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ANÁLISE

Em um mês, o ‘não-político’ Doria foca em comunicação e zeladoria

Novo prefeito de São Paulo investe em uma super-exposição de suas ações e em atividades que produzem resultados rápidos

Doria participa de mutirão de reforma de calçadas.
Doria participa de mutirão de reforma de calçadas. Secom

Nos primeiros 31 dias da nova gestão municipal de São Paulo, uma varrição de rua não foi mais apenas uma varrição de rua. Nem a pintura de um muro. Ou a reforma de uma simples calçada. João Doria promoveu atividades corriqueiras de zeladoria da cidade que se tornaram quase um espetáculo, transmitidas pela imprensa intensamente e alardeadas em vídeos na própria página de Facebook do prefeito, que conta com quase 1,5 milhão de seguidores. A cada atividade nova, uma roupa apropriada para a ocasião, captada pelas lentes de fotógrafos e cinegrafistas: o prefeito já se vestiu de gari, pintor, operário e até usou uma cadeira de rodas para testar o quanto sofrem os cadeirantes nas esburacadas ruas da cidade. A troca de roupas se tornou tão característica que um bloco carnavalesco foi criado como sátira: o Bloco Vou de Dória, que sai em 10 de fevereiro.

Brincadeiras - ou críticas de populismo à parte - João Doria deixou claro que não pretende cometer os erros de seu antecessor, Fernando Haddad (PT), no que diz respeito a sua comunicação. Enquanto o petista resistia a expor em propagandas o que sua gestão fazia pela cidade, pois acreditava que o trabalho se mostraria sozinho quando pronto, o tucano, versado na popular televisão, parece saber que, em se tratando de uma cidade complexa e problemática como São Paulo, a população precisa ter claro o que está sendo feito, ou não dará crédito para o gestor. E que se as coisas boas não aparecem, as ruins se sobrepõem. Em meio à troca de uniformes feita por ele no último mês, quem deu atenção ao fato de que o Jardim Pantanal, bairro castigado na zona leste da cidade, está, mais uma vez, alagado? E isso já faz duas semanas, contou a Folha de S.Paulo.

Doria também percorre passos distintos de seu antecessor petista ao mostrar o que pretende priorizar neste momento. Enquanto Haddad preferia pensar em um planejamento a longo prazo para a cidade, com resultados aparentes também de longo prazo, como um Plano Diretor celebrado por urbanistas contendo diretrizes para 20 anos, o tucano já percebeu que é popular aquele que mostra resultados imediatos e de fácil compreensão. E a chave deste negócio, especialmente em um período de crise financeira, é investir em zeladoria, algo rápido e barato. A tática foi usada também pelo ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) quando recebeu a Prefeitura das mãos de José Serra, em 2006, que deixou o cargo para disputar o Governo do Estado. Com pouco mais de dois anos para mostrar serviço antes da próxima eleição, Kassab criou a Lei Cidade Limpa, que baniu os anúncios nas ruas, e caprichou na pintura e na jardinagem. Conseguiu um novo mandato.

Doria, por sua vez, criou o Cidade Linda, que inclui os mutirões de calçada e as pinturas de muros. No meio do caminho, comprou briga com pichadores e grafiteiros, ao cobrir suas obras - uma polêmica que afeta muito mais sua imagem entre os eleitores de Fernando Haddad, que já não eram simpáticos ao novo prefeito, do que entre seus próprios correligionários, que, em média, são mais conservadores e defendem que pichação é vandalismo e que grafite tem que ser autorizado. Apesar de infrutífera (já que as pichações vão continuar acontecendo), a briga não deve trazer maiores dores de cabeça ao tucano em termos de popularidade. Com uma agenda frenética, que inclui, inclusive, atividades aos sábados e domingos, e parcerias com entidades privadas, que aceleram as ações que pela Prefeitura são burocráticas, Doria procura garantir a imagem de "João Trabalhador", que cunhou na campanha. Neste um mês, mostrou, portanto, que pela cartilha de político, esse empresário sabe rezar.

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