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A cruzada das mulheres de PMs para forçar uma paralisação no Rio

Ao menos 27 de cerca de 50 batalhões registraram protestos que prometem seguir

Adesão, porém, foi menor do esperado pelos familiares dos PMs desde a terça-feira

Mulheres bloqueiam a entrada do batalhão de Belford Roxo, na Baixada.

Ana Beatriz Miranda, de 50 anos, é mãe de um policial militar e esta noite vai dormir numa cadeira de plástico vermelha na frente de um batalhão, em uma das regiões mais perigosas do Rio, na Baixada Fluminense. Ela e várias dezenas de mulheres – e mais alguns homens – começaram um movimento na madrugada desta sexta-feira inspiradas na mobilização de Espírito Santo, onde policiais militares são impedidos de patrulhar pelo próprios familiares há uma semana, com um saldo de mais de uma centena de mortos, saques, assaltos e o Exército nas ruas.

O objetivo das mulheres do Rio é pressionar o Governo de Luiz Fernando Pezão (PMDB), que enfrenta o caos financeiro, para que garanta o pagamento e condições mínimas de trabalho aos cerca de 47.000 policiais militares do Estado. Os agentes, impedidos de fazer greve pela Constituição, ainda não receberam o salário de janeiro, nem o décimo terceiro, nem as bonificações que lhes correspondem pelas metas de produtividade e as horas extras trabalhadas durante a Olimpíada, em agosto. Só neste ano, mais de 20 policiais foram mortos fora ou durante o serviço.

Em um aceno para aliviar a tensão, Pezão, que lida também com a greve da Polícia Civil deflagrada há duas semanas, garantiu na terça-feira pagar a folha de janeiro no próximo dia 14 com um reajuste prometido já em 2014. “Nós não desejamos chegar na situação do Espírito Santo. Realmente queremos negociar com o Governo melhoras para a categoria. A segurança perdeu totalmente o respeito da população”, lamentava Ana Lúzia, irmã de dois PMs, acampada no batalhão de Belford Roxo, na Baixada Fluminense.

Mobilizadas em dezenas de grupos de Whatsapp desde terça-feira, mulheres de todos os cantos do Estado do Rio, de 16,6 milhões de habitantes, começaram a aparecer na porta dos batalhões dos seus maridos, irmãos, avôs e pais munidas com cartazes, víveres e até barracas. A adesão, que não cumpriu as expectativas geradas durante três dias de troca incessante de mensagens, foi maior em alguns batalhões da Baixada Fluminense, no 18º batalhão de Jacarepaguá, no 6º batalhão de Tijuca, ou o 16º de Olaria, totalizando, segundo o comando da PM, 27 de quase 50 batalhões ocupados. “A gente vai continuar aqui até que for preciso. Estou cansada de ir a enterro”, promete Paula, esposa de um policial que ganha 3.000 brutos por mês.

Não foi em todos os batalhões que o bloqueio dos acessos das guarnições impediu a entrada e saída de viaturas, pois a cúpula da Secretária de Segurança, prevendo o movimento, traçou uma estratégia para driblar os bloqueios. Segundo o secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, nove de cada dez policiais conseguiu cumprir o serviço e manteve a "rotina de forma natural”. A reportagem, no entanto, percorreu das 4h30 da madrugada até às 20h da noite vários pontos sensíveis do Rio, como a Avenida Brasil, a Linha Amarela, a Linha Vermelha, a Rodoviária, ou o Sambódromo, e não viu viaturas circulando. Sá, que pediu paciência às famílias e reconheceu a legitimidade das cobranças, afirmou não descartar ajuda do Governo Federal no caso de o movimento se fortalecer.

Mulheres bloqueiam a saída da tropa da Coordenadoria de Polícia Pacificadora, no Complexo do Alemão.

As estratégias para que os policiais conseguissem trocar seus turnos e sair a patrulhar foram variadas e engenhosas e a jornada teve algumas cenas rocambolescas de mulheres perseguindo quem tentava fugir do bloqueio. Alguns batalhões se organizaram para abastecer e trocar o turno fora do recinto, em outros foram derrubados muros para permitir a saída dos agentes  e viu-se policiais sendo flagrados com duas escadas tentando escapar dos quartéis. Rose, uma mãe de policial com a energia de uma tropa, obrigava aos soldados da Coordenadoria de Polícia Pacificadora, no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, a agacharem a cabeça para cheirar seus cangotes. Com o teste, ela sabia quem estava com cheiro de banho e acabava de chegar para trabalhar ou quem já devia ir para casa e podia ser liberado. A maioria dos policiais, muitos presentes nos grupos de mensagens das mulheres, parabenizou, animou e agradeceu pela iniciativa das parentes.

Ainda não é possível dimensionar os efeitos que os protestos podem ter na rotina de violência do Estado, já complicada em circunstâncias normais. Em 2016, 6.248 pessoas morreram vítimas de letalidade violenta, que inclui homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e homicídio em confronto com a polícia. São mais de 17 pessoas por dia. Os delegados de Homicídios da Baixada Fluminense e da capital disseram ao EL PAÍS que este foi um dia “normal”, embora tenham sido noticiados arrastões e assaltos em outras partes do Estado que não podem ser associadas prematuramente ao movimento.

Para o coronel Ibis Pereira, ex-comandante da Policia Militar do Rio e historiador, os episódios no Espírito Santo e no Rio, não podem ser analisados isoladamente e são a antessala de uma grave crise de segurança no país, onde morrem mais de 60.000 pessoas por ano. “O que esta acontecendo é um efeito de um sistema de justiça que não responde aos desafios colocados pelos dramas sociais do Brasil. Eu não creio que a situação no Rio avance. Acho que conseguiremos administrar a situação, mas a questão é que se o Brasil não repensar suas instituições e sua justiça, nós teremos um grave problema na segurança”, afirma o coronel, que defende uma desmilitarização da polícia, mas também da sociedade, anestesiada com a violência. “O policial como militar não tem voz, tanto que tem que apelar para a esposa para se manifestar. Se ele não tiver dignidade, como ele vai cuidar da dignidade do outro?”.

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