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Delta do Parnaíba, um labirinto paradisíaco

Encontro das águas do rio Parnaíba com o mar é o coração da Rota das Emoções

Passeio também inclui s praias pouco exploradas do Piauí, no nordeste do Brasil

Parnaíba (Piauí)

Encravado no caminho entre os Lençóis Maranhenses e a praia de Jericoacoara, o Delta do Parnaíba é o coração da Rota das Emoções, o roteiro composto por essa tríade de destinos exuberantes que formam o trajeto que une o litoral dos Estados do Maranhão, Piauí e Ceará, no Nordeste brasileiro.

Revoada dos guarás: um 'show' no meio do delta.
Revoada dos guarás: um 'show' no meio do delta.

Ainda pouco explorado pelo turismo de massa no Brasil, a região central da rota atrai quem busca belas paisagens, contato com a natureza e sossego (ou aventura, outra boa razão para uma visita). O interesse crescente não é à toa: a foz do rio que dá nome ao único delta em mar aberto das Américas lembra uma mão cujos cinco dedos desembocam no oceano Atlântico, formando um braço cercado por mais de 70 ilhas. O resultado disso é um labirinto paradisíaco, com dunas que parecem caminhar lentamente em direção às águas; mangues que abrigam uma infinidade de espécies de animais e vegetação e alimentam a população ribeirinha; e praias desertas praticamente esquecidas pelos turistas na baixa temporada.

A porta de entrada é Parnaíba, charmosa cidade piauiense (a 340 quilômetros da capital Teresina) que serve de base para os viajantes que querem explorar tanto o santuário ecológico da foz do rio quanto as praias do Piauí —a menor fatia do litoral brasileiro, com 66 quilômetros de extensão. Ainda é noite na maior parte do país quando amanhece nessa região, mas é somente a partir das 8h30 que saem do porto dos Tatus, na vizinha Ilha Grande, as embarcações turísticas que percorrem o delta. Nessa hora, seja qual for a época do ano, o sol já queima forte e a recomendação repetida à exaustão é pelo uso do protetor solar (vale levar um repelente também).

Há duas formas de conhecer o delta: em passeios regulares nas embarcações grandes, que levam até 60 passageiros e custam em média 50 reais por pessoa. Ou fretando uma lancha rápida com um guia, que sai de 250 a 600 reais por embarcação, dependendo da capacidade de ocupantes (de cinco a dez pessoas), e do trajeto, que pode ou não incluir a ida à ilha dos guarás, no fim do dia (um dos pontos altos do passeio). Na baixa temporada, porém, muitas vezes os barcos maiores não alcançam a lotação mínima e, assim, o jeito é contratar um tour privativo —o que não é um problema no verão. Ambos os passeios duram uma manhã e uma tarde percorrendo igarapés e visitando praias de água doce e salgada.

Pescador mostra camarão-branco: Parnaíba é fonte de sustento da população da região.
Pescador mostra camarão-branco: Parnaíba é fonte de sustento da população da região.

Poucos minutos após deixar o porto, a sensação é de estar em um local completamente isolado do resto do mundo. Com a exceção das poucas chalanas com pescadores e catadores de caranguejo que vão e vêm silenciosamente pelo Velho Monge (apelido carinhoso do rio Parnaíba), as únicas companhias no percurso são os macacos bugios e macacos-prego que voam pelas árvores, os peixes de quatro olhos (também conhecidos como zoiúdo) que correm pelas margens dos igarapés, os caranguejos que se escondem nas tocas dos manguezais e, com sorte, jacarés e tartarugas —estes, mais raros de se ver.

Mas é no fim do dia, quando o sol começa a se pôr, que chega a companhia mais aguardada: os guarás. As aves de cor escarlate começam a surgir do além, pontualmente às cinco horas da tarde, para repousarem em grupos —centenas delas juntas— em uma pequena ilhota inabitada próxima à Ilha do Caju (a cerca de uma hora e meia do porto dos Tatus, já no Maranhão). O espetáculo dura em média trinta minutos e tinge de vermelho os galhos das árvores da pequena ilha-dormitório desses pássaros. A revoada dos Guarás, que adquirem a cor de sangue por se alimentarem exclusivamente dos caranguejos da mesma coloração, é um show da natureza que parece hipnotizar quem assiste. Até o sol se pôr, mesmo lotadas de turistas, não se ouve um pio de dentro das lanchas.

O retorno ao porto dos tatus é, como dizem por aqui, com emoção. No escuro, as lanchas se guiam somente pelo reflexo da lua (ou das estrelas) no espelho d’água em que o rio se transforma, desviando rapidamente dos bancos de areia no fundo dos rios. Aviso aos estômagos sensíveis: definitivamente, essa não é uma tarefa para amadores.

Praia de Atalaia.
Praia de Atalaia.

Turistas à milanesa

Há quem ache que um dia é pouco para conhecer o delta e, por isso, decida passar a noite na Ilha das Canárias, uma vila de pescadores na foz do Parnaíba, que até 2005 não tinha energia elétrica, mas que hoje dispõe de algumas poucas pousadas confortáveis e áreas para acampar. Para a maioria, porém, a parte piauiense da Rota das Emoções continua no dia seguinte pelo litoral do Piauí, bem menos popular que os vizinhos Ceará e Maranhão, mas ainda assim dono de praias lindíssimas e boas surpresas.

A maioria das praias fica no município de Luís Correia, a cerca de 15 quilômetros de Parnaíba. O acesso é de carro ou micro-ônibus e o trajeto é um atrativo por si só: estradas desertas cercadas por carnaúbas e rodeadas por dunas que invadem (literalmente) as pistas e, fora da alta temporada, a impressão que se tem em alguns momentos é de se estar dirigindo pelo cenário de um filme pós-apocalíptico, não fossem os cabritos e jumentos ao redor das rodovias. Mas nas praias, banhistas encontram seu paraíso: em todas elas, é onipresente o mar de água limpa e transparente, a areia branca e fofa e o vento (muito vento) que molda os coqueiros e árvores da região —a mais famosa delas, a Árvore do Cabelo Penteado, que virou um cartão postal.

Árvore do Cabelo Penteado, no litoral do Piauí, parte da Rota das Emoções.
Árvore do Cabelo Penteado, no litoral do Piauí, parte da Rota das Emoções.

O estilo da praia muda de um lugar para o outro: as edênicas Macapá e Barra Grande são reduto dos praticantes de kitesurf, mas também atraem quem busca aquele visual de fundo de tela de computador. Já nas praias de Atalaia e de Coqueiro, os quiosques de palha e restaurantes garantem a infra-estrutura de quem busca mais conforto e diversão. Na Pedra do Sal, rodeada por moinhos de vento (o Estado é um dos maiores produtores nacionais de energia eólica), há espaço tanto para quem quer surfar, de um lado da praia, quanto para quem prefere ficar boiando nas áreas calminhas, do outro. Como o litoral tem apenas 66 quilômetros de extensão, em apenas um fim de semana é possível conhecer todas as praias do Estado.

Praia de Macapá, que atrai praticantes de kitesurf.
Praia de Macapá, que atrai praticantes de kitesurf.

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