Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Mulheres de PMs mantêm bloqueios e desafiam a segurança no Rio

Pelo terceiro dia, versão da PM aponta normalidade enquanto batalhões continuam bloqueados

Policial do Choque suplica às mulheres que lhe deixem sair, nesta sexta-feira. AFP

A tradicional homenagem dos militares à bandeira sob o som da corneta aconteceu neste domingo em plena rua em frente ao Batalhão do Choque, no Centro do Rio. Impedidos de entrar no recinto por um grupo de mulheres, cerca de 100 militares formaram filas às oito de manhã, homenagearam a bandeira mesmo sem toque de corneta e, empolgados, acabaram entoando o hino do Choque. "Hoje, uma parte de nós ia patrulhar as praias. Já deveríamos estar aí", disse um dos soldados ao meio dia, quando ainda cerca de 50 agentes permaneciam fora do quartel.

A cena foi parte do terceiro dia de protestos de familiares de policiais militares do Rio de Janeiro que, a exemplo do Espírito Santo, querem impedir o patrulhamento de filhos, maridos e irmãos nas ruas. O objetivo é pressionar o Governo de Luiz Fernando Pezão (PMDB) a manter em dia os salários e bonificações da corporação, atrasados pelos graves problemas de caixa do Estado. No sábado, houve uma reunião de mulheres com a cúpula da corporação, mas terminou sem acordo.

“Quando meu marido começou, dez anos atrás, os policiais eram respeitados. Mas hoje, como o marido vai olhar na cara da esposa sabendo que tem todas as contas atrasadas? Ele sempre arcou com tudo e agora já teve dia em que me pediu dinheiro para abastecer para poder ir ao trabalho. O mínimo de dignidade que ele deve ter é poder bancar a família, né?”, ilustra Camila, uma das mulheres acampadas no batalhão do Choque, onde há até uma cama elástica para as crianças que participam dos bloqueios junto às mães. O marido de Camila, do Grupamento Tático de Motociclistas, uma das companhias do Choque, foi responsável pela segurança das delegações estrangeiras durante a Olimpíada, em agosto, mas ainda não recebeu o pagamento pelo serviço.

Segundo a PM, a segurança no Estado não sofreu impacto nesses dias. De fato, a vida seguiu este domingo, entre latinhas de cerveja e fantasias, nas praias, nos parques e nos blocos pré-carnaval, embora haja, desde sexta-feira, concentrações de parentes em pelo menos 29 dos cerca de 50 batalhões do Rio e bloqueios nos acessos em pelo menos cinco deles. "A gente não vai desistir até o Governo aceitar nossas exigências. Hoje tem jogo e na terça tem um novo protesto na Assembleia Legislativa. Vamos ver o que acontece se o Choque não aparecer e a população der porrada nos deputados", alertou uma das esposas.

Parte dos homens que homenageou a bandeira na rua, armados e desarmados, mas vestidos de moletom e regata, ficaram horas parados na frente do batalhão até nova ordem. Outro grupo foi obrigado em seguida a caminhar, se amontoar nas caçambas das viaturas e chegar até o Comando de Operações Especiais, na Zona Norte do Rio, onde cerca de 20 mulheres tentaram bloquear sua entrada, dessa vez sem sucesso, em mais uma episódio do jogo de gato e rato com o qual os comandantes estão desafiando as manifestantes. Os agentes, no entanto, tiveram que pular um muro para chegar à guarnição. “Não conseguimos segurar, mas ninguém nunca imaginou que a tropa toda não conseguiria entrar hoje no batalhão. Eu estava me sentindo a major”, ironizava uma delas, com três dias de protesto nas costas.

Jogo tenso

O principal objetivo dessas mulheres neste domingo era abortar o jogo do Flamengo e o Botafogo, no estádio do Engenhão, evento para 24.000 pessoas que requer a presença, entre outros, dos homens do Choque e do Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (GEPE), ambos com presença de mulheres nos seus batalhões. Não conseguiram. O clássico, considerado normalmente de risco, não foi cancelado, mas houve correria, tiros, caos e confusão entre torcidas uma hora antes da partida, programada para às 19h30. Um homem de 28 anos morreu baleado e outros sete ficaram feridos.

O vice-executivo do Botafogo, Luiz Fernando Santos, inconformado com o que ele considerou falta de policiamento, chegou a se manifestar à Rádio Globo a favor de adiar o jogo para garantir a segurança dos torcedores: “Não preocupa o Botafogo não haver data para a realização do jogo [...], nossa preocupação é exclusivamente a segurança das pessoas. Segurança, essa, que nós não temos condições de garantir”. O presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, no entanto, disse à Sport TV ter “confiança plena” em que o jogo iria acontecer sem problema nenhum.

Marcelo Vianna, diretor de competições da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, afirmou também à Sport TV que o efetivo de policiais dentro e fora do recinto era o habitual. O EL PAÍS, no entanto, ouviu um agente do GEPE na porta do estádio que afirmou que eram um efetivo reduzido e um policial militar lamentava estar já trabalhando 26 horas (duas horas a mais da escala que o correspondia), ainda esperando que os colegas o substituíssem no entorno do Engenhão. Mais dois PM’s, cujas famílias sequer participam da mobilização, disseram à reportagem que o número de fardados era menor do habitual em jogos como esse.

Fora a maior visibilidade que o jogo pode ter dado ao movimento, o cansaço começa a minar o ânimo de algumas esposas que levam até 24 horas sem dormir. Elas recebem donativos da população, inclusive banheiros químicos e comida, mas reclamam da falta de mobilização de muitas outras mulheres que acompanham os protestos do sofá de casa. “Se tivesse tanta disposição para vir aqui como tem para falar no Whatsapp, estaria tudo feito”, lamentava uma. "Estou me sentido numa guerra. Como e bebo quando dá e aqui na bolsa levo tudo: absorvente, muda de roupa, calcinhas, remédio, kit de unha", relatava Luiza*, mulher de agente do Choque e uma das mais organizadas do grupo responsável por anotar escalas e doações. Elas preferem não revelar o nome por medo de represálias, mais uma das suas preocupações.

Com o quarto menor salário base das polícias militares do Brasil (2.935 reais, segundo levantamento do G1), a PM do Rio, junto aos bombeiros, agentes penitenciários e policiais civis, suspendeu suas atividades por quatro dias exatamente cinco anos atrás. Os PM’s, que ficaram aquartelados, reivindicavam o aumento do piso salarial para 3.500 reais. A greve saldou-se, segundo noticiou o portal UOL na época, com a expulsão de 12 policiais e o afastamento de 51 agentes do Bope que teriam se negado a reprimir a paralisação dos colegas.

*Os nomes foram trocados para proteger as entrevistadas.