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Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro, é preso pela Lava Jato

Ele é acusado de liderar grupo que desviou mais de 220 milhões de reais em contratos de obras com diversas empreiteiras

Sérgio Cabral preso Lava Jato
Sérgio Cabral, em uma imagem de 2010. Ag. Brasil

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB-RJ) foi preso preventivamente na manhã desta quinta-feira pela operação Calicute, um desmembramento da Lava Jato, que investiga recebimento de propina em obras no Rio. Cabral é acusado de liderar um esquema que desviou mais de 220 milhões de reais em contratos com diversas empreiteiras para obras no Estado. A ex-primeira dama Adriana Ancelmo, esposa de Cabral, também foi presa, temporariamente.

Sérgio Cabral é o segundo ex-governador do Rio preso no período de pouco mais de 24 horas. Na quarta-feira pela manhã, Anthony Garotinho (PR) foi detido em outra operação, acusado de fazer parte de esquema de compra de votos por meio de um programa social.

A operação desta quinta foi deflagrada logo pela manhã, quando agentes da PF foram até a casa de Cabral para prendê-lo. Em frente ao prédio do ex-governador, além de muitos jornalistas, alguns manifestantes se aglomeraram. A polícia usou spray de pimenta em direção à imprensa e aos manifestantes, de acordo com o portal G1.

A prisão de dois ex-governadores aumenta a convulsão política vivida no Estado. Na tarde desta quarta, poucas horas depois de Garotinho ser detido, centenas de pessoas foram reprimidas pela Polícia Militar enquanto protestavam em frente à Assembleia Legislativa do Rio, no centro da cidade. Os manifestantes, em sua maioria servidores públicos, eram contrários a um pacote de medidas de ajuste que será votado na Casa até dezembro.

O Estado do Rio vive uma grave crise financeira. Milhares de servidores públicos estão recebendo seus salários em parcelas há meses e o Estado pede socorro ao Governo Federal para tentar se desafogar das dívidas. Sérgio Cabral, eleito em 2006 e reeleito em 2010, é o símbolo do auge e da derrocada do Rio de Janeiro. Cumpriu mandato até 2014, quando deixou o Governo pela porta dos fundos, publicando uma breve carta de renúncia. Pretendia ser candidato ao Senado ou à Câmara naquele ano, mas acabou não disputando nenhum dos cargos. Apesar da saída melancólica, Cabral conseguiu eleger seu sucessor naquele ano, o atual governador Luis Fernando Pezão, também do PMDB.

Operação Calicute

A operação Calicute é um desmembramento da Lava Jato e investiga desvios em diversas obras realizadas no Rio de Janeiro. O nome da operação refere-se à expedição de Pedro Álvares Cabral às Índias, que marcou a ascensão e queda do navegador.

A Polícia Federal afirma que a investigação identificou "fortes indícios de cartelização de grandes obras executadas com recursos federais mediante o pagamento de propinas a agentes estatais, incluindo um ex-governador do Estado do Rio de Janeiro". As principais obras investigadas são a reforma do estádio do Maracanã, que custou 1,5 bilhão de reais, o Arco Metropolitano, orçado em 1,5 bilhão também, e o PAC das Favelas, que custou 1,1 bilhão de reais. Todas as obras foram feitas na cidade do Rio de Janeiro com investimentos do Governo Federal. No total, essas três obras, realizadas pela Andrade Guitierrez e pela Carioca Engenharia, renderam 224 milhões de reais ao ex-governador, segundo a PF.

Os agentes afirmam que Cabral cobrava uma "mesada" das empreiteiras que realizavam as obras. As construtoras OAS, UTC, Camargo Correa, Odebrecht, Mendes Junior, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Engevix, Galvão Engenharia, dentre outras, formaram um cartel para, sistematicamente, forjar as licitações. Para realizar as obras, o Governo cobrava propina mensal de 5% do total de cada obra destinado a Cabral, mais 1% de "taxa de oxigênio", que era repassado à secretaria de Obras do Estado. O esquema ocorreu desde 2010 e segundo a PF, ultrapassou o Governo Cabral, atingindo a gestão Pezão.

Os pagamentos eram feitos em espécie, mas também por meio de veículos comprados, móveis, maquinário agrícola e até vestidos de festa para a ex-primeira dama, Adriana Ancelmo. Na operação desta quinta, foram apreendidos além de dinheiro em espécie, automóveis, obras de arte e outros objetos que teriam sido usados como pagamento.

Foram expedidos pela 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro 38 mandados de busca e apreensão e oito mandados de prisão preventiva. Além de Cabral, o ex-assessor Wagner Jordão Garcia e o ex-secretário de Governo Wilson Carlos também tiveram prisão decretada. A princípio, Cabral ficará preso em Bangu, no Rio de Janeiro. São investigados os crimes de pertencimento à organização criminosa, corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, entre outros.

O juiz Sérgio Moro participou ativamente desta operação: a 13ª Vara Federal de Curitiba expediu mais 14 mandados de busca e apreensão, dois mandados de prisão preventiva e um mandado de prisão temporária, além daqueles expedidos pela Vara do Rio. Sérgio Cabral teve dois mandados de prisão expedidos - por Curitiba e pelo Rio.

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