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“Aguardei mais de 15 horas em um corredor para ser internada”

Maria das Neves Costa já passou noites acordada em filas, esperou cinco anos por um nefrologista e viu o marido morrer após aguardar quatro anos por uma consulta

Maria, 70 anos, e Iolanda, 34, na casa da família em Guaianases.
Maria, 70 anos, e Iolanda, 34, na casa da família em Guaianases.

Maria das Neves Costa, de 70 anos, se move em passos lentos até o sofá de sua casa no bairro de Guaianases, extremo leste da capital paulista. Diabética e com pouca visão, ela carrega desde criança uma ampla barriga d’água, sintoma da esquistossomose, uma doença causada por um parasita que aparece especialmente em áreas pobres.

Já sentada, ela começa a elencar sem dificuldade a série de problemas que enfrentou com a saúde pública brasileira. Só nos últimos anos, ela esperou 15 horas por uma internação acomodada em uma cadeira de rodas no corredor de um hospital; foi amarrada em uma maca num setor de internação superlotado e com poucos profissionais para evitar que não caísse da cama; esperou cinco anos para conseguir uma consulta com um nefrologista, mesmo após uma médica suspeitar de uma insuficiência renal crônica; e passou noites acordada em filas dentro de unidades de saúde para conseguir agendar consultas pela manhã.

“A coisa mais triste que existe é chegar em um pronto-socorro, com a sua mãe que está muito mal, e ficar horas e horas esperando. Você se sente impotente”, desabafa a filha Iolanda, de 34 anos, um dia depois de ter passado na emergência de um hospital público com a mãe. Ela, também diabética, já têm sua coleção própria de histórias tristes para contar: aguarda desde janeiro uma consulta com uma nutricionista, marcada pelo posto para o próximo mês de outubro, consequência da enorme quantidade de pedidos médicos que esperam na fila - 653.000, segundo dados da prefeitura.

A mesma demora para conseguir um médico pode ter contribuído para a morte do pai dela no ano passado. Em 2005, em um exame de rotina pedido pelo clínico geral do posto de saúde, ele descobriu alterações nos níveis de uma substância produzida pela próstata, o que poderia indicar a existência de um câncer. Ele tentou marcar uma consulta com o urologista, entrou na fila de espera do posto, mas só foi chamado quatro anos depois. Quando refez o exame, os níveis da substância tinham quadruplicado. Ele já tinha um tumor na próstata e metástase nos ossos. O tratamento não fez efeito e ele morreu três anos depois.

A família de dona Maria é usuária do SUS, o maior sistema de saúde pública do mundo, disponível para todos os mais de 200 milhões de brasileiros. Criado pela Constituição de 1988, ele sofre as mazelas da falta de financiamento, na opinião de estudiosos da área. Atualmente, o país gasta pouco mais de 7% de suas Receitas Correntes Brutas com o sistema, um total de 93 bilhões de reais em 2013. Para o Movimento Saúde Mais Dez, que reúne mais de cem entidades do setor, seria necessário elevar esse valor para 10%, um acréscimo de 40 bilhões de reais. “O SUS é um sistema de saúde universal, que faz o maior número de transplantes do mundo, por um custo de 2,60 reais por habitante. Que plano de saúde privado oferece uma cobertura como essa por menos de 70 reais ao mês? O que se faz com os recursos é um milagre”, afirma Ronald dos Santos, coordenador nacional do movimento.

Dona Maria concorda que, apesar dos problemas, o sistema tem muitas vantagens. Ela, por exemplo, não paga por nenhum dos sete medicamentos que toma diariamente. Tudo é entregue gratuitamente no posto de saúde. “Já foi pior. Antes, a periferia não tinha nada”, lembra ela, ao contar que tinha que levar os filhos pequenos até um bairro vizinho, distante 12 quilômetros, para conseguir atendimento médico.

No entanto, apesar dos avanços, para a maioria dos cidadãos a área ainda é considerada a pior do país, liderança que mantém desde 2008 em inúmeras pesquisas de opinião. A percepção também é contaminada pela má qualidade da saúde privada. Duas pesquisas recentes do Instituto Datafolha apontam que a avaliação da área é pior entre os usuários de plano de saúde. Aqueles que pagam por atendimento particular, a um custo médio de 200 reais por mês, também não estão isentos de sofrer longas esperas por atendimento. As operadoras de saúde têm atualmente 50,9 milhões de beneficiários, um crescimento de 16% nos últimos quatro anos que não foi acompanhado pela ampliação da rede.

A família de dona Maria também foi vítima do descaso na saúde privada. Um de seus sete filhos, que possuía um convênio médico da empresa em que trabalhava, caiu quando jogava bola com amigos do bairro. Com o fêmur fraturado, foi levado a um hospital do plano de saúde. Morreu no começo de 2013, depois de esperar quatro dias por uma vaga para realizar uma cirurgia emergencial.

O que os candidatos prometem?

PT

O programa da candidata Dilma Rousseff para área de saúde não traz propostas concretas e se concentra no que já foi feito pelos três governos petistas anteriores. Afirma apenas que haverá a expansão do Programa Mais Médicos, a ampliação das Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), a expansão das redes de atendimento especializado, o fortalecimento do SAMU e ampliação do acesso da população a medicamentos

PSB

Marina Silva apoia em seu programa a proposta do Movimento Saúde Mais Dez, de elevar os gastos da União para os 10% da Receita Corrente Bruta ao longo de quatro anos. Essa elevação está prevista em um projeto de Lei de iniciativa popular que tramita no Congresso. Ela promete ainda na construção de 100 hospitais regionais, 50 maternidades e na universalização do Programa de Saúde da Família, entre outros pontos.

PSDB

O tucano Aécio Neves também apoia o aumento dos gastos para 10%. Diz que pretende revisar a tabela do SUS, que segundo as entidades de saúde está defasada. Ele pretende criar 500 clínicas de especialidades, além de um programa de consultórios populares, que prevê estimular médicos especialistas a abrirem consultórios em áreas carentes para atender o SUS. Fala ainda em melhorias no Mais Médicos.

PSOL

O programa de Luciana Genro também engloba a proposta de aumentar para 10% os gastos com a saúde. Fala em aumentar a proporção dos gastos públicos em relação ao privado para que três quartos dos gastos nacionais em saúde sejam destinados ao SUS ao fim de quatro anos. Prevê a regulação dos planos de saúde com política de controle de tarifas. E ampliar as equipes de Saúde da Família para cobrir 80% da população em 4 anos.

PV

Eduardo Jorge prevê, caso eleito, apoiar o projeto de lei que destina 10% da Receita Corrente da União para a saúde. Também pretende criar uma carreira nacional para profissionais que atuam na atenção básica. Além de priorizar a formação de médicos especialistas em saúde da família, além de outra série de propostas previstas em seu longo programa.