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Aluga-se de tudo

Empreendedores criam sites de empréstimo de equipamentos, de roupas e até de tempo

Nathalia Roberto e Daniela Ribeiro, da House of Bubbles.
Nathalia Roberto e Daniela Ribeiro, da House of Bubbles.

Roupas acumulando poeira no armário, uma bicicleta enferrujando na garagem, um violão esquecido no canto da sala, uma geladeira abandonada no quintal, encoberta por plantas. Compramos muitas coisas. Mas quantas, realmente, utilizamos até a completa exaustão? O ciclo de vida dos produtos tem encolhido com o tempo, seja porque as marcas, pautadas por uma espécie de obsoletismo programado, lançam versões mais avançadas de seus modelos com intervalos bem curtos, seja porque simplesmente não usufruímos adequadamente de tudo aquilo que achamos que precisamos. E para onde vai toda essa tralha que compramos? Dentro de poucos anos, geralmente, vai parar em aterros sanitários, agravando o problema da poluição ambiental gerada, justamente, pelo crescimento desenfreado do consumo.

Com a proposta de resolver este problema, empreendedores do mundo todo estão desenvolvendo plataformas de compartilhamento de produtos. A moda chegou também ao Brasil e está cada vez mais comum encontrar sites de aluguel de qualquer tipo de bem que você possa imaginar, como vestuário, materiais esportivos, audiovisuais, instrumentos musicais, veículos e até eletrodomésticos. Qualquer pessoa que tenha um objeto parado em casa pode cadastrá-lo em um site de compartilhamento e emprestá-lo para quem precisa daquele mesmo produto, mas não pode ou não quer comprá-lo, visto que não tem intenção de utilizá-lo por muito tempo.

Esse aluguel de bens alimenta o que se convencionou chamar de economia colaborativa, uma tendência que promete revolucionar o capitalismo. "As pessoas estão mais conscientes de que não cabe tanta coisa no mundo. O ciclo do consumo gerou sérios desequilíbrios para o planeta e não é sustentável manter as coisas como estão", afirma Guilherme Pantaleão que, em sociedade com Pedro Luís Palermo, fundou a Cyou, uma plataforma de aluguel de objetos diversos entre pessoas físicas. Pelo site, é possível emprestar qualquer coisa, exceto carros e imóveis. "Focamos objetos que têm uso muito pontual", explica. Por exemplo, uma produtora independente que queira alugar equipamentos de fotografia ou objetos para compor cenografia, pode encontrá-los no Cyou, sem ter de investir muito alto no projeto.

O aluguel e a devolução são negociados entre as partes, ou seja, os usuários cadastrados no site. O dono do produto tem a opção de usufruir de um seguro contra danos e roubo. "Nunca tivemos de acioná-lo, contudo. O máximo que acontece é alguém atrasar a data de devolução. Mas o dono geralmente nem se importa, nem quer cobrar mais aluguel da pessoa que pegou emprestado. Os usuários trabalham muito bem no clima de colaboração, de comunidade. Essa é uma vantagem da economia colaborativa, ela é pautada na confiança e no desejo de compartilhar o que se tem", justifica Pantaleão. A Cyou recebe um percentual do lucro que os usuários obtém do aluguel. A empresa ainda não possui investidor, mas está participando de um processo de seleção para aceleração de startups.

A empresa nasceu em fevereiro de 2014, com o capital dos sócios, de 60.000 reais. O dinheiro foi praticamente todo investido no desenvolvimento da plataforma, pois a divulgação foi realizada pelas redes sociais. O site entrou no ar apenas em janeiro de 2015, com 50 usuários. Hoje tem mais de 300, a maioria na grande São Paulo. "O crescimento no número de usuários se justifica porque esta é uma forma interessante de gerar renda extra no fim do mês. O público que mais se interessa por essa iniciativa parece ser o da geração millenium, que tem a sustentabilidade como valor e está acostumada com a dinâmica da internet, que nada mais é do que uma rede de compartilhamento de informação", conta.

Com que roupa eu vou?

Outra empresa que nasceu com a ideologia da economia colaborativa é a roupateca House of Bubbles, uma plataforma que permite alugar roupas de grifes cobiçadas. Para aderir ao clube, é preciso pagar uma mensalidade. Quem tiver peças esquecidas no fundo das gavetas e quiser colocá-las à disposição de outras pessoas, pode negociás-la com as sócias da roupateca, Daniela Ribeiro e Nathalia Roberto. Elas avaliarão as roupas e darão um valor para elas. Esse valor poderá ser abatido da mensalidade. "A pessoa ganha acesso a um monte de outras peças. Como são artigos caros, nem todo mundo pode comprar. Mas pode pegar emprestado", conta Daniela.

O acervo, portanto, pertence à roupateca. Existem hoje três planos diferentes para se tornar um membro, de cem, duzentos ou trezentos reais por mês. No primeiro, é possível retirar apenas uma peça por vez. No último, três peças. "O acervo, que hoje conta com 150 peças, é construído de maneira colaborativa. Todo mundo tem aquela roupa que comprou e quase nunca usou. Não tem motivo para deixarmos tanta coisa parada. A ideia da House of Bubbles é permitir que uma roupa circule mais e tenha um ciclo de vida bem longo", explica Daniela.

A plataforma começou a funcionar em uma versão de testes em novembro, com 50 usuários, convidados pelas fundadoras. Em dezembro, contudo, começará a funcionar para o público geral e a expectativa é que o acervo encerre o ano com mais de 400 peças de marca. A ideia nasceu de uma parceria antiga das fundadoras, uma consultoria de estilo. "Uma das etapas era a de revitalizar o guarda-roupa das clientes. Com as peças que sobravam, alimentávamos nosso bazar, chamado Entre Nós. Mas começamos a adentrar mais no conceito da economia colaborativa, pois queríamos trabalhar com um negócio mais sustentável, dissociado da simples venda de roupas", afirma. "Há roupa suficiente hoje para vestir todo mundo. Não precisamos de empreendimentos que estimulam o consumo, a fabricação de mais e mais peças. Descartamos tudo muito rápido, tudo se torna obsoleta rápido demais. É preciso refletirmos mais sobre o consumo consciente, uma alternativa menos predatória para o planeta", complementa.

Daniela não acredita que o aluguel de roupas incomode a indústria da moda. "Esse ramo é gigantesco, então a economia colaborativa ainda não o afeta. Pode ser sim ruim eventualmente para as fabricantes de roupas, mas a existência de uma contracultura é importante para que a indústria toda se reinvente. É um processo de evolução dos meios de produção que tem como alvo um objetivo maior, a sustentabilidade", destaca a empresária.

Compartilhando tempo

Não é preciso possuir um bem passível de empréstimo para participar da economia colaborativa. Se você tem um tempinho sobrando, também pode contribuir com alguma rede de compartilhamento - e usufruir dela. Um exemplo é a Bliive, uma plataforma de "troca de tempo", como define a sua fundadora, Lorrana Scarpioni, de 25 anos. A rede, que conta com mais de 100.000 usuários em 60 países, permite que você troque uma hora do seu tempo por uma hora do tempo de outra pessoa. Nesse sentido, você pode trocar uma aula de inglês por uma de ioga, ou de finanças pessoais, por exemplo.

Lorrana Scarpioni, da Bliive
Lorrana Scarpioni, da Bliive

A empresa nasceu em 2012, com 20.000 reais do próprio bolso. Em maio de 2014, recebeu o primeiro investimento, após ter participado de um programa de aceleração de startups do governo inglês, o Sirius Programme, em maio de 2014. Já em janeiro de 2015 recebeu outro aporte, desta vez, de um investidor-anjo.

Lorrana possui duas graduações, uma em direito, e outra em relações públicas. Mas sempre quis ter o próprio negócio. Começou a se interessar mais pela economia compartilhada após assistir a um documentário sobre o assunto na televisão. "As pessoas que participam do Bliive não fazem por dinheiro, pois não são atividades remuneradas. Fazem porque querem compartilhar algo, ou porque querem aprender alguma coisa nova e não têm dinheiro sobrando para pagar um curso. É um espaço onde todos ganham", explica. No site, é possível encontrar de tudo um pouco. O mais comum, segundo a empreendedora, são aulas de idiomas. Mas há alguns serviços menos usuais também. "Tem gente que oferece uma hora de seu tempo para ouvir os problemas dos outros", diz.

Da mesma forma como o usuário não ganha dinheiro, a Bliive também não recebe um centavo pelo serviço. "Começamos este ano a trabalhar com organizações. Elas nos contratam para criar uma rede de trocas privada entre os seus funcionários. Esta será a nossa fonte de receita", afirma. Até o momento, a Bliive foi contratada por uma companhia que tem 35.000 funcionários.

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