A nova aposta de Michael Burry

Ele enriqueceu ao prever o ‘crash’ do ‘subprime’ e inspirou o filme 'A Grande Aposta', indicado ao Oscar

O investidor Michael Burry, em 2010. Bloomberg / Reuters-LIVE!

Em seu perfil na Match.com, rede social de namoro, Michael Burry se apresentava como “estudante de medicina com um olho só, desajeitado nas relações sociais e com uma dívida de 145.000 dólares [quase 600.000 reais] em empréstimos universitários”. Funcionou. O sujeito pareceu atraente, e ele conheceu ali sua segunda esposa. Burry se saía bem nas apostas de risco e era persistente, e não seria só daquela vez que ele teria êxito. Aquele sujeito com seus 30 anos, sem formação financeira, viu com seu único olho o que ninguém mais viu, fez história no último grande crash, criou os derivativos de crédito (espécie de seguro de inadimplência) das hipotecas podres e ficou rico graças a isso. É o personagem principal do livro A Jogada do Século, sobre a crise, que virou filme (em cartaz desde 14 de janeiro no Brasil) com o título A Grande Aposta, um dos favoritos a levar o Oscar de melhor filme.

“Minha condição natural de outsider sempre me leva a analisar qualquer grupo a partir de fora”, disse Burry à Bloomberg TV anos atrás. O olho perdido devido a um câncer quando tinha dois anos de idade o tornou um tanto retraído. E era constante ao extremo. Começou sua carreira nos mercados como blogueiro sobre investimento à noite, cada vez mais influente, enquanto estudava Medicina. Abandonou a carreira de neurologista para criar seu primeiro fundo, o Scion Capital, com o qual faria sua grande jogada. No filme, é interpretado por Christian Bale: o papel rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvamente.

“É evidente que conseguiu isso porque era muito obsessivo, eram produtos muito complicados, e o problema que houve é que ninguém mais viu isso, o mercado demorou demais para fazê-lo, e por isso seu investimento demorou para subir de preço, e precisou suportar muita pressão”, explica Jeff Madrick, autor de Age of Greed: The Triumph of Finance and the Decline of America (idade da ganância: o triunfo das finanças e o declínio da América). Burry digeriu dezenas de prospectos de 130 páginas sobre cada bônus ligado a hipotecas. Percebeu que tinham sido concedidos créditos de alto risco, que muitas famílias começavam a sofrer para pagar os empréstimos e que aquilo era uma bomba-relógio.

Christian Bale interpretando Michael Burry em 'A Grande Aposta
Christian Bale interpretando Michael Burry em 'A Grande Aposta".

Antes, em 1998, tinham diagnosticado nele transtorno bipolar. Não era bipolar. Com o tempo se deu conta de ter síndrome de Asperger. Foi isso provavelmente que lhe permitiu dedicar todas aquelas horas a uma análise tão pormenorizada. Foi então que convenceu o Deutsche Bank e o Goldman Sachs a vender toneladas de derivativos de crédito (credit default swaps, ou CDS) para esses valores tóxicos e esperou.

O problema é que a bolha demorou para estourar, e muitos investidores pularam fora. Willam D. Cohan, analista e autor de vários livros sobre Wall Street, ressalta que “alguns de seus investidores pediram de volta seu dinheiro, e ele acabou sendo bloqueado; isso ajudou até certo ponto, mas ele estava certo sobre o que aconteceria no mercado. Se não tivesse acertado, esse bloqueio não teria sido útil”.

Sua criação

Outras pessoas intuíram o que aconteceria com as hipotecas podres, mas Michael Burry criou a forma de apostar contra elas, o que no jargão financeiro é chamado de “ficar vendido”: tomar emprestado um ativo que se julga supervalorizado, vendê-lo na alta, recomprar na baixa e devolver o ativo, embolsando o lucro.

O problema é que na época não havia como “ficar vendido” com as subprime porque os bônus lastreados por esse tipo de crédito tóxico representavam partes muito pequenas, difíceis de encontrar e portanto de pegar emprestado. Ele pensou nos derivativos de crédito (CDS), mas ligados exclusivamente a esses créditos subprime, algo que não existia. O fundador do Scion convenceu dois bancos de investimento a emiti-los e vendê-los. Em março de 2005 fez seus primeiros 60 milhões de dólares.

Quando a crise estourou, o investimento se multiplicou, e o Scion ganhou cerca de um bilhão de dólares. Depois fechou o fundo e passou a se dedicar a suas finanças pessoais. Ficou farto dos investidores. “Investir sozinho é libertador, posso ficar fora do mercado, e ninguém liga. É genial”, declarou.

Em 2010 mudou sua aposta para o ouro, as pequenas empresas de tecnologia e as terras agrícolas. A água estava por trás desse último investimento. “Vi claramente que a comida é a maneira de investir em água, cultivar alimentos em terra rica em água e transportá-la para terra pobre em água”, explicou em dezembro à revista New York. Alertou sobre o acúmulo de dívida pelos países: “A ideia de que o crescimento remediará nossas dívidas é viciante para os políticos, mas as pessoas acabam pagando o preço”. Também contra os juros baixos: “Os juros reais negativos são tóxicos”. Ficou surpreso por nenhum dos altos executivos ter sido punido pelas hipotecas podres.

Em 2013 voltou a abrir um fundo, novamente chamado Scion Management e com sede em Cupertino (Califórnia), curiosamente a meca dessas empresas tecnológicas ameaçadas pela tempestade. Mas seus clientes sabem agora que o sujeito com quem deixaram seu dinheiro é, como ele mesmo diz, um outsider.

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