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A mãe do goleiro Danilo reconfortou os jornalistas na Arena Condá

Ilaídes Padilha falou de sua dor e inverteu papéis ao perguntar a um repórter como vivia a perda de colegas

Mãe goleiro Danilo
Guido Nunes e a mãe do goleiro Danilo.
Chapecó / São Paulo

Ilaídes Padilha, mãe do goleiro Danilo, chegou na quinta-feira em Chapecó para o velório coletivo que será realizado neste sábado. Em princípio, não queria deixar Cianorte, no Paraná, e viajar até a cidade da Chapecoense. Muitos menos que o seu filho fosse velado com o resto do time. "Não queria, chega desse negocio de avião, de viajar. E se o avião com ele cai de novo?", chegou a questionar. Mas ficou sensibilizada com amor da torcida aos jogadores, especialmente ao seu filho. “Chapecó está de parabéns. Abraçou o Danilo quando ele chegou e não largou mais”. Nesta sexta-feira, na Arena Condá, o estádio do time, furou a proteção de psicólogos e foi entrevistada pelos jornalistas, a quem acabaria fazendo questionamentos também. Perguntou ao repórter Guido Nunes, do SporTV:

– Como vocês, da imprensa, estão se sentindo tendo perdido tantos amigos queridos lá? Pode me responder?

– Não... (balançando a cabeça)

– Não, né? Posso te dar um abraço, em nome da imprensa? Para todos da imprensa, que perderam seus amigos, aqueles pessoas que estavam lá levando alegria, levando notícias, não só do meu filho.

Os dois terminaram a entrevista abraçados e chorando. Foi o ponto de maior comoção de uma tarde na Arena Condá em que Ilaídes falou sobre sua dor e lembranças do goleiro Danilo. Disse que preferia responder a todas as perguntas – algumas incômodas – da imprensa porque, de alguma forma, se sentia reconfortada. Não queria ficar sozinha pensando no pior. “Se paro de falar com vocês, desmonto. Não vou com os outros familiares porque estão lá chorando. Não tenho mais lágrimas. Já secou tudo”. No final de cada entrevista, acabava ela também amparando os jornalistas com sua fala doce e distribuindo abraços. Muitos deles também perderam amigos e colegas de profissão no acidente de avião, que acabou com a vida de 71 pessoas na madrugada de terça-feira, entre eles 20 jornalistas. Não foram poucos os que terminaram em lágrimas.

Ilaídes contou que não faltou quem a recomendasse não conceder mais entrevistas, ou a orientasse a proibir "os paparazzis" de fazer guarda diante da sua casa em Cianorte. Mas ela, que já tinha comovido o jornalista ao inverter os papéis e renovar o sentido da mais clichê e criticada das perguntas de tragédia – "como vocês estão se sentindo?" –,  mostrou, de novo, sua visão generosa sobre a imprensa: “Lá em casa demos um apelido a vocês: os cornetas. Mas foram os cornetas quem fizeram do meu filho um ídolo. Então não poderia deixar de dar uma entrevista.”

Defesa do goleiro Danilo narrada por Deva Pascovicci, na semifinal da Sul-Americana.

Os últimos dias foram de informações desencontradas e muita angústia para Ilaídes e sua família. Danilo chegou a ser resgatado com vida do local, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. Na manhã do acidente, seus parentes chegaram a receber uma ligação que informava que Danilo estava bem. Mas, com o passar das horas, as notícias que falavam de sua morte, para logo depois desmenti-la, deixaram a situação confusa. “Foi maldade, muita maldade o que fizeram. Acho que sou a mãe que mais sofreu”, contou Ilaídes nesta sexta. Em outro momento, relatou estar vivendo um pesadelo. “Ainda acho que ele vai voltar da Colômbia com o título”.

Índio Condá

Danilo vivia dias especialmente festivos antes da tragédia. Na semana anterior, o goleiro havia sido decisivo na conquista da vaga da Chapecoense na final da Copa Sul-Americana. Na narração da FOX Sports, feita por Deva Pascovicci – que também morreria dias depois com a queda do avião –, o goleiro Danilo virou o índio Condá, personagem histórico da cidade de Chapecó que dá nome ao estádio da Chapecoense. Uma bola cruzada na entrada da pequena área caiu nos pés do número nove do time adversário, o argentino San Lorenzo, que girou para arrematar. Numa fração de segundos, Danilo evitou o gol com uma leve esticada do pé direito. O narrador explodiu: “Danilo, Danilo, Danilo! Foi o Condá! Foi o espírito do Condá que salvou essa aí!”.

“Aquilo é de arrepiar, né?”, diz Ilaídes,  sobre o momento. Ao ser então perguntada sobre como ela via toda a mobilização em torno de seu filho e o movimento para elegê-lo craque do campeonato brasileiro, lamentou: “Eu queria que ele estivesse vivo. Que essa homenagem fosse feita com ele debaixo das traves. Já imaginou se ele estivesse aqui, com todo mundo gritando o nome dele, elegendo ele o craque do ano? Queria que ele visse isso”.

Marcos Danilo Padilha, 34 anos, iniciou sua carreira no time de sua terra natal, o Cianorte, no Paraná. Fez carreira em outros clubes da região até chegar ao Londrina, onde teve mais destaque entre os anos 2011 e 2013, quando foi contratado pelo Chapecoense. 2013 foi um ano simbólico para o clube de Santa Catarina. É o ano da subida à série B do Campeonato Brasileiro, época em que o clube iniciou sua ascensão definitiva à elite do futebol nacional. "Ele vivia para o futebol, desde pequeno. Era muito dedicado, um batalhador. Sempre me perguntava por que eu não tinha feito ele mais alto para que ele pudesse chegar na seleção. E eu dizia: 'se você batalhar muito, vai chegar na seleção, mesmo sendo mais baixo", conta Ilaídes.

Para Danilo, que viu tudo a partir das traves do gol, os três anos de consolidação da Chapecoense também significaram o melhor momento de sua carreira. Entre 2014 e 2015, chegou a ter sua contratação negociada para o Corinthians, mas ficou no Chapecó, onde virou ídolo e, agora, parte definitiva do espírito do estádio onde um dia se transformou no próprio índio Condá. “Ele já não é só meu filho. É meu anjo, meu ídolo, meu herói. E sua família agora é essa torcida da Chapecoense. Queria poder abraçar cada um deles", diz Ilaídes. "Ele deixou para mim um neto, o Lorenzo, que é a xérox dele. É de onde tiro a minha força".

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