional, então qualquer diminuição é sentida”, explicou uma fonte conhecedora da operação.

Jungmann explicou em coletiva de imprensa que a operação busca liberar parte do contingente de PMs do patrulhamento em decorrência de manifestações e a sobrecarga de turnos feitos pela polícia. O ministro não associou a ação aos protestos ocorridos nos batalhões e manteve o discurso de que a situação do Rio é de "normalidade". Os militares patrulharão, de forma semelhante à que foi feita durante os Jogos, os municípios de Niterói em São Gonçalo, o entorno de Deodoro e a Avenida Brasil, o porto e bairros da zona sul como Glória, Flamengo, Copacabana, Ipanema e Leblon. A Baixada Fluminense, foco constante de violência e onde o movimento das mulheres dos policiais está mais fortalecido, ficou fora da operação. O contingente de 9.000 homens é algo maior da metade usado durante a Copa do Mundo em 2014, quando foram deslocados 15.000 soldados e uma pequena porção dos 47.000 homensa usados durante os Jogos Olímpicos.

O governador do Rio e a cúpula da Segurança estão duplamente preocupados. Por um lado, os bloqueios dos batalhões pelo movimento de mulheres dificultaram o serviço da polícia, cujo comando está há quatro dias pensando em estratégias para driblar as manifestantes, desde retirar os policiais de helicóptero até fazê-los pular os muros ou caminhar quilômetros para trocar o turno na rua e em postos de gasolina e não nos quartéis. Apesar de a versão oficial afirmar, desde o início dos bloqueios, que entre 95% e 97% dos agentes estão cumprindo o serviço, a partida de futebol de domingo entre Botafogo e Flamengo revelou uma mobilização de segurança reduzida. Com menos policiais em torno do estádio, uma briga entre as torcidas terminou em tumulto e tiroteio, em que morreu um torcedor do Botafogo, de 28 anos.

Por outro lado, há quatro meses o governador tenta aprovar um plano de austeridade para tirar o Rio da falência, o que provocou, quase semanalmente, protestos violentos nas ruas protagonizados sobretudo por agentes das forças de segurança e servidores públicos. Sem polícia suficiente, novos protestos podem surgir sem controle.

Os manifestantes, entre os quais se encontram policiais, bombeiros, agentes penitenciários e até professores, tentaram várias vezes invadir a Assembleia Legislativa, onde serão votadas medidas de ajuste orçamentário para enfrentar a falta de liquidez do Estado. O Governo já teve que recorrer desde o ano passado à Força Nacional, uma espécie de tropa de elite subordinada ao Governo Federal, para reforçar a segurança. Uma nova manifestação marcada para terça-feira se apresenta como uma prova de fogo, uma vez que o Batalhão de Choque, dos agentes da Polícia Militar encarregados de conter os distúrbios durante os protestos, está bloqueado desde a madrugada de sexta-feira. No domingo, cerca de uma centena de policiais impedidos de entrar no quartel acabaram fazendo sua tradicional saudação à bandeira em plena rua, vestidos de moletom e sem toque de corneta.

Os policiais, assim como o restante dos funcionários públicos, ainda não receberam o salário de janeiro, nem o 13º. A Polícia Militar do Rio, uma das mais mal pagas do Brasil com um salário base de cerca de 2.900 reais, também não recebeu os extras a que tem direito pelo trabalho durante os Jogos Olímpicos em agosto, nem as bonificações por cumprimento de metas.

A situação do Rio preocupa as autoridades federais também porque é o primeiro caso de contágio depois de um movimento de mulheres muito semelhante se consolidar no Estado vizinho do Espírito Santo. Durante nove dias, esposas, irmãs, mães e primas de policiais militares bloquearam com sucesso os batalhões de seus familiares policiais. A falta de patrulhas semeou o caos nas ruas do Espírito Santo, com um saldo de mais de 140 mortos, assim como numerosos assaltos e saques que mantiveram a população refém em suas casas. O exército também foi chamado nesse caso, mas se mostrou incapaz de deter a sangria. A situação no Espírito Santo está pouco a pouco voltando à normalidade, mas as mulheres, que exigem também melhores condições de trabalho para seus maridos e aumento de salários, ainda não enterraram o machado da guerra. No Rio, acaba de começar.

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