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Por que sempre nos emocionamos com a música de ‘Star Wars’

John Williams criou para a saga a trilha sonora mais popular da história do cinema

John Williams em um concerto em 2014.
John Williams em um concerto em 2014. GETTY

Os dois sóis do planeta desértico Tatooine estão se pondo e dão à paisagem, que de dia é de um amarelo abrasador, um tom avermelhado e onírico. Luke Skywalker, um adolescente que acaba de perder uma discussão com seus tios sobre seu futuro e as aventuras que nunca o deixarão viver, contempla sua descida. Os sóis estão ali fora, na galáxia, onde acontece tudo. Ele está na casa dele. Em meio a isso, ouvimos o som de uma orquestra que está usando quase todos os seus membros para transformar um momento sem diálogos nem espadas de laser nem androides em um dos mais antológicos da saga mais antológica da história. “A música transmite tudo o que Luke está sentindo sobre sua vida e seus sonhos para o futuro”, explica sobre essa cena do filme Star Wars original, de 1977, Mike Matessino, historiador de cinema e produtor de edições de luxo de trilhas sonoras. “É um momento universalmente acessível.”

Se o olfato é o sentido que mais nos transporta para um instante e lugar concretos de nossa memória, no universo de Star Wars o equivalente é a música. O início inconfundível de cada um dos filmes sobre o logotipo de letras amarelas que nos situa em “uma galáxia muito, muito distante”. A marcha militar com a qual qualquer ser humano do planeta identifica Darth Vader. Os coros druídicos que todo mundo sabe que é como soa uma batalha de sabres de luz, mesmo entre crianças em um parque. São quase 12 horas formadas por quase 30 melodias legendárias para quase 30 personagens legendários. O patrimônio emocional de três gerações de sonhadores galácticos. Uma obra artesanal e atemporal que passou pelos anos como um brinquedo de madeira, intacto, apesar de todas as mãos que o usaram. Seu autor, John Williams, tem passado o restante de sua carreira oferecendo magia parecida – nas sagas de Indiana Jones, Superman, Harry Potter, Jurassic Park e Tubarão –, mas nunca conseguiu tamanho e alcance semelhantes. Ninguém conseguiu. A trilha sonora de Star Wars é a mais popular da história do cinema.

Quando, em 18 de dezembro, a humanidade retornar à galáxia com O Despertar da Força, Williams a receberá pela sétima vez com a fórmula que rompeu padrões nos anos setenta: acompanhar um filme de naves espaciais, pistolas de laser e robôs com uma orquestra clássica e um som sinfônico velho como o amanhecer. “A música está composta como se os acontecimentos do filme já tivessem ocorrido, como se fosse a história clássica de uma lenda. É completamente novo, mas soa como algo feito para uma história que já ouvimos”, aprofunda Matessino, produtor, em 1997, da reedição destas trilhas sonoras que hoje não podem faltar em nenhuma loja. “A natureza tão peculiar da obra vem, além disso, pela forma como combina com a imagem: não há momentos dissonantes entre música e ação. A orquestra está sempre usando e desenvolvendo os mesmos temas, e assim cria uma obra completamente acessível e atemporal.” Quando a imagem pede aventura, a música a oferece sem dilui-la. Quando pede momentos épicos, oferece dupla porção.

Quatro décadas depois, Hollywood recebe O Despertar da Força já acostumada a todas as dimensões épicas de Star Wars. Todas menos a música. “Hoje em dia a chave está em conhecer a tecnologia. Tudo é feito por computador. Não é normal encontrar alguém que ainda se sente com lápis e papel ao piano [como fazia e ainda faz John Williams]”, explica Jasha Klebe, jovem colaborador do Hans Zimmer nas trilhas sonoras de O Homem de Aço e Batman: o Cavaleiro das Trevas Renasce e coautor da música do documentário do NetflixWinter on Fire. A norma da última década é fugir do som orquestral. Os floreios são considerados bregas e as melodias reconhecíveis, infantis. Prefere-se o toque de um sintetizador (pensem nos filmes do Batman e Superman) e uma textura uniforme. Que soe a agora e não a sempre. “Aquelas obras clássicas estavam orquestradas de forma preciosa”, recorda Klebe. “É admirável como redobravam melodias para conseguir esse som tão épico. Agora são muito mais usados os sons mais sintéticos.”

A nova trilha sonora ocupa assim um lugar incômodo em sua estreia: recordará, ao mesmo tempo, uma era ancestral, “há muito tempo em uma galáxia muito, muito distante”, e uma época obsoleta na qual a música de cinema não precisava de computadores. Esse limbo não durará muito. John Williams, de 83 anos, passou parte de 2015 sem trabalhar por causa da colocação de um marca-passo. Para compor a música e reger a orquestra, demorou mais que o dobro que em A Vingança dos Sith, em 2005. Para concluir a missão, teve de renunciar, pela primeira vez em 30 anos, a escrever a música de um filme de seu amigo Steven Spielberg, Ponte dos Espiões. Enquanto isso, a Disney pretende estrear nos próximos 5 anos mais filmes da saga do que George Lucas nos últimos 30. A ópera das galáxias terá de enterrar o compositor que lhe deu alma.

Em 9 de dezembro, o compositor da moda em Hollywood, Michael Giacchino, publicou na revista The Hollywood Reporter uma coluna elogiando Williams e o legado de Star Wars. Pode-se entrever aí uma manobra para que se comece a associá-lo com a franquia antes que ele herde a batuta (já herdou a de Jurassic Park). Ou pode ser que seja só uma demonstração de admiração. Essa é uma incógnita menor. A maior permanece intacta: como é que vão montar outro brinquedo de madeira no mundo das linhas de montagem. Porque se não fizerem isso, da próxima vez em que os sóis se puserem em Tatooine, isso só significará que chegou a noite.

A ópera das galáxias

A saga está cheia de momentos reconhecíveis praticamente só pela música. Em Guerra nas Estrelas, por exemplo, quando a nave Millennium Falcon está presa no campo de tração da Estrela da Morte (minuto 1:20 do vídeo). Mais tarde, quando consegue escapar, a perseguição a que é submetida pelos caças imperiais (0:33) é uma das trilhas mais memoráveis da saga. Assim como a entrega de medalhas do fim do filme, que fecha a ferida aberta por aquele pôr de sóis de Tatooine.

De O Império Contra-Ataca sempre ficará o balé da Millennium Falcon pelos asteroides ou o triunfalismo de quando Yoda resgata de um pântano o caça de Luke Skywalker.

Em O Retorno de Jedi, além da cena de ação que mais causa arrepios em toda a saga, há uma passagem de menos de um minuto, quando Luke sucumbe ao lado sombrio da Força, de uma solenidade impressionante, quase religiosa. A trilogia “prequela” deixou de lado os momentos culminantes em prol da complexidade orquestral, mas ainda se pode resgatar dela a luta na areia de Ataque dos Clones e os coros de A Ameaça Fantasma.

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