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Doria enfrenta seu primeiro desafio na saúde: acabar com a fila dos exames

Novo prefeito de São Paulo amplia parceria com hospitais privados para realizar mutirão e atacar a espera por 485.300 exames. Para especialista, é preciso investir na estrutura

Doria enfrenta seu primeiro desafio na saúde: acabar com a fila dos exames

Já passavam das 20h da última terça-feira quando o prefeito recém-eleito de São Paulo, João Doria, chegava ao andar dedicado às tomografias do hospital HCor, no Jardim Paulista, bairro de classe alta da zona oeste da capital. Falou com a imprensa e, em seguida, circulou pelos corredores para encontrar três dos beneficiados pelo programa que lançava naquela noite: o Corujão da Saúde. "Estão sendo bem atendidos?", perguntou Doria. Eles assinalaram com a cabeça enquanto disparavam, apressados, um "sim".

A iniciativa, alardeada durante a campanha das eleições municipais do ano passado, é uma espécie de mutirão temporário de exames que custará à gestão 17 milhões de reais e será feito em parceria com entidades de saúde privadas. Tem a ambiciosa missão de, em 90 dias, acabar com a longa espera de pacientes por um exame médico. Segundo a prefeitura, 485.300 pedidos aguardam, atualmente, por vagas para a realização de ultrassonografias, tomografias, mamografias, entre outros exames - 40% deles, há mais de seis meses.

O porteiro noturno Adeíldo Gomes, de 50 anos, chegara lá de ônibus, numa viagem de 45 minutos a partir do extremo oeste da cidade. Desde agosto esperava para realizar uma tomografia de face, pedida pelo médico do posto de saúde que procurou por não conseguir sentir mais o cheiro das coisas. Perto dele, a faxineira Graça Queiroz da Silva, de 48 anos, mal acreditava na sorte que tinha tido: passou no médico há apenas uma semana com uma forte dor de cabeça e acabou incluída no mutirão; na verdade, não deveria, já que ele vale apenas para pacientes que esperam há mais de um mês, mas foi contemplada porque, no sistema, constava que ela esperava há quatro meses por um exame, só que outro: um ultrassom da tireoide, ainda não marcado até aquele momento.

A iniciativa, que envolverá neste primeiro momento oito hospitais privados de São Paulo, que já eram parceiros da Prefeitura nas gestões anteriores, procura resolver um dos principais gargalos da saúde do município, área de maior reclamação do cidadão e que ajudou a minar a reeleição do ex-prefeito Fernando Haddad, muito criticado na periferia pela longa espera enfrentada na rede pública. A fila da espera da saúde, escondida em gestões anteriores, foi revelada pela primeira vez no início da gestão Haddad e, no decorrer de seu Governo, aumentou muito em número, apesar de o tempo médio de espera ter sido reduzido, no caso dos exames, de três para seis meses, segundo dados daquela gestão. Para o ex-prefeito, isso demonstrava que houve um aumento do número de serviços disponíveis para a realização de exames.

Aos jornalistas, o secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara, até poucos dias secretário-adjunto da Saúde do Governo do Estado, afirmava no HCor: "Em tese, neste momento, já não há mais uma fila de exames na cidade. Pacientes que esperam há mais de seis meses foram retirados automaticamente da espera para serem reavaliados por médicos e se verificar se ainda necessitam do exame. Os demais entrarão neste regime especial do mutirão. E, com isso, todos os pedidos que forem surgindo, a partir de agora, entrarão num fluxo zerado da rede e não devem demorar mais de um mês para serem feitos, afirmava ele.

Ainda que, de fato, a fila de exames consiga ser controlada, Doria ainda terá um grande desafio pela frente: manter esse número controlado e conseguir dar prosseguimento na resolução do problema de saúde desses pacientes. Dados repassados antes da eleição pela gestão Haddad mostravam que, em julho de 2016, a gestão tinha acumulado 251.649 pedidos de consultas com especialistas -aqueles que deverão analisar os exames desses pacientes. Uma pessoas esperava, em média, cinco meses por uma consulta -os dados atualizados, pedidos na última sexta, não foram repassados pela gestão Doria.

A falta de celeridade na avaliação dos exames pode acabar por torná-los pouco úteis, já que muitas doenças podem se modificar em poucos meses. "Meu filho está cheio de verrugas pelo corpo. Há dois meses que ele espera para passar com um especialista para descobrir o que é", contava a faxineira Graça, mostrando, na prática, como o problema é complexo. Pollara afirma que haverá um convênio com a Santa Casa de São Paulo para disponibilizar mais especialistas, mas não passou detalhes desta parceria.

Melhorar o sistema 

Para o professor do Departamento de Medicina Preventiva da USP, Mário Scheffer, autor do estudo anual Demografia Médica no Brasil, mutirões como o proposto por Doria não são novidade no Sistema Único de Saúde e acabam apenas "enxugando gelo". Para ele, o esforço concentrado não tem efeito enquanto não se resolverem os problemas estruturais da rede. "A atenção primária [porta de entrada do usuário do SUS no sistema] expandiu muito nos últimos anos, mas não em quantidade suficiente. Ela ainda resolve pouco", diz ele, afirmando que é preciso ampliar o Programa de Saúde da Família, com médicos que visitam os pacientes em casa, e as Unidades Básicas de Saúde, que fazem o primeiro atendimento ao usuário (em casos não graves, já que estes são atendidos em prontos-socorros). "A má qualidade nesse primeiro atendimento gera esse número grande de pedidos de consultas com especialistas e exames", afirma ele, já que problemas simples, quando detectados cedo, podem não se agravar e isso evita intervenções mais específicas.

Ele também ressalta que a Prefeitura precisará pensar em formas mais atraentes para conseguir médicos para o trabalho na rede pública. São Paulo tem uma taxa de médicos por habitante comparável a de países de primeiro mundo (4,6 por 1.000 habitantes). Entretanto, há um déficit de 1.500 profissionais na rede pública municipal, especialmente entre os especialistas. Na última Demografia Médica, lançada no final do ano passado, detectou-se que 60% dos 57.800 médicos da capital têm título de especialização. Eles, entretanto, são escassos no sistema público. "Houve uma precarização muito grande do trabalho ao longo do tempo. Os concursos pagavam muito pouco", explica ele, que sinaliza que a estabilidade no cargo pode atrair mais médicos se os salários forem melhores.

Para Sidney Klajner, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, parceiro na iniciativa, é preciso também atacar um mal que assola médicos tanto das redes públicas quanto da privada: o pedido em excesso de exames. "A maioria dos médicos não tem entendimento do que é custo em gestão de saúde. O que existe é um desperdício muito grande de recursos. É preciso passar a investir mais em qualidade de vida, saúde. E fazer apenas exames que o paciente realmente necessita", ressalta.

Corujão reforça parceria com entidades já ligadas ao SUS

Na primeira etapa de credenciamento, o Corujão da Saúde reforçou a parceria da Prefeitura de São Paulo com entidades que já atuavam na saúde municipal desde gestões passadas. Serão oito hospitais, que vão ofertar, principalmente, exames de tomografia, ressonância e mamografia. O custo total previsto pela gestão Doria até o fim do projeto, que durará 90 dias, é de 17 milhões de reais. 

Algumas instituições, entretanto,  não devem receber nada a mais pelos exames. São instituições de excelência enquadradas no Programa de Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi), um projeto do Governo federal que prevê isenções fiscais para instituições de saúde que desenvolvem trabalhos no SUS (podem ser desde atendimento ao usuário até suporte de pesquisa). A maior parte desses impostos que deixam de ser pagos, devido ao Proadi, é federal. Esse é o caso do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que ofertará para o programa de Doria 330 ressonâncias magnéticas, 4.800 tomografias e 2.400 ultrassonografias mamárias. Ana Paula Pinho, gerente de sustentabilidade do hospital, explica que desde 2008, 30% da isenção fiscal do Proadi vai para a Prefeitura. Os exames foram incluídos no escopo de atividades do programa federal. "A gente não receberá a mais por isso", diz ela. 

Fernando Torelly, diretor-executivo do Hospital Sírio Libanês, explica que o hospital já realiza 3.000 ultrassonografias por mês para o SUS e, durante os três meses do Corujão da Saúde, esse número aumentará para 5.240. O hospital também fará os atendimentos por meio do Proadi. "Tínhamos ainda recursos em negociação para serem aplicados em projetos. A Prefeitura não nos remunerará, será a isenção dos impostos federais", explica.

O Albert Einstein também entra no Corujão ofertando exames pelo Proadi, mas apenas uma parte deles. Outra parte será por um contrato direto com a Prefeitura. A partir desta segunda-feira, o hospital começa a realizar 270 exames como ressonância e tomografias computadorizadas no hospital municipal Vila Santa Catarina, já administrado pela entidade. Mais 1.800 ressonâncias, raio-X e tomografias serão ofertadas nos próximos três meses em outras unidades próprias do hospital privado, além de 15.000 exames laboratoriais, afirma o presidente Sidney Klajner. Pelos exames que não serão feitos pelo Proadi (a maioria), o Einstein receberá os valores da defasada tabela SUS, afirma a Prefeitura.

Já o hospital Santa Marcelina, que já é parceiro da Prefeitura desde gestões anteriores, participa do Corujão por meio de uma parceria que firmará com o Governo do Estado, em um hospital da rede que administra. Serão 80 tomografias a mais por mês. O hospital Sepaco também ofertará 1.600 exames de ressonância magnética a mais por mês. Participam ainda desta primeira etapa HCor, hospital Edmundo Vasconcelos e Santa Casa de Santo Amaro, segundo a Prefeitura. Outros hospitais estão sendo credenciados.

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