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O lado obscuro dos celulares baratos chineses

Por trás da aparente pechincha se escondem marcas que oferecem terminais de baixa qualidade, serviço ínfimo e até fraude nas especificações

Site do Aliexpress em que aparecem alguns modelos duvidosos. Ampliar foto
Site do Aliexpress em que aparecem alguns modelos duvidosos.

As marcas chinesas de celulares conseguiram entrar no mercado ocidental graças a sua magnífica relação qualidade / preço. Empresas como Huawei, Xiaomi, Meizu e OnePlus oferecem aparelhos de primeira linha pela metade do que custam seus equivalentes com os logotipos da Apple ou da Samsung. Mas também há uma constelação de companhias que se valem do desconhecimento dos usuários para vender smartphones cuja qualidade deixa muito a desejar. Basta procurar por "celulares chineses" em uma plataforma como Aliexpress para se deparar com nomes completamente desconhecidos: Amigoo, Doogee, Bylynd, Ulefone, Umi e mais uma infinidade de marcas de que nem mesmo os chineses ouviram falar.

E é fácil morder a isca. Na tela do computador desfilam modelos de design razoavelmente atraente, especificações avançadas e, sobretudo, preços imbatíveis. Um exemplo aleatório é o Oukitel K6000, vendido por pouco mais de 450 reais apesar de contar com 3GB de memória RAM, tela FHD de 5,5 polegadas, uma câmera de 13 megapixels, sensor de impressões digitais, e uma bateria de nada menos que 6.000 mAh. Tudo isso envolto por um bonito corpo metálico. Tendo em conta que a Meizu vende por 824 reais seu equivalente – o M3Note, um grande telefone –, sem dúvida parece uma pechincha.

É fácil morder a isca. Na tela do computador desfilam modelos de design razoavelmente atraente, especificações avançadas e, sobretudo, preços imbatíveis

Mas vale a pena ler as letras miúdas. Em primeiro lugar, deixa-se bem claro que os impostos e taxas obrigatórias não estão incluídos no preço, algo que pode aumentar significativamente tanto a fatura do aparelho como o prazo de entrega. Ao final, pode sair até mais caro que o Meizu. Esse é o primeiro susto a que se expõe o usuário, algo habitual nas lojas especializadas que distribuem marcas sem presença oficial no país. O vendedor do Oukitel promete declarar um valor mais baixo do telefone para reduzir os encargos alfandegários, algo que pode fazer o consumidor economizar algum dinheiro, mas é uma prática ilegal.

Depois surpreende a política de devoluções: “São aceitas se o produto for muito distinto de sua descrição. O comprador pode devolver o produto (arcando com as despesas de envio de volta) ou ficar com ele e combinar com o vendedor a devolução do dinheiro”. E, de fato, isso gera inúmeras queixas. Além de ser muito subjetivo o que se entende por "muito diferente de sua descrição", o reembolso só acontecerá se o cliente arcar com as despesas de envio. Para a China, claro.

Como explica a própria Meizu em seu site, a importação paralela ainda pode se revelar desvantajosa por vários outros motivos. Por um lado, o produto pode não estar homologado e apresentar diferentes incompatibilidades com o país de destino, desde o plugue até as bandas de frequência. Por outro lado, a maioria dos sistemas operacionais geralmente não inclui o português ou o espanhol nas opções de idiomas, ou apenas em traduções muito básicas. Também não costumam receber atualizações – a maioria dos dispositivos baratos ficou no Android 5 –, com o que isso representa de perigo, além de poderem incluir aplicativos não desejados e até publicidade ou programas espiões.

O extinto 100+ foi apresentado como o celular com que a Digione enfrentaria a Xiaomi em 2013. ZA ampliar foto
O extinto 100+ foi apresentado como o celular com que a Digione enfrentaria a Xiaomi em 2013. ZA

Mas isso é o de menos, porque, como aponta ao EL PAÍS o presidente da Vernee, Zou Zhihua, “há muitas empresas que até mentem em suas especificações e utilizam componentes que não são o que dizem ser”. O mais fácil de detectar é a memória. Este jornal testou alguns modelos vendidos com armazenamento interno teórico de 32 GB e constatou que têm, na realidade 8. O mesmo acontece com os processadores, que em sua maioria são Mediatek de qualidade inferior que se fazem passar por outros mais potentes. Mais difícil é comprovar se os sensores da câmara, ou componentes como o Bluetooth e o GPS são os divulgados.

Um jovem espanhol que trabalhou em uma das marcas listadas no começo desta reportagem reconhece essas práticas. “De fato, decidi sair quando descobri como funcionam. Em geral, os funcionários chineses eram gente com muito pouca experiência e as coisas saíam francamente ruins”, comenta. “São marcas que só comercializam através de intermediários, que têm qualidade muito baixa e que só buscam volume de vendas. Muitas mentem sobre componentes como a bateria, o processador, ou a câmera.” Também não dá para confiar nos seus termos de garantia. “Nunca devolvem o dinheiro ou consertam o celular. Ficam passando a bola entre o fabricante e o vendedor e fazem o usuário contatar ora um, ora outro para nada”. O espanhol, que agora trabalha em uma empresa estatal, deixa claro: “No final, não compensa o preço”.

O produto pode não estar homologado e apresentar diferentes incompatibilidades com o país de destino, desde o plugue até as bandas de frequência

“A indústria do ‘shanzhai’ – como são conhecidas na China as imitações de aparelhos eletrônicos – teve que se reinventar depois do surgimento de marcas como a Xiaomi, que representam uma ruptura no mercado. Oferecem bons aparelhos a pessoas que querem gastar pouco”, analisa um funcionário de uma das mais importantes lojas ‘online’, que pede para manter o anonimato. “As pessoas não querem mais ter uma cópia do último iPhone para ostentar, agora preferem comprar o original ou encontrar uma barganha que raramente existe. Se Xiaomi ou Meizu estão vendendo mais caro, é porque não é possível fazer mais barato com uma qualidade decente. No entanto, muitas empresas que antes se dedicavam a fabricar imitações agora viram na crise econômica global uma oportunidade de sair para o mundo. Mas seus produtos não são bons”, admite o funcionário.

Um bom exemplo dessa tática pode ser o Haweel H1Pro, vendido no Aliexpress por apenas 64,50 euros e cujo nome tem uma pronúncia estranhamente parecida com o Huawei, uma técnica muito antiga e disseminada entre os fabricantes menos honestos. Neste caso, possui 1 GB de cor RAM, uma escassa bateria de 2.000 mAh, e um chip Mediatek de segunda linha que só é identificado na página de características técnicas. Surpreende também a discrepância em elementos como a resolução da tela: enquanto nas imagens publicitárias se afirma que é HD – 1280x720 pixels –, a ficha técnica anuncia uma qualidade inferior – 854x480 –. E apesar de uma das fotografias garantir que funciona em redes 4G, logo se vê que, na realidade, o aparelho só se conecta às 3G. O curioso é que sete de nove comentários lhe dão cinco estrelas. “Muitos são falsos”, reconhece o funcionário da loja online chinesa.

Diversas marcas de boa reputação afirmam que se trata de uma estratégia desesperada que prejudica a imagem da China e só dá resultados no curto prazo

Em todo caso, como afirmam diferentes marcas de boa reputação, essa é uma estratégia desesperada que prejudica a imagem da China e só dá resultados no curto prazo. Não por acaso, apesar do ‘boom’ que vive o setor de telefonia celular no gigante asiático, cujas marcas já figuram no top 10 mundial, muitas pequenas empresas que sobreviveram graças a imitações mais ou menos descaradas estão morrendo rapidamente. Segundo Peng Zheng, engenheiro sênior da Academia Chinesa de Pesquisa em Telecomunicações, um terço fechou as portas entre janeiro de 2014 e dezembro do ano passado.

Algumas, como Dakele, uma das primeiras a copiar o iPhone, são representativas do fim de uma era. Mas outras, como a Digione, a que este jornal dedicou uma reportagem há três anos depois do investimento multimilionário do Baidu – o Google chinês –, surpreenderam. Por seu fechamento e por como o fizeram, ganhando um julgamento em que acusavam a Apple de plágio no iPhone 6. Mas, apesar de todos esses fechamentos, ainda restam nada menos que 309 marcas diferentes. “A concorrência é feroz, e o problema é que os celulares já quase não se diferenciam entre si”, afirma Zou. Em 2015, os fabricantes chineses lançaram em média três novos modelos por dia.

Muitas fábricas das marcas menos confiáveis estão situadas na província de Guangdong (Cantão), no sul do país, e são relativamente pequenas. Trabalham com componentes de baixa qualidade e, sobretudo, não têm capacidade de dar suporte aos terminais que vendem no exterior. “É lógico pensar que vai se produzir uma dolorosa consolidação do mercado, em que ficará somente uma vintena de fabricantes importantes”, comenta uma fonte do Xiaomi. “E isso não será um problema para a concorrência. Pelo contrário, servirá para que os consumidores estejam mais protegidos e possam escolher entre produtos de maior qualidade”. O trabalhador espanhol concorda. “Dá a sensação de que, no final, só ficarão Xiaomi, OPPO, e alguma outra”.

Até então, o melhor conselho é exercer cautela ao comprar celulares chineses ‘online’. E existem alguns parâmetros que são bons indicadores de que é melhor manter distância: discrepâncias nos diferentes parâmetros técnicos, má tradução nas especificações, ou um preço excessivamente baixo em relação a Xiaomi, Meizu, ou OnePlus são indícios – quando não certezas – de que talvez seja até melhor comprar um Zetta.

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