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Nova fase da Lava Jato fecha cerco contra João Santana, o marqueteiro do PT

João Santana, responsável pelas campanhas de Lula e Dilma, teve prisão temporária decretada

A estrela do marketing político do PT, o baiano João Santana, é o principal alvo da 23ª fase da operação Lava Jato, realizada na manhã deste segunda-feira. Ele foi responsável pela propaganda de campanha que ajudou a reeleger o ex-presidente Lula e pelas peças publicitárias de Dilma Rousseff. Além disso, Santana atuou como conselheiro da presidenta em diversos momentos da crise política que o Planalto atravessa. De acordo com a Polícia Federal, os agentes tentaram cumprir mandado de prisão temporária contra ele e sua esposa, Mônica Moura, mas ambos estão na República Dominicana, onde Santana trabalha na campanha de reeleição do presidente Danilo Medina. A suspeita da força-tarefa é que o marqueteiro e sua mulher tenha contas não declaradas no exterior operadas por off-shores que teriam sido irrigadas com dinheiro da empreiteira Odebrecht – os ativos superariam 7 milhões de dólares. Parte dessas somas pode ter abastecido campanhas do PT. O nome desta etapa da operação, Acarajé, seria uma referência ao nome usado pelos envolvidos no esquema para designar dinheiro vivo.

No total, Santana já ajudou a eleger sete presidentes ao redor do mundo: Lula (2006), Dilma Rousseff (2010 e 2014), Mauricio Funes em El Salvador (2009), Danilo Medina (2012), José Eduardo dos Santos em Angola (2012) e Hugo Chavez e Nicolás Maduro na Venezuela (2012). Ele também trabalhou em campanhas derrotadas no Panamá e Argentina. Em nota o advogado de Santana, Fábio Tofic Simantob, afirmou que seu cliente e Monica "já agendaram seu imediato retorno ao Brasil", e que se apresentarão à Justiça imediatamente após o desembarque. A nova etapa da operação tem potencial de colocar mais lenha na fogueira da crise política vivida pelo Governo, que ainda tem pela frente um processo de impeachment contra a presidenta Dilma - suspenso pelo Supremo Tribunal Federal - e um Congresso hostil. Além disso, o Planalto ainda lida com o desgaste provocado pela fase anterior da Lava Jato, a Triplo X, que mirou um triplex que teria sido reformado pela OAS para Lula.

Um dos pontos de partida desta fase da Lava Jato foi uma carta apreendida pela PF onde Monica havia anotado dados de suas contas  bancárias - uma no Citibank de Nova York Y e outra na agência de Londres - para receber pagamentos. No total a PF cumpriu hoje 51 mandados judiciais nos Estados da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. Além de Santana, a PF também realiza buscas em escritórios da construtora Odebrecht, uma das investigadas na Lava Jato. Marcelo Odebrecht, que era presidente da empresa e se afastou do cargo após ser preso em junho de 2015, é um dos poucos empreiteiros denunciados que continua detido – ele não aderiu ao acordo de delação premiada.

As relações entre o herdeiro do império Odebrecht e o marqueteiro João Santana começaram a ficar mais claras em junho do ano passado, quando, no telefone celular de Marcelo, a força-tarefa encontrou a seguinte mensagem, endereçada a um executivo da companhia: “Dizer do risco cta (sic - conta) suíça chegar na campanha dela”. Para os agentes, trata-se de uma possível menção a pagamentos feitos pela Odebrecht depositados nas contas de Santana que seriam redirecionados para a campanha da presidenta Dilma Rousseff.

A Polícia também pediu nova prisão preventiva para o empreiteiro - negada pelo juiz Sérgio Moro -, já que de acordo com as investigações ele teria remanejado funcionários da Odebrecht para outros países com a finalidade de dificultar que a Justiça chegasse a eles. “Essa empresa vem sistematicamente retirando funcionários do alcance das autoridades brasileiras após o inicio da operação, temos documentos que comprovam isso”, afirmou o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima. De acordo com ele, os três empregados da empreiteira que tiveram pedido de prisão temporária decretada e estão em outros países entrarão em breve na lista vermelha da Interpol para captura e extradição. Além disso, a força-tarefa identificou possíveis pagamentos de propina da empreiteira a agentes públicos na Argentina para a obtenção de contratos no país. “Estamos trabalhando com autoridades de outros países para auxiliá-los”, disse. Marcelo também é suspeito de ter intermediado os pagamentos feitos via as off-shores Klienfeld e Innovation - controladas por ele - para Santana. As duas empresas são mencionadas nos documentos enviados pelo Ministério Público da Suíça como o ponto de origem dos pagamentos de propina para diretores da Petrobras.

No ano passado a Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros da Polícia Federal havia aberto inquérito para investigar João Santana por outra suposta irregularidade. Havia a suspeita de que ele teria trazido ao Brasil 16 milhões de dólares, oriundos de Angola, em 2012, no que poderia ser uma operação de lavagem de dinheiro para beneficiar o PT. Naquele ano o marqueteiro atuou em duas campanhas eleitorais: em São Paulo, para o então candidato Fernando Haddad, que venceu o pleito para prefeito da capital, e em Angola, onde assessorou o partido Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA). João Santana negou qualquer irregularidade, e publicou no site de sua agência, a Pólis Propaganda, recibos e comprovantes das transações realizadas.

A PF também cumpre hoje mandado de prisão contra o consultor Zwi Skornicki. Ele seria um dos operadores do esquema envolvendo o marqueteiro João Santana, e é representante da Keppel Fels, um estaleiro de Cingapura que prestou serviços à Petrobras. Dos 51 mandados, 38 são de busca e apreensão, dois de prisão preventiva, seis de prisão temporária e cinco de condução coercitiva (quando o intimado é obrigado a comparecer às dependências da Polícia).

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